Se alguém acha que o ato de matar tem sua raiz no amor, está imensamente enganado. Grandiosamente e extremamente enganado. Faço questão de frisar isto, pois se em algum momento alguém mata é porque a relação que existia entre assassino e vítima nunca foi de amor, mas sim uma relação de objeto e posse. Nestes casos, o outro não era parceiro de amor, mas sim um mero objeto a serviço das vontades e da possessividade. Amar é suportar o outro não sendo meu e sim dele mesmo. Quando amo, amo o outro e não alguém que quero que o outro seja, conforme o que quero e o que penso. Amar é respeitar e conviver com quem escolheu estar ao meu lado, numa caminhada a dois, e não como se a caminhada fosse a Um. Casal não é um só. São dois uns, dois diferentes, cada um, cada um. Querer fazer dois virarem um só num mesmo ritmo e vontade é no fundo, desejo de matar a particularidade e matar a diferença. Cuidado com esses ou essas que dizem ser um só com você, e que vocês dois formam um só. Cuidado com esses ou essas que dizem que você precisa ser do jeito que ele ou ela querem. Existe uma grande diferença entre parceiros de amor que contornam diferenças para criarem um convívio mais saudável, e aqueles parceiros adoecidos que exigem que outro mude de personalidade ou mude para agradar ao Ego. Todo casal muda junto, tanto para o melhor ou para o pior. Mas este melhor e este pior têm que ser analisados pela própria pessoa. Você consigo mesmo precisa analisar se está melhor para você ou pior PARA VOCÊ MESMO! Você é seu parâmetro. Se for mudar por alguém, que seja primeiro por você mesmo. Mudar pelo outro é um engano e logo será um objetivo fracassado. É assim que começa uma relação doentia, e que em muitos casos acaba em agressão ou morte. Agredir e matar é objetalizar, possuir e enquadrar o outro dentro daquilo que o meu Ego quer. A lógica que está na raiz de um feminicídio ou qualquer homicídio passional que o senso comum erroneamente expressa "matou por amor" não é a lógica do amor, nunca foi, mas sim se trata da lógica onde o outro é objeto da minha vontade, e se a vontade não é satisfeita, o que a impede de ser completa acabará sendo eliminado, no caso o(a) parceiro(a). É uma manifestação da pulsão de morte em sua vertente agressiva, e todos os humanos carregam isso, uns mais outros menos.
Espaço destinado ao compartilhamento dos artigos e escritos, que já foram publicados nos Jornais Observador e Folha de Pedro Leopoldo, entre outros espaços de publicação e comunicação. Trago também contribuições a partir de minha experiência clínica, estudos, discussões e formulações com pessoas interessadas no real da vida.
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quinta-feira, 28 de março de 2019
terça-feira, 2 de maio de 2017
A subjetividade é terreno inviolável: reflexão em tempos de intolerância política
Recentemente
fui perguntado sobre o que a Psicanálise teria a dizer quanto a um episódio de
repúdio por parte de um adulto frente à posição política momentânea de um
adolescente. Posição política esta do adolescente, incompatível com a posição
subjetiva deste adulto.
O
que a Psicanálise pode dizer e esclarecer é que uma posição política ou uma
escolha ideológica é uma das formas de expressão da subjetividade,
principalmente de um adolescente, em transição, em plena metamorfose pessoal e
em formação de presença singular no mundo. Ou seja, estamos no campo da esfera
íntima e particular. Estamos no campo da liberdade de o sujeito decidir ser
quem quiser, da forma como quiser e compartilhar dos pensamentos que no momento
lhe fizerem ter uma identidade. Se esta postura transcender a ordem pública ou
invadir o direito alheio, então temos os aparelhos de poder do Estado para
mediarem, conterem e se for o caso, até mesmo punirem.
Interpelar
a subjetividade de um ser humano sem o direito formal instituído para tal dever
social é invadir um terreno sensível, e no caso de um adolescente em plena
formação de personalidade é invadir um terreno frágil. Os efeitos de tal
desrespeito podem ser graves, a depender do nível de estruturação ao qual o adolescente
já esteja desenvolvido e do nível de suporte familiar que possui.
Nunca devemos nos esquecer que a adolescência é tempo de
turbulência, metamorfoses e mudanças. Uma postura política, ideológica ou
pensamento de um adolescente pode logo a frente mudar-se, visto que o sujeito
adolescente está em plena experimentação, em plena construção, e qualquer
intervenção irresponsável frente a este sujeito pode lhe trazer prejuízos
psíquicos importantes.
Atualmente, temos atravessados tempos difíceis de
intolerância e narcisismo, onde as pessoas acreditam serem melhores ou terem
posturas mais maduras do que outras e devido a isto se sentem no direito de
atacar, julgar e punir. O cenário político brasileiro e mundial têm dado
mostras deste narcisismo egoísta que agride tudo e todos que não lhe parecem
iguais. A diferença virou motivo de agressão! Cito Caetano Veloso na música
‘Sampa’ “é que narciso acha feio o que não é espelho”.
Cada
um precisa cuidar de si, pois o julgamento nada mais é do que a imperfeição
própria sendo projetada especularmente no próximo. Quanto mais eu julgo mais eu
dou a prova de que eu estou mal resolvido comigo mesmo. A projeção é um
mecanismo psíquico em que coloco no outro uma agressividade que eu mesmo tenho
contra minha própria pessoa. Porém, os outros não têm nada a ver com isso e não
precisam pagar um preço pela minha imaturidade e falta de inteligência
emocional. A perfeição não está comigo, nem com você, nem com adulto, nem mesmo
com o adolescente. Já diziam as pessoas mais espiritualizadas: A perfeição não é deste mundo!
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