quarta-feira, 12 de junho de 2013

"Amar é dar o que não se tem" Jacques Lacan

Aproveitando a proximidade com o Dia dos Namorados, comemorado pelos brasileiros no dia 12 de junho, o ParPerfeito(www.parperfeito.com.br), maior site de relacionamento do Brasil, realizou uma pesquisa com 2.500 usuários para descobrir quais atitudes podem determinar o fim de um relacionamento. E, por incrível que pareça, a falta de romantismo foi determinante para que 40% dos homens entrevistados colocassem um ponto final em alguma relação que já tiveram. Parece que eles estão mais românticos do que imaginávamos. No ranking geral, os maus hábitos, como fumar e beber, aparecem em segundo lugar com 23% dos votos. O interesse por outra pessoa vem logo em seguida, com 19% das escolhas.
Ao questionar as mulheres sobre o mesmo assunto, a pesquisa do ParPerfeito mostrou que elas têm a mesma opinião que o público masculino. Para a mulherada a falta de romantismo também vem em primeiro lugar, com 50% dos votos, maus hábitos em segundo, com 31% das escolhas, e interesse em outra pessoa em terceiro, com 13% das respostas. Confira abaixo o resultado completo da pesquisa.


HOMENS
O que já te fez terminar um relacionamento sério?
Falta de romantismo 40%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 23%
Interesse por outra pessoa 19%
Não se dar bem com a família do parceiro 17%
Ganhar um presente ruim 1%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013

MULHERES
O que já te fez terminar um relacionamento?
Falta de romantismo 50%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 31%
Interesse por outra pessoa 13%
Não se dar bem com a família do parceiro 6%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013

Li a pesquisa e pude concluir que trata-se de uma queixa corriqueira da vida cotidiana. Ou seja, estamos diante da insatisfação que o ser humano tem com qualquer um que seja o seu parceiro amoroso.
Idealizamos demais o outro e queremos que ele nos supra de todas as formas. Essa é uma tentativa frustrada, pois ao depositarmos a ilusão de completude no outro estamos fadado ao desapontamento.
Quando gostamos de alguém depositamos todo nosso narcisismo insatisfeito nessa pessoa, e demandamos que essa pessoa preencha nossos furos e faltas.
Amar não é viver completo, mas saber viver com a falta, já que ninguém irá nos tirar desse desamparo estrutural que temos e que nunca curaremos. Podemos sim aprender a viver com esse desamparo eterno, sem que isso seja um problema, mas tornando-se uma causa de vida e de amor. Porém, um amor que respeite as diferenças e desacertos, já que conforme Jacques Lacan "amar é dar o que não se tem".

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma conclusão sobre a causa do terrorismo


O terrorismo vem se mostrando cada dia mais presente em nossa sociedade. Em diversos graus e de diversas formas, atentados consumados e ameaças violentas estão cada vez mais banalizadas em nosso cotidiano. Recentemente fomos surpreendidos com mais um ato terrorista nos EUA, especificamente na maratona de Boston. Os responsabilizados pelo ato são dois irmãos de 19 e 26 anos, religiosos islâmicos radicais que defendiam a luta pela independência da Chechênia, república que hoje faz parte da Federação Russa.
Não somente neste caso específico, mas em qualquer ato que esteja motivado por religião, causa política ou étnica, tem como pano de fundo um narcisismo doentio, que fazem os indivíduos terroristas considerarem qualquer diferença ou alteridade como algo insuportável e digno de ser eliminado. A causa do terrorismo é um narcisismo desmedido e sem limite!
Provavelmente os irmãos chechenos estariam em uma identificação narcísica sob um ideal acreditado como inabalável e acima de qualquer impedimento. Fato que pode os ter feito tomar a atitude radical do atentado, em nome de um objetivo idealizado, inquestionável e supremo.
Os seres humanos, quando identificados com um objetivo comum, são capazes de realizar atos extremos em nome de uma identidade grupal, ideal político ou por conta de uma alienação à figura de um líder. Toda manifestação agressiva contra algum grupo, população ou pessoa específica, passa por uma causa imaginária em torno de alguma idealização narcísica, que, por algum motivo, ficou abalada ou ameaçada. A violência é uma reação defensiva para que o buraco no narcisismo daquele que se sentiu ferido seja remediado. Um exemplo clássico e trágico disso foi o nazismo, que, a propósito, tem homofonia com a palavra narcisismo.
Temos um imenso desafio atualmente: pedem-nos paz e respeito ao próximo, mas estamos cada vez mais narcísicos e menos tolerantes com a diferença. Todos nós, de alguma forma, violentamos o outro que é diferente de nós, sejam com palavras ou atos. Quem nunca se sentiu incomodado diante daquele que lhe é diferente e assim reagiu com algum comentário ou um mínimo pensamento discriminador? O problema é que a intolerância de muitos acaba gerando reações extremas e doentias, que saem do nível do pensamento e chegam ao nível do ato. Portanto, qual será o nosso destino? Seremos um bando de narcísicos terroristas, cada um na sua bolha, destruindo uns aos outros em nome daquele ideal que acreditamos ser melhor que o do vizinho?
Há uma grande diferença entre um comentário e uma reação violenta, assim como há diferença entre sentir repulsa e passar ao ato. Porém todos nós somos narcísicos, cada um na sua medida, e não suportamos aquele que não nos é semelhante. Já dizia Caetano Veloso na música 'Sampa': “quando eu te encontrei frente a frente não vi o meu rosto. Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho”.

Fobia


Um dos grandes sintomas psíquicos que encontramos nos seres humanos é a tão famosa “fobia”, seja ela de qual objeto ou coisa for. Os fóbicos sofrem muito com isso, e sem mesmo terem consciência do porquê de tal comportamento, sentem a pressão e o peso da fobia como algo devastador. Não se trata de um medo simples, mas algo intenso e sem controle. Diferentemente do medo simples (que é vital e funcional para nossa vida, fazendo protegermo-nos e evitarmos problemas), a fobia traz muitas limitações e danos sociais para aquele que a sente.
Mas o que é uma fobia? Por que alguém chega a se comportar assim? De onde vem esse horror intenso diante de alguma coisa, a princípio tão simples? Impossível conversarmos sobre isso em apenas um artigo, mas podemos fazer aqui uma reflexão importante.
Não há como falarmos da fobia se não colocarmos em pauta a questão do inconsciente e da presença de um sistema inconsciente funcionando em nós, alheio à nossa vontade consciente. Um inconsciente que dita a nossa forma de comportamento no mundo, independente da nossa parte racional.
A fobia, seja ela um medo intenso de algum animal, fato, situação ou até mesmo a fobia social, têm suas raízes em questões inconscientes mal elaboradas e que solicitam expressão e descarga pulsional, mesmo que por vias tortas e drásticas como nessas manifestações de medo intenso e horror.
O medo extremo, o horror incontrolável diante de alguma coisa pode ser a descarga indireta de um conflito inconsciente que provavelmente venha de uma experiência que gerou grande carga psíquica.
Temos nossas defesas, nossas saídas, nossas válvulas de escape... Enfim, nossos sintomas pelos quais a pulsão encontra formas de descarga. Sintomas forjados inconscientemente, e que exigem de nós, muita energia e desgaste para serem contornados, assim como no momento de tratá-los. Ou seja, esvaziar uma fobia, exige empenho e paciência, pois não se vai à raiz inconsciente de um problema de maneira rápida e nem mesmo em um clique, da forma como estamos acostumados a fazer com tudo nessa vida hipermoderna que levamos.
Quando se trata de um ser humano, o tempo é outro!
Quando se trata de inconsciente, a lógica é outra!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Desejo decidido


Há uma grande diferença entre desejar e ter um desejo decidido. Podemos passar uma vida inteira sonhando com as coisas que gostaríamos de realizar e assim vivermos na via do desejo insatisfeito ou impossível de concretizar. Isso é o pior!
O ser humano comete um grande erro ao manter o seu desejo como algo distante e inatingível, muito em função da ocupação com a realização do desejo dos outros. Há certa satisfação na dor da não conquista, do insucesso, e assim, muitos ficam parados nesse “eu desejo” e não se movimentam no “eu realizo”. Tem sempre algum ponto condensado ou alguma coisa pela qual nós nos deixamos ficar apenas no estado do “desejar”. É como se a cada corrida ficássemos na linha de largada imaginando o quanto seria bom o percurso até a linha de chegada. Chegar é preciso, e a graça da vida não está somente na chegada, mas no percurso que traçamos até lá. João Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” já nos alertou: “O real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
O desejo decidido é aquele que realizamos sem medo e sem necessidade de garantias e certezas. Realizamos porque queremos. É o que nos tira da inércia da insatisfação e nos coloca a dar um passo a mais na vida... fazer girar o moinho que vivia estagnado na ideia de quem sabe um dia algo fosse fazê-lo girar.
Desejar é fundamental para seguirmos com a vida adiante, mas ficar no desejo em estado imaginário, sem concluí-lo, é um engano. Cada um tem seu tempo e seu modo de lidar com o desejo, um tempo particular pelo qual não podemos nos deixar levar sem uma responsabilização, afinal de contas, este tempo da decisão é cada um quem o faz, produzindo o efeito de solavanco que nos tira da angústia da estagnação. É o solavanco que somente cada um pode operar em sua vida, de modo que a decisão de hoje promova aberturas para novas decisões futuras.
Se há algo que o desejo nos ensina é que por ele não se pode passar sem a coragem de realizá-lo. É preciso rigor para fazer, do desejo, algo decidido. Um rigor de conclusão, ou então ficamos na imaginação estéril e paralisante. Aqui mora a diferença radical entre o desejar infinito e o desejo concluído.
No próximo artigo falarei sobre “fobia”. Até lá!

quarta-feira, 6 de março de 2013

Religião ou ciência? Por onde seguir?


A renúncia do Papa no Vaticano trouxe uma série de dúvidas e discussões em torno da questão da religião e do papel dela no cotidiano das pessoas. As consequências de cada fato dependem de como o encaramos. O Papa renunciar, para uns é o fim, é a perda da direção, um motivo de desespero. Já para outros, pode ser um recomeço, uma renovação, uma nova etapa, assim como cada coisa da vida que nos exige adaptação e movimento.
Por mais que o Papa tenha alegado problemas de saúde, justificando assim sua renúncia, acredito que os motivos foram outros. Há uma grande diferença entre o catolicismo e o Vaticano como estado de poder financeiro. Não foi o primeiro Papa a renunciar... e a história mostra que aqueles que tentaram conter o espírito financista e mercantil dos mandantes do Vaticano acabaram sofrendo consequências cruéis. O poder do Vaticano não perdoa ninguém, nem mesmo os Papas, e sábios foram aqueles que souberam se retirar no momento certo.
Mas, enfim... voltemos ao que nos interessa aqui hoje!
Vivemos em um tempo em que a religião perdeu espaço para a ciência. Os fatos e vivências que antes eram justificados pelas diversas religiões, hoje são explicados minunciosamente pela ciência. Grande parte da fé e crença que as pessoas tinham nos papas, pastores e líderes espirituais, agora se encontra sob as conclusões das pesquisas científicas. O discurso científico tem arrebanhado fiéis de todos os tipos e classes, tornando-se assim, a meu ver, a grande religião de nossa época. Estamos crentes na ciência e é ela quem nos dita quais caminhos seguir.
Independente das respostas que cada uma nos fornece, seja a religião ou a ciência, em nossa época as pessoas estão vazias de ideais e sem direção de vida. Por isso, cada resposta científica e cada mandamento religioso são levados a ferro e fogo como a única coisa a ser seguida. É preciso relativizar o que o Outro nos manda seguir e ser. Esse grande Outro com “O” maiúsculo, ditando suas regras, se não questionado ou esvaziado, pode acabar se tornando um problema, ao invés de ajuda na busca de solução.
Há quem consiga conciliar ciência e religião, mas há também quem fique cego pela ciência ou pela religião. Fato é que tudo nessa vida exige uma dose de crença. Cada consulta médica, cada projeto de vida, cada sonho a ser realizado, cada orientação dada pelo padre, pastor, mestre, professor ou cada receita médica, precisa de nossa crença, ou então nenhum efeito terá sobre nós. Por outro lado, nossa vida se torna alienada quando somente acreditamos e não realizamos, ou também quando esperamos que o Outro realize por nós sem nos implicarmos em uma busca própria. Estamos acostumados a deixar nosso destino na mão deste grande Outro, e exigimos que ele não falhe.
Religião ou ciência? Qual delas seguir? Siga naquilo que te faz bem e torne-se o construtor de seu próprio destino! Mas relativize e questione o que está escrito aqui, para que isso não se torne também um grande Outro.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Descontrole pulsional no carnaval


Para vivermos em sociedade, respeitando uns aos outros, são necessários que façamos alguns sacrifícios. Além disso, somos pressionados a abrir mão de satisfazermos vontades em função dos outros e da comunidade. Nossa civilização é baseada na ideia de que para convivermos uns com os outros em harmonia é fundamental que cada um reprima seus impulsos e desejos que se mostram incompatíveis com a moral. Porém, esses impulsos, que na psicanálise recebem o nome de pulsão de vida e pulsão de morte, nunca serão totalmente domados ou civilizados, restando sempre uma parcela insatisfeita exigindo ser descarregada, e que nem mesmo toda a moral reguladora é capaz de conter.
Sofremos com o fato de não podermos realizar toda a pulsão, porque ela é por si só irrealizável por completo, e também porque não podemos fazer tudo que queremos da forma como queremos sem levar em conta o direito dos outros. Mas o que fazer com toda essa energia insatisfeita? Muitos descarregam nas artes, nos esportes, no trabalho... formas substitutas de satisfazermos nossa pulsão, mesmo que de forma indireta e sublimada.
Por outro lado, muitos se aproveitam do carnaval para dar escoamento a essa contenção pulsional acumulada ao longo da vida cotidiana. Assim, o carnaval acaba se tornando um período em que as pessoas aproveitam para realizar coisas que no dia a dia comum não podem ou não têm coragem de fazer. Há uma espécie de aceitação de que a vida é árdua demais, e que, no carnaval, temos uma liberdade momentânea para esquecermos a civilização e realizarmos todos os desejos reprimidos: beber demais, comer além da conta, realizar desejos sexuais, cometer atos transgressores, bater, matar e, em alguns casos até morrer, já que a pulsão de morte também pede seu espaço, e em pequenos atos vai dando mostras de seu potencial.
Em 1930, Freud, em seu texto “O Mal-estar na civilização”, nos alerta para um impasse, um mal-estar que vem do fato de um lado termos as pulsões internas exigindo satisfação e de outro a civilização nos impondo regras e impedimentos. A pulsão, quando negligenciada, retorna de forma mais contundente, mas o que fazer se ao mesmo tempo não podemos fazer tudo que queremos?
Cada um descobrirá sua forma de lidar com suas pulsões, de modo que não fiquem tão acumuladas e não caminhem para atos exagerados. Os pequenos prazeres de cada dia e as pequenas satisfações substitutas podem amenizar este mal estar da insatisfação. Nunca estaremos satisfeitos por completo e sempre carregaremos o sentimento de não-estar-bem na vida civilizada, porém, pequenas permissões de prazeres podem nos poupar de grandes tragédias. É preciso que cada um construa um saber fazer com a própria pulsão.
O carnaval tem se tornado um período de grande descarga pulsional, entretanto, isso não garante que a pessoa vá se sentir livre da pressão da pulsão e da moral civilizada. A pulsão será sempre insatisfeita, e moral sempre implacável. Aqui reside a diferença entre pessoas que fazem dessa insatisfação uma causa de novas buscas e novos prazeres, e aquelas outras que no carnaval chegam com o lema “Prazer a qualquer custo!” ou “É matar ou morrer!”.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Volta às aulas e as dificuldades de aprendizagem


Com a volta das aulas, voltam também as dúvidas de pais e professores quanto ao aproveitamento escolar de certos filhos/alunos.
O aprendizado de um aluno, quando insatisfatório, pode estar sofrendo influência de uma série de fatores que o rodeiam. Porém é exigido que o aluno dê conta dos trabalhos, dos deveres, das provas e das matérias, independente do que esteja acontecendo na sua vida particular, afetiva, social, e até mesmo independente do que esteja sofrendo no seu organismo. Ou seja, pouco importa seu estado psicológico e fisiológico, é necessário cumprir um cronograma e gerar resultados positivos; exigência que não deixa de trazer problemas também para os(as) professores(as). Mas essa exigência de saber acaba criando uma série de rótulos e diagnósticos nas crianças e adolescentes que, por algum motivo, não aprendem ou não se comportam da maneira como a escola gostaria.
Recentemente o Conselho Federal de Psicologia lançou a campanha de combate à medicalização da vida com o seguinte lema: “Se você acha que seu filho é muito arteiro, fique calmo! Ele está apenas sendo criança! Não ao uso indiscriminado de remédios nas escolas.” Essa campanha nos alerta para o fato de que na maioria dos casos não há nada de errado no cérebro da criança, mas sim que ele está apenas vivendo sua infância, ou então, que está passando por conflitos de ordem emocional na dinâmica familiar e que ele precisa extravasar.
O que esperar de uma criança que está passando por problemas pessoais? É normal ela ficar agressiva ou inibida na escola, pois talvez seja o único lugar em que ela possa se expressar. Seria mais adequado deixarmos de lado os diagnósticos de hiperatividade, ansiedade ou distúrbio de conduta para entendermos os fatores que estão impedindo o aluno de aprender. Parece que esquecemos que um aluno é gente, e como tal, sofre, tem medos, fica triste, adoece, sente reações no corpo, possui desejos e sonhos muitas vezes frustrados e incompatíveis com sua realidade.
Sim, é impossível a escola atender e entender cada aluno em sua particularidade, já que existem os conteúdos programáticos a serem cumpridos. Mas será mesmo que aprender significa somente cumprir com eficiência um cronograma? O que mais temos a oferecer aos nossos alunos, além de testes, notas e diagnósticos? Adoramos comparar e classificar os alunos, porque isso nos exime da responsabilidade sobre eles enquanto pais, professores e profissionais da saúde. O problema fica todo nas costas do aluno, pois se ele é agressivo, hiperativo ou desobediente não adianta fazer nada, é uma doença, um mal que ele carrega, e a culpa é somente dele.
É mais fácil rotular os alunos com uns diagnósticos do que nos perguntarmos em que medida nós os fazemos assim. Somente se fizermos a pergunta sobre o nosso papel nesse imenso número de alunos com ‘dificuldade de aprendizagem’ que poderemos, num segundo momento, convidar o aluno a se responsabilizar pelo conflito que está passando, e implicá-lo no seu próprio problema, ensinando-o a tomar as rédeas de sua própria vida e dar um destino diferente para aquilo que fizeram dele.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Por que tantos estão abusando das drogas?


É importante observarmos o aumento considerável do número de casos de dependência química nos últimos anos. Apesar de ainda existirem os usos recreativos, os usos festivos, estamos vivenciando muito mais casos de dependência doentia ou abuso das substâncias. A que se deve este aumento de pessoas que abusam ou sentem-se viciadas nas diversas substâncias entorpecentes?
Existem os fatores psicológicos que preparam o terreno para a pessoa ficar viciada e existe também a influência da química no corpo, mas diante dessa pergunta sobre os motivos do aumento dos casos, não há como deixarmos de lado os fatores “hipermodernidade” e “consumismo”, como dois dos responsáveis por esse crescimento do uso de drogas entre as pessoas. Ou seja, além do fator particular de cada um, há a configuração social de nossa era hipermoderna, que nos leva a alcançar prazeres de forma muito rápida e sem limites, onde entramos como consumistas sem freio. Um grande ciclo de consumo hipermoderno faz nosso aparelho psíquico funcionar como uma máquina de gozo. Uma máquina que busca a satisfação a qualquer preço, e isso desde a infância. Porém, não somos capazes de atingir a satisfação imaginada, e então, recorreremos a outros modos de prazer. E é por aqui que a droga, muitas vezes, entra na vida do sujeito. Isto é, uma tampa para o buraco que a insatisfação pelo fato de não consumir, não adquirir, não ter, não sentir prazer deixa na pessoa.
A hipermodernidade consumista nos programa/manipula para querermos sempre mais e mais. Isso é um objetivo impossível! Quando frustramo-nos com a queda dessa ilusão que a sociedade nos vende, a droga torna-se um caminho fácil e intenso para ofuscar o sofrimento que cada um passa a sentir internamente. Uns chamam de angústia, outros de depressão, outros de tédio ou desânimo. São nomes diferentes para o vazio que a hipermodernidade nos traz.
Não somos vítimas por completo, pois há ainda a possibilidade de escolha por uma vida em que se considere o “não ter”, o “não poder”, o “não possuir”, o “não precisar”. Enfim, uma vida baseada no real do limite, e não na ilusão do “posso tudo a qualquer preço”. Aquele que se ilude neste ideal hipermoderno de felicidade sem fim, tem um passo em direção ao abismo do tédio que leva ao abuso de drogas, pois vai querer sentir prazer sempre. Prazer que a droga concede na mesma rapidez com que passa seu efeito. Ora, é exatamente a mesma lógica dos aparelhos e tecnologias das quais nos tornamos também dependentes. Prazeres rápidos, mas nunca duradouros. Isso nos leva a concluir que o vício não é somente por drogas, mas por qualquer coisa que nos traga sensação enganosa de prazer supremo.
O aumento dos casos de dependências e vícios não acontece sem a influência da lógica hipermoderna, que tem nos conduzido ao engano de que podemos ser felizes de forma absoluta e sem limites, mas, mesmo assim, é a pessoa que escolhe por quais caminhos buscará seus prazeres.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O que aprendemos com a criança?


Se há algo que nos desafia, este algo se chama “criança”. Se há algo que é mais precioso para uma criança, este algo é sua infância. Etapa da vida, onde a estrutura de personalidade se forma, e que para sempre exercerá influência no modo como a pessoa conduzirá seu jeito de ser. A palavra “infância” vem do latim “infans”, que significa “aquele que não fala”. Porém, esse significado não se faz muito pertinente, já que, as crianças falam, mesmo que sem palavras, e, mais ainda, elas nos dizem muitas coisas pela via dos seus comportamentos e reações.
Nas famílias, nas escolas, nos meios em que a criança vive e cresce, existem vários fatores afetivos que exercem influência nos funcionamentos psíquico e corporal. Alguns sintomas, alguns comportamentos, podem ser frutos de desajustes emocionais que a criança sofre ou sofreu. Diversos são os casos em que determinada criança apresenta uma dor de cabeça, uma gastrite, insônia, atos agressivos, isolamento, apatia e dificuldade de aprendizagem, tudo isso como consequência de alguma experiência sofrida por ela e que ficou mal elaborada em sua mente. Raras são as situações em que uma dificuldade da criança se deve a um distúrbio cerebral por si só. Virou moda medicar todo tipo de reação das crianças. Devemos ter calma com isso, pois, se seu filho é bagunceiro, arteiro, levado, isso não é sinal de doença, é sinal de saúde, de vida. Talvez o problema esteja em você que quer calá-lo às custas de remédios psiquiátricos e neurológicos. Talvez quem precise de tratamento sejam os pais. Talvez o que precisa mudar é a vida que os pais levam.
O modo como nosso corpo funciona está intimamente ligado ao modo como experimentamos os fatos da vida. Ou seja, mente e corpo não são coisas separadas, mas andam juntas e em constante interação, seja apresentando saúde ou apresentando transtornos. Existem vários modos de se falar o que se está sentindo, mas nem sempre isso fica muito claro, nem mesmo para quem está tentando dizer. O que nossas crianças vêm apresentando, seja na família ou na escola, é uma forma delas dizerem que algo não vai bem, e que, por isso mesmo, elas consequentemente, não conseguem desenvolver alguma tarefa da forma como se espera. É assim também conosco, adultos. Isto é, reagimos ao que vivemos, ao que experimentamos no presente, ao que experimentamos no passado e ao que esperamos do futuro.
            Fiquemos atentos aos dizeres que a criança traz, muitas vezes através dos atos, pois nem tudo será passível de expressão por meio das palavras. E não esqueçamos que, medicar a infância de uma criança fará dela um ser adoecido, sem que ela necessariamente seja um doente, sem que ela necessariamente precise de Ritalina ou Diazepam. Na maioria dos casos, tentar compreendê-la e escutá-la pode ser um caminho mais digno!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A falência da função paterna


Onde está o pai? Esta é uma pergunta que muitos se fazem, não somente com relação aos problemas que as crianças e adolescentes nos apresentam, mas é uma pergunta que fazemos também diante do modo como a época atual funciona. Tudo parece não ter lei, não ter limites, não ter os “nãos” necessários de cada dia. Tudo parece não ter a presença da regulação, da moral, do corte no excesso, da contenção, coisas que no fundo, são reflexos do que a psicanálise entende por “função paterna”.
Muito além do que é um pai biológico, a função paterna é algo que exerce influencia direta no modo como uma pessoa, uma empresa, uma escola ou uma família funcionam. É a função paterna que organiza, concede limite, promove o corte nos excessos, direciona e estabiliza. Tal função não é exclusiva do pai biológico, pois muitas mães, ou outras pessoas, exercem essa função na família, no trabalho e na escola. Não basta ter pai, é preciso existir a função paterna. E isso faz toda diferença no crescimento de uma criança.
O grande problema de nossa época é que o pai parece ter sido excluído da cena. Há uma tendência das pessoas, (crianças e adolescentes em especial), a ficarem desorientadas e sem rumo no que diz respeito à condução da vida. No lugar da função paterna nós estamos colocando as tecnologias, as receitas, os remédios, o consumo de objetos, como se isso fosse nos garantir um destino, alguma contenção, algum direcionamento para a loucura que é viver na atualidade. Trocamos uma presença da função paterna pelo consumo dos objetos, na esperança de que isso irá nos salvar dos problemas. Há um engano cruel nesse modo de vida, sobre o qual, a cada dia, nós confiamos mais e mais, como que órfãos de pai, procurando em que nos agarrarmos e para onde irmos.
Estamos todos órfãos de função paterna. Sem as contenções do pai, nós seremos apenas meros consumidores desorientados. Não é por acaso que hoje percebemos o grande crescimento dos usos de drogas e dos atos agressivos, pois falta o corte que promove o apaziguamento. Mas como conter os excessos mortíferos, se queremos sempre mais, não importam as consequências? Como fazer uma criança aprender a lidar com a falta se a sociedade vende a ideia de que se pode ter tudo? Como crescer com direção, se as propagandas afirmam não haver limites para a felicidade? Como entender um ‘não’ se atualmente dá-se um jeito para sempre haver o ‘sim’?
Nós matamos o pai, e agora colhemos as consequências disso: estamos mesmo que mais informados, menos profundos, mais instáveis, menos ideológicos, mais alienados às modas, mais influenciáveis e, consequentemente, menos estruturados

terça-feira, 10 de julho de 2012

Em repúdio ao Ato Médico!

Mais uma vez a Psicologia se posiciona, juntamente com todas as outras classes de profissionais de saúde, contra o Projeto de Lei que pretende colocar a figura do médico como o monopolizador da promoção e recuperação da saúde.
O projeto do Ato Médico visa, de forma hipócrita, determinar que todos os atendimentos de outros profissionais de saúde (enfermeiro, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, farmacêutico, e etc.) estejam submetidos às ordens da medicina.
Caso isso aconteça, nosso sistema de saúde (particular e público) andará para trás e o pior prejudicado será o paciente.
A medicina, da forma como se propõe neste Ato Médico, quer mais lucros e menos cuidado com o paciente!

Em sintonia com meu artigo "Calma lá com esse tal de TDAH" postado aqui...


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Consumismo, drogas e felicidade: problemas da hipermodernidade


A sociedade está doente. Sofre de um distúrbio que surgiu após a instalação do modo de produção capitalista. Trata-se do ‘distúrbio do consumismo’, que encontramos em formas agudas ou crônicas. Sem direção e perdidas por aí, as pessoas estão sendo consumidas pelo que consomem. Tal doença traz consequências como a angústia e a sensação de vazio. Além disso, sofremos do mal da pressa, pois o que conseguimos consumir desaparece na mesma velocidade em que chega a nossas mãos. Estamos cada vez mais ocupados e ocupando nossos filhos com coisas sem sentido afetivo. Somos considerados seres cada vez mais ágeis, versáteis, com imensos currículos, porém, estamos cada dia menos conscientes dos atos, menos reflexivos, menos autênticos, menos humanos e mais dependentes de alguma coisa.
Dentro dessa cena consumista de nossa hipermodernidade, o uso de drogas tem ocupado um lugar de destaque. É notável o aumento dos casos de abuso de entorpecentes e de álcool. Assim, o usuário de drogas vem se mostrando como o consumista perfeito. Ele é o exemplo claro do efeito da doença do consumismo, pois está sempre querendo mais e mais. Qual a causa disso? Há diversos fatores, mas podemos exaltar uma causa em particular: a predisposição humana à dependência somada ao estilo de vida atual.
Predisposição humana à dependência? Isso mesmo! Freud, em uma carta ao seu amigo Fliess, em 1897, diz ter descoberto que a dependência é uma forte tendência de nosso aparelho psíquico. Isso é algo que está presente em todos. Estamos sempre lutando contra o impulso de ficar dependente de alguma coisa, alguma prática, algum objeto, pois, tentamos tirar prazer de coisas que nos remetam inconscientemente às primeiras sensações de nossa vida, gravadas na mente como sendo as mais intensas. A hipermodernidade, diferente de outros tempos, favorece este tipo de comportamento, já que, atualmente, vale qualquer coisa para nos livrar das preocupações e problemas. Qualquer coisa que nos faça tentar voltar ao prazer dos primeiros meses de vida. Tudo que nos deixe fechados em nós mesmos, num narcisismo profundo. Podem ser os i-pads, carros, roupas, smartphones, remédios antidepressivos, cirurgias estéticas excessivas, as drogas e o álcool. São os substitutos do seio da mãe, são as chupetas da gente grande. Objetos do consumo que oferecem a ilusão de satisfação plena, e dos quais estamos cada vez mais dependentes.
 Queremos felicidade, não importam os meios. Fazemos e acontecemos para ter satisfação. Ora, essa inconsequência em busca do prazer não é exatamente o que o dependente químico faz? Então, será que estamos todos viciados em alguma coisa, e o uso de drogas é apenas o exemplo mais radical dessa doença social? Se para a hipermodernidade, ser feliz é ter satisfação completa, então somos todos infelizes, pois essa ideia é impossível. Essa é a ilusão do toxicômano com sua droga. Essa é a ilusão da sociedade do consumo como um todo. O problema é que quanto maior for essa ilusão, maior será o tombo!
Na busca de uma felicidade suprema, as pessoas estão se matando. Ao invés de um sonho gostoso, a felicidade passou a ser um problema. É preciso que cada um encontre sua maneira particular de ser feliz, lidando com as infelicidades reais da vida e com as insatisfações. Isso não precisa ser algo de megaproporção ou de última geração!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A prática ensina

Recentemente a prática clínica me ensinou que o sujeito não envelhece na mesma proporção que seu corpo.
É impressionante escutar de idosos, questões que parecem sair da boca de um adolescente.
As lembranças que ainda os inquietam, são antigas, coisas de infância, mas parecem bem recentes, como se tivessem ocorrido ontem.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Em complementação...

Seguindo a linha questionadora que apresentei em alguns artigos aqui publicados, trago um vídeo crítico sobre o modo como a sociedade contemporânea "hipermoderna" trata seus seres humanos, sejam eles usuários de drogas, crianças, adultos ou jovens.
É um vídeo produzido pelo CFP - Conselho Federal de Psicologia.
Vale assistir e se questionar, pois quem faz a sociedade somos nós mesmos.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

O estranho silêncio do analista

Instigado pela frase que escutei de uma pessoa querida, trago aqui hoje um breve escrito sobre o silêncio do psicanalista.
É comum escutarmos de pessoas que se interessam por iniciar um tratamento psicanalítico a fala de que se sentiram estranhas neste contato com a sessão psicanalítica. A maior estranheza que sentem gira em torno do silêncio do analista. A pessoa que se aventura a procurar uma psicanálise percebe que o silêncio, na sessão, é introduzido e cultivado pelo psicanalista.
Isso não é por acaso, e certamente é o que diferencia o ouro da psicanálise de qualquer cobre psicoterapêutico que existe por aí. A rigor, esta sensação de estranheza diante do estranho silencio analítico, segundo Freud (1919), só surge quando entramos em contato com aquilo que temos de mais íntimo e escondido. Freud fez de um termo corriqueiro um conceito na psicanálise, é Das Unheimlich, o estranho. Para Freud “Unheimlich é tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz” (FREUD, 1919, p.282).
O estranho é o que encontramos na análise. A técnica e a ética do psicanalista proporcionam-nos o contato com aquilo que nós mesmos trazemos de mais íntimo e amedrontador. Estranhamos o que há de estranho em nós mesmos.
Defendemo-nos de nosso estranho íntimo em nome de uma repetição desprazerosa da vida, que sempre reclamamos, mas não abandonamos. Agarramo-nos aos mais complicados sintomas e comportamentos para nada do nosso inconsciente querermos saber.
Portanto, não tememos o estranho que sentimos, é apenas algo da intimidade se manifestando que, talvez, precise ser remodelada, tratada.
O psicanalista está na posição de escuta silenciosa exatamente para que o que precisa de fato ser dito venha à luz, no tempo de cada um.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A causa da febre é a falta de aspirina no corpo?

Nas palavras do psicanalista francês Éric Laurent:
"Quando se constata que a dopamina, ou a inibição da recaptação de serotonina, produz efeitos, e se deduz que a causa da enfermidade é um déficit químico dessa substância, isso tem, do ponto de vista médico, mais ou menos, o mesmo valor do que dizer que a febre é causada por um déficit de ácido acetilsalicílico (aspirina) no corpo. Ora, não há dúvida de que a aspirina tem um efeito sobre a febre, mas sabemos que infecções não são causadas por um déficit de aspirina. Quando se constata que a dopamina é eficaz e produz uma série de efeitos em sujeitos deprimidos - aliás, efeitos muito variáveis - isso não permite dizer que a causa da depressão seja um déficit de dopamina. Se fosse assim, seria muito fácil detectar quem é deprimido: bastaria um exame de sangue no qual se constataria um déficit de dopamina para diagnosticar alguém como deprimido. Não seria preciso falar. Teríamos um teste bioquímico absolutamente factível, quando sabemos que não é bem esse o caso" (LAURENT, O que nos ensinam os autistas, 2012, p.20)

Esse é o problema da cientifização do ser humano. Tudo ficou reduzido à bioquímica do organismo. Esqueceram-se do afeto e do mais importante: as lembranças marcantes da história da pessoa. Lembranças que, mesmo sendo velhas, influenciam seu modo de vida.
Não basta somente ficarmos na crítica ao modelo de tratamento que só acredita na cura pela química. É preciso no cotidiano da clínica mostrarmos os efeitos de um trabalho que prima pelo subjetivo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Muita ciência e pouco afeto


O resultado do avanço científico em nossas vidas não se discute. Em termos de tratamentos de saúde percebemos os grandes benefícios. As técnicas estão aí para nos trazerem alento, proteção, recuperação da saúde e bem estar. Porém, o uso da ciência na forma como tem sido recomendada, devasta o que ainda resta de subjetividade nas pessoas. Apesar de ser um problema já bastante discutido, cada dia que passa isso parece ser uma novidade espantosa; afinal de contas todo mundo acredita cegamente no milagre da ciência, ou pelo menos deixa que o destino da vida seja guiado somente pela ciência. Mas de que adianta uma técnica científica, um remédio, uma cirurgia de última geração, se não houver afeto do paciente envolvido no processo?
Falta contar com o fator afetivo, por exemplo, nas diversas técnicas de tratamento por aí.  Na maioria dos casos é uma boca isolada que ingere os medicamentos, e não uma pessoa dotada de valores biopsicossociais. Medica-se porque um protocolo diz pra medicar, como se todos os doentes fossem iguais. Esquecemos que mesmo sofrendo de doença idêntica, duas pessoas não são doentes do mesmo jeito.
Mas por que tanto uso de medicamentos sem precisão? Alguém ganha com isso. A indústria farmacêutica joga pesado e pressiona a medicina. Está para nascer o profissional que fará frente a esta pressão do mercado, pois será banido dos congressos, dos eventos, e é claro, das belas viagens patrocinadas pelos laboratórios farmacêuticos.
Volto a dizer: a medicação é fundamental na vida. O problema é o modo como o ser humano passou a usá-la. Ao ser usada de forma indiscriminada, a medicação perde valor, perde função. Mesmo no caso de antibióticos, se o paciente não estiver engajado com seu afeto e sua fantasia naquilo, nenhum efeito ele sentirá. A frustração acontecerá de ambas as partes, para o profissional e para o paciente. O paciente precisa acreditar no saber da pessoa do médico e não somente no poder da técnica, do remédio. E o médico precisa se fazer acreditado e não colocar o sucesso de seu atendimento na mão dos produtos da ciência.
As pessoas sumiram das clínicas. Isso mesmo! As salas de espera estão cheias, mas na maioria das vezes não são pessoas, são organismos desafetados pedindo remédios.
De um lado temos corpos mudos, e de outro, máquinas da ciência. A pessoa do paciente, suas angústias, suas expectativas, seus medos, não têm mais lugar nos consultórios. Além disso, o profissional de saúde perdeu sua autoridade de saber para se tornar um mero decifrador de exames. São poucos os profissionais que ainda fazem uma anamnese de qualidade e não são totalmente dependentes dos aparelhos científicos. Ah, mas se não fizerem isso eles morrerão de fome! Vão perder seus pacientes, pois gastarão muito tempo com cada consulta. Esse medo, esse receio medíocre, essa ganância me lembra o erro que o Sistema Educacional cometeu. A história nos mostra o mal que a pressa e a pressão por produtividade causou nos professores. O mal que a educação cientifizada, ausente de investimento emocional, causou nos profissionais das escolas. Perderam sua função de saber e viraram meros repetidores de livros didáticos de um sistema guiado por números e estatísticas, nunca pela qualidade. Esta lógica de funcionamento está bem próxima de ser o destino trágico do Sistema de Saúde. Se continuar assim, a saúde em geral terá o mesmo fim que a escola contemporânea. Ou seja, os profissionais de saúde sofrerão como os professores, os doentes e seus parentes se revoltarão agressivamente como os alunos e seus pais fazem atualmente.
A vida é feita de escolhas. O profissional escolhe como quer trabalhar, escolhe sua ética, e o paciente escolhe como quer ser atendido, como merece ser atendido. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Você contribui com seu desejo?


           Será possível alguém não contribuir para que seu desejo seja realizado? Ora, se a pessoa deseja, por que não realiza?
Aqui mora o problema do ser humano. Sua grande tendência em colocar seu desejo como algo inatingível. Sua grande tendência em fazer o possível para que o seu desejo torne-se algo impossível.
Existe em nosso jeito de viver, no nosso jeito de ser, uma dificuldade em bancarmos nosso desejo. Funcionamos muito pela via da responsabilização do outro pelos nossos fracassos e infelicidades. Abrimos mão dos sonhos em favor de uma postura vitimada e sofredora. Há muito narcisismo nisso, pois gasta-se muita energia em si mesmo e sobre si mesmo quando ficamos presos em pensamentos e atitudes de vítima. Sustentar este lugar do escolhido dentre tantos para sofrer no mundo e carregar o fardo do fracasso é um modo de satisfazer um narcisismo próprio.
O seu pior inimigo, o que realmente te impede de conquistar as coisas é você mesmo e não os outros. Cada um constrói, singularmente em sua fantasia inconsciente, o outro como o grande vilão, como o grande responsável por sua insatisfação. Porém, quem mais te atrapalha é você mesmo.
São diversos os exemplos de pessoas que são marcadas pelo fracasso, pela vida difícil e sofrida, pelo desejo sempre impossível de ser realizado. Freud em 1924 descobriu que no nosso funcionamento psíquico há uma tendência masoquista, uma tendência em ter satisfação no desprazer. Isso está para todos, e cada um satisfaz seu masoquismo no dia a dia da vida. Uns mais, outros menos. O que fazer, já que temos esta tendência masoquista em curtir o desprazer?
Ser feliz não significa ter todas as vontades satisfeitas, todos os objetivos realizados. Muito pelo contrário, isso seria o fim, o tédio, a morte. Viver de acordo com o desejo vai no sentido de permitir-se conviver com faltas e incompletudes, pois o desejar só existe por isso, e só tem sua razão de ser porque somos seres de falta.
Porém, muitos se prendem ao que falta e fazem disso um abismo sem fim. Quando o ser humano se perde nessa direção e se joga no abismo da perda, vê seus sonhos mais distantes, pois não faz das ausências uma causa de novas buscas, de novos projetos e novos planos.
Uma coisa é fundamental para que alguém consiga ser feliz: aceitar que não se é feliz por completo e o tempo todo. Aceitar que vivemos somente por conta dos furos, na medida em que são o motor da vida. Indo mais além, podemos até dizer que a felicidade não é algo universal comum a todos. Não há receita de felicidade. Cada um encontra seu modo feliz, na medida em que aprende a lidar com as incompletudes, na medida em que aprende a lidar com sua própria frustração e consegue caminhar de acordo com o desejo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Narcisismo do ser contemporâneo


O fechamento do homem em si mesmo é uma marca de nosso mundo contemporâneo. Mas por que muitos se fecham em um bastar-se em si mesmo?
Com o passar dos dias, vemos cada vez mais seres passando de um lado para o outro, cada um na sua bolha, intocáveis e impermeáveis ao contato com o outro. Fala-se muito em globalização, mas na prática o que acontece é um efeito inverso à comunicação liberal. Muitas pessoas se vêem, mas poucas se dão à aventura do contato significativo com o outro. Talvez aqui se justifique o imenso crescimento de tecnologias criadas para aproximarem as pessoas, mas que ao meu ver nos afastam cada dia mais uns dos outros. Entre nós existem inúmeros instrumentos e aparelhos que criados para facilitarem o contato estão cada dia mais impedindo o convívio real entre os humanos.
O problema é que as pessoas aproveitam disso, inconscientemente, para alimentarem um narcisismo que desde os primeiros anos de vida faz parte de nossa personalidade. Então aqui eu pergunto: será que a ciência sacou o nosso narcisismo e cria todas essas tecnologias “cômodas” para conseguir vender cada vez mais e mais? O mundo percebeu que somos altamente narcísicos e um mundo foi criado para nos alimentarmos disso. Conseqüentemente alimentarmos nossa necessidade de tirarmos prazer de nós mesmos, fechados em nós mesmos.
Já virou uma bola de neve. Onde isso vai parar? Não sei, mas muitos narcísicos vão parar nos consultórios. Angustiados com um simples risco de perderem sua fonte de alimento narcisista. Não suportam correrem os riscos de se aventurarem nos encontros reais, frente a frente. Preferem a distância, as falas calculadas, pensadas e sem margem para erros.
O narcisismo é uma defesa contra a exposição, contra os riscos que corremos ao viver, ao se relacionar, ao amar. Que graça há se não corrermos esses riscos? No psiquismo há uma tendência a permanecer em repouso tudo aquilo que está em repouso, é a inércia que muitas vezes é maior que qualquer tentativa de dar uma volta além da bolha, de sair do útero confortável, porém isolador dos contatos mundanos. Comentei sobre a inércia psíquica no artigo passado, essa nossa tendência em permanecermos estagnados mesmo havendo aí um mal estar.
Não nos fechamos por acaso. Freud descobriu que extraímos grande cargas de prazer no narcisismo. Uma postura “cômoda” que evita as dificuldades de enfrentar a vida. Mas será que não enfrentando essas dificuldades, há vida?

quarta-feira, 28 de março de 2012

Todos compulsivos?

Vivemos em uma época onde tudo parece ser possível, ou pior, tudo virou uma questão de necessidade! Deparamos o tempo todo, nos espaços públicos, nos encontros, nas salas de aula, com o que a grande oferta atual de produtos e tecnologias tem causado aos modos de relacionamento humano. Se antes era difícil se relacionar, agora isso não entra nem mais na pauta do dia. Entre eu e o outro, agora existem o smartphone, o facebook, os i-tudo (i-pad, i-mac, i-pod, i-toch, i-phone). Relacionamo-nos agora é com esse tipo de coisa. A presença do outro vem a reboque como uma mera consequência. Não tem como a Psicanálise não se implicar e não se posicionar frente ao sem-limites do nosso mundo, ao gozo desenfreado da sociedade atual.
A cada semana prometem a felicidade. Nós, pobres humanos, acreditamos nesta ilusão, entramos no circuito da compra infinita, na corrida pela atualização. Queremos ter o melhor, o mais rápido, porém, a cada dia o melhor já não é o melhor. O cobiçado de hoje é o vergonhoso de amanhã. Que modo de vida é esse onde o melhor é efêmero? Desaparece na mesma velocidade que chega. Será então que realmente isso é o melhor? Puro jogo do mercado. Exercemos o poder de compra, mas nesse jogo de poder, acabamos entrando como subordinados. Os subordinados ao sem-limites do mundo tecnológico. Quais os efeitos desse modo de vida? Mega-solidões, Giga-isolamentos. O tratamento para este mal é o “Compre mais!”. Não perca tempo! Agora sim com este próximo produto você será feliz! Acesse o mundo e se conecte com todos! Porém, não nos avisaram do risco de se desconectar de si mesmo.
Pessoas vazias e sem direção. A i-fantasia desses produtos descartáveis se sustenta à custa de um mal-estar global. A sensação de desamparo é nítida, principalmente na classe jovem, parcela da população que acabou sendo mais fisgada por essa promessa fantasiosa de felicidade. Reparamos que os adolescentes só se movem em função dos objetos da tecnologia. Só se movem e se movem sós! A falta de ideais têm-lhes causado uma nova doença psíquica que eu chamo de i-tédio.
A compulsão é generalizada. Somos todos toxicômanos, dependentes e drogados pelos objetos. Existem vários tipos de drogas por aí, muito além das químicas. Objetos que nos alienam e nos tornam cada dia mais obcecados e cegos pela satisfação, não importa o quanto isso vai nos custar. E o preço que pagamos não é somente em dinheiro. Como andam os estudos, os namoros, as disputas que antes eram éticas e leais, os laços sociais? O que negligenciamos de um lado, volta com mais força por outro. Agressividade e ansiedade são alguns dos efeitos que as pessoas da geração i-posso tudo sentem quando são confrontadas com o ‘não’.
Estamos todos iguais, sem diferença, pois todos são consumidores. Todos são nivelados pela compulsão. A marca particular de cada um desapareceu. O traço singular que me possibilita viver de acordo com meu desejo está perdendo espaço. A diferença entre os seres é recusada. Mas o que fazer se é exatamente essa diferença que promove a graça da vida? Aquele que não é igual, que não compartilha da mesma compulsão está fora da rede. Uma rede virtual, nada real.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Autismo

A fim de tentarmos entender mais o mundo autista, vale a lida de alguns tópicos no site:
http://www.autismos.es/
.
A Psicanálise aborda o problema do autista considerando-o em sua particularidade. A direção de tratamento leva em consideração o que o sujeito pode construir a partir de seus recursos, mesmo que sob o olhar da ciência eles sejam considerados deficitários.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre o real da transferência, motivo de existência do psicanalista

É somente pelo amor de transferência que o psicanalista opera em sua função:

"A transferência, em última instância, é o automatismo da repetição. [...] A transferência, por mais interpretada que seja, guarda em si mesma como que uma espécie de limite irredutível. [...] Na transferência, o sujeito fabrica, constrói alguma coisa. [...] Em outras palavras, parece-me impossível eliminar do fenômeno da transferência o fato de que ela se manisfesta na relação com alguém a quem se fala. Este fato é constitutivo."
LACAN, O seminário, Livro 8, a transferência, capítulo XII.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Para pensar e se indignar

Filósofa russo-americana Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920):
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A perda do líder: possibilidade de sonho


A morte do ditador norte-coreano Kim Jong-il nos conduz a pensar muitas coisas pelas quais a humanidade passa, porém ainda ignora como se fosse algo trivial. Trata-se da relação das massas com seu líder, da alienação mental em torno da figura de grandes líderes ou em torno de ditadores. Já cansamos de ver as consequências devastadoras de movimentos que abolem a vida privada em nome dos ideais do grupo. O ser humano é capaz de tudo quando age em nome do bando. Desde pequenos grupos, turmas, até grandes nações, percebemos movimentos em torno de um ideal de onipotência. Os fanatismos religiosos estão no mesmo patamar dos líderes radicais como Hitler, Sadan Hussein, Kadafi e agora Kim Jong-il.

Ao ver as reportagens e vídeos mostrando a reação da população norte coreana com a morte do ditador, fiquei atento ao choro marcante do povo, diante da perda de sua referência. Na população feminina isso ainda é mais notável, quando aparecem aos prantos nas ruas. A perda da referência identificatória, daquele que garantia a ilusão comum da nação norte-coreana ainda vai ressoar bastante no povo. No lugar do ser imortal e imponente, agora só restam o vazio e a desestruturação da identificação imaginária. Uma crise que pode abrir espaço para sonhos e buscas particulares. Aliás, não somente na Coreia do Norte, mas em qualquer lugar do mundo, o vazio e o furo no imaginário sedutor abre espaço para o sujeito sonhar, buscar, realizar. Porém, por lá, rapidamente já elegeram o sucessor (o adolescente filho do ditador) a fim de não verem abaladas as estruturas da comunidade, da comum unidade. A política do falecido Kim Jong-il, que promove a amputação do desejo singular e o esmagamento do que pode haver de particular é capaz de fazer uma nação inteira viver alienada. 
Não podemos deixar de percorrer o texto de Freud "Psicologia das massas e análise do eu" e da discussão que ele desenvolve lá ao explicar o mecanismo que existe na estrutura dos movimentos populares e de condução de grupos por uma identificação alienada ao ser portador da liderança. Exteriorizamos na figura externa nossa responsabilidade sobre nós mesmos e depositamos no líder toda esperança de salvação, de cura, de conforto. O preço por isso é altíssimo. Pagamos com nossos sonhos mais íntimos, nossas fantasias mais preciosas em nome da unidade inabalável do grupo. Abrimos mão de projetos particulares para satisfazer o projeto da proposta única do grupo.
Não precisa ir muito longe para encontrarmos discursos alienantes nos quais as pessoas se agarrem para automaticamente se desresponsabilizarem de seus desejos, seus feitos e até mesmo seus erros. O ser humano faz de tudo para abrir mão de seu desejo e eleger o outro como grande culpado do fracasso. Daí então um meio de entender por que tantas pessoas se submetem a regimes totalitários ou práticas alienantes, ou seja, para nada saberem de si mesmas. É a fuga covarde, a escolha pela ignorância, para do desejo nada querer saber. Por isso, ainda veremos muitos ditadores pelo mundo. Há quem precise deles, infelizmente!