quarta-feira, 9 de maio de 2012

Muita ciência e pouco afeto


O resultado do avanço científico em nossas vidas não se discute. Em termos de tratamentos de saúde percebemos os grandes benefícios. As técnicas estão aí para nos trazerem alento, proteção, recuperação da saúde e bem estar. Porém, o uso da ciência na forma como tem sido recomendada, devasta o que ainda resta de subjetividade nas pessoas. Apesar de ser um problema já bastante discutido, cada dia que passa isso parece ser uma novidade espantosa; afinal de contas todo mundo acredita cegamente no milagre da ciência, ou pelo menos deixa que o destino da vida seja guiado somente pela ciência. Mas de que adianta uma técnica científica, um remédio, uma cirurgia de última geração, se não houver afeto do paciente envolvido no processo?
Falta contar com o fator afetivo, por exemplo, nas diversas técnicas de tratamento por aí.  Na maioria dos casos é uma boca isolada que ingere os medicamentos, e não uma pessoa dotada de valores biopsicossociais. Medica-se porque um protocolo diz pra medicar, como se todos os doentes fossem iguais. Esquecemos que mesmo sofrendo de doença idêntica, duas pessoas não são doentes do mesmo jeito.
Mas por que tanto uso de medicamentos sem precisão? Alguém ganha com isso. A indústria farmacêutica joga pesado e pressiona a medicina. Está para nascer o profissional que fará frente a esta pressão do mercado, pois será banido dos congressos, dos eventos, e é claro, das belas viagens patrocinadas pelos laboratórios farmacêuticos.
Volto a dizer: a medicação é fundamental na vida. O problema é o modo como o ser humano passou a usá-la. Ao ser usada de forma indiscriminada, a medicação perde valor, perde função. Mesmo no caso de antibióticos, se o paciente não estiver engajado com seu afeto e sua fantasia naquilo, nenhum efeito ele sentirá. A frustração acontecerá de ambas as partes, para o profissional e para o paciente. O paciente precisa acreditar no saber da pessoa do médico e não somente no poder da técnica, do remédio. E o médico precisa se fazer acreditado e não colocar o sucesso de seu atendimento na mão dos produtos da ciência.
As pessoas sumiram das clínicas. Isso mesmo! As salas de espera estão cheias, mas na maioria das vezes não são pessoas, são organismos desafetados pedindo remédios.
De um lado temos corpos mudos, e de outro, máquinas da ciência. A pessoa do paciente, suas angústias, suas expectativas, seus medos, não têm mais lugar nos consultórios. Além disso, o profissional de saúde perdeu sua autoridade de saber para se tornar um mero decifrador de exames. São poucos os profissionais que ainda fazem uma anamnese de qualidade e não são totalmente dependentes dos aparelhos científicos. Ah, mas se não fizerem isso eles morrerão de fome! Vão perder seus pacientes, pois gastarão muito tempo com cada consulta. Esse medo, esse receio medíocre, essa ganância me lembra o erro que o Sistema Educacional cometeu. A história nos mostra o mal que a pressa e a pressão por produtividade causou nos professores. O mal que a educação cientifizada, ausente de investimento emocional, causou nos profissionais das escolas. Perderam sua função de saber e viraram meros repetidores de livros didáticos de um sistema guiado por números e estatísticas, nunca pela qualidade. Esta lógica de funcionamento está bem próxima de ser o destino trágico do Sistema de Saúde. Se continuar assim, a saúde em geral terá o mesmo fim que a escola contemporânea. Ou seja, os profissionais de saúde sofrerão como os professores, os doentes e seus parentes se revoltarão agressivamente como os alunos e seus pais fazem atualmente.
A vida é feita de escolhas. O profissional escolhe como quer trabalhar, escolhe sua ética, e o paciente escolhe como quer ser atendido, como merece ser atendido. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Você contribui com seu desejo?


           Será possível alguém não contribuir para que seu desejo seja realizado? Ora, se a pessoa deseja, por que não realiza?
Aqui mora o problema do ser humano. Sua grande tendência em colocar seu desejo como algo inatingível. Sua grande tendência em fazer o possível para que o seu desejo torne-se algo impossível.
Existe em nosso jeito de viver, no nosso jeito de ser, uma dificuldade em bancarmos nosso desejo. Funcionamos muito pela via da responsabilização do outro pelos nossos fracassos e infelicidades. Abrimos mão dos sonhos em favor de uma postura vitimada e sofredora. Há muito narcisismo nisso, pois gasta-se muita energia em si mesmo e sobre si mesmo quando ficamos presos em pensamentos e atitudes de vítima. Sustentar este lugar do escolhido dentre tantos para sofrer no mundo e carregar o fardo do fracasso é um modo de satisfazer um narcisismo próprio.
O seu pior inimigo, o que realmente te impede de conquistar as coisas é você mesmo e não os outros. Cada um constrói, singularmente em sua fantasia inconsciente, o outro como o grande vilão, como o grande responsável por sua insatisfação. Porém, quem mais te atrapalha é você mesmo.
São diversos os exemplos de pessoas que são marcadas pelo fracasso, pela vida difícil e sofrida, pelo desejo sempre impossível de ser realizado. Freud em 1924 descobriu que no nosso funcionamento psíquico há uma tendência masoquista, uma tendência em ter satisfação no desprazer. Isso está para todos, e cada um satisfaz seu masoquismo no dia a dia da vida. Uns mais, outros menos. O que fazer, já que temos esta tendência masoquista em curtir o desprazer?
Ser feliz não significa ter todas as vontades satisfeitas, todos os objetivos realizados. Muito pelo contrário, isso seria o fim, o tédio, a morte. Viver de acordo com o desejo vai no sentido de permitir-se conviver com faltas e incompletudes, pois o desejar só existe por isso, e só tem sua razão de ser porque somos seres de falta.
Porém, muitos se prendem ao que falta e fazem disso um abismo sem fim. Quando o ser humano se perde nessa direção e se joga no abismo da perda, vê seus sonhos mais distantes, pois não faz das ausências uma causa de novas buscas, de novos projetos e novos planos.
Uma coisa é fundamental para que alguém consiga ser feliz: aceitar que não se é feliz por completo e o tempo todo. Aceitar que vivemos somente por conta dos furos, na medida em que são o motor da vida. Indo mais além, podemos até dizer que a felicidade não é algo universal comum a todos. Não há receita de felicidade. Cada um encontra seu modo feliz, na medida em que aprende a lidar com as incompletudes, na medida em que aprende a lidar com sua própria frustração e consegue caminhar de acordo com o desejo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Narcisismo do ser contemporâneo


O fechamento do homem em si mesmo é uma marca de nosso mundo contemporâneo. Mas por que muitos se fecham em um bastar-se em si mesmo?
Com o passar dos dias, vemos cada vez mais seres passando de um lado para o outro, cada um na sua bolha, intocáveis e impermeáveis ao contato com o outro. Fala-se muito em globalização, mas na prática o que acontece é um efeito inverso à comunicação liberal. Muitas pessoas se vêem, mas poucas se dão à aventura do contato significativo com o outro. Talvez aqui se justifique o imenso crescimento de tecnologias criadas para aproximarem as pessoas, mas que ao meu ver nos afastam cada dia mais uns dos outros. Entre nós existem inúmeros instrumentos e aparelhos que criados para facilitarem o contato estão cada dia mais impedindo o convívio real entre os humanos.
O problema é que as pessoas aproveitam disso, inconscientemente, para alimentarem um narcisismo que desde os primeiros anos de vida faz parte de nossa personalidade. Então aqui eu pergunto: será que a ciência sacou o nosso narcisismo e cria todas essas tecnologias “cômodas” para conseguir vender cada vez mais e mais? O mundo percebeu que somos altamente narcísicos e um mundo foi criado para nos alimentarmos disso. Conseqüentemente alimentarmos nossa necessidade de tirarmos prazer de nós mesmos, fechados em nós mesmos.
Já virou uma bola de neve. Onde isso vai parar? Não sei, mas muitos narcísicos vão parar nos consultórios. Angustiados com um simples risco de perderem sua fonte de alimento narcisista. Não suportam correrem os riscos de se aventurarem nos encontros reais, frente a frente. Preferem a distância, as falas calculadas, pensadas e sem margem para erros.
O narcisismo é uma defesa contra a exposição, contra os riscos que corremos ao viver, ao se relacionar, ao amar. Que graça há se não corrermos esses riscos? No psiquismo há uma tendência a permanecer em repouso tudo aquilo que está em repouso, é a inércia que muitas vezes é maior que qualquer tentativa de dar uma volta além da bolha, de sair do útero confortável, porém isolador dos contatos mundanos. Comentei sobre a inércia psíquica no artigo passado, essa nossa tendência em permanecermos estagnados mesmo havendo aí um mal estar.
Não nos fechamos por acaso. Freud descobriu que extraímos grande cargas de prazer no narcisismo. Uma postura “cômoda” que evita as dificuldades de enfrentar a vida. Mas será que não enfrentando essas dificuldades, há vida?

quarta-feira, 28 de março de 2012

Todos compulsivos?

Vivemos em uma época onde tudo parece ser possível, ou pior, tudo virou uma questão de necessidade! Deparamos o tempo todo, nos espaços públicos, nos encontros, nas salas de aula, com o que a grande oferta atual de produtos e tecnologias tem causado aos modos de relacionamento humano. Se antes era difícil se relacionar, agora isso não entra nem mais na pauta do dia. Entre eu e o outro, agora existem o smartphone, o facebook, os i-tudo (i-pad, i-mac, i-pod, i-toch, i-phone). Relacionamo-nos agora é com esse tipo de coisa. A presença do outro vem a reboque como uma mera consequência. Não tem como a Psicanálise não se implicar e não se posicionar frente ao sem-limites do nosso mundo, ao gozo desenfreado da sociedade atual.
A cada semana prometem a felicidade. Nós, pobres humanos, acreditamos nesta ilusão, entramos no circuito da compra infinita, na corrida pela atualização. Queremos ter o melhor, o mais rápido, porém, a cada dia o melhor já não é o melhor. O cobiçado de hoje é o vergonhoso de amanhã. Que modo de vida é esse onde o melhor é efêmero? Desaparece na mesma velocidade que chega. Será então que realmente isso é o melhor? Puro jogo do mercado. Exercemos o poder de compra, mas nesse jogo de poder, acabamos entrando como subordinados. Os subordinados ao sem-limites do mundo tecnológico. Quais os efeitos desse modo de vida? Mega-solidões, Giga-isolamentos. O tratamento para este mal é o “Compre mais!”. Não perca tempo! Agora sim com este próximo produto você será feliz! Acesse o mundo e se conecte com todos! Porém, não nos avisaram do risco de se desconectar de si mesmo.
Pessoas vazias e sem direção. A i-fantasia desses produtos descartáveis se sustenta à custa de um mal-estar global. A sensação de desamparo é nítida, principalmente na classe jovem, parcela da população que acabou sendo mais fisgada por essa promessa fantasiosa de felicidade. Reparamos que os adolescentes só se movem em função dos objetos da tecnologia. Só se movem e se movem sós! A falta de ideais têm-lhes causado uma nova doença psíquica que eu chamo de i-tédio.
A compulsão é generalizada. Somos todos toxicômanos, dependentes e drogados pelos objetos. Existem vários tipos de drogas por aí, muito além das químicas. Objetos que nos alienam e nos tornam cada dia mais obcecados e cegos pela satisfação, não importa o quanto isso vai nos custar. E o preço que pagamos não é somente em dinheiro. Como andam os estudos, os namoros, as disputas que antes eram éticas e leais, os laços sociais? O que negligenciamos de um lado, volta com mais força por outro. Agressividade e ansiedade são alguns dos efeitos que as pessoas da geração i-posso tudo sentem quando são confrontadas com o ‘não’.
Estamos todos iguais, sem diferença, pois todos são consumidores. Todos são nivelados pela compulsão. A marca particular de cada um desapareceu. O traço singular que me possibilita viver de acordo com meu desejo está perdendo espaço. A diferença entre os seres é recusada. Mas o que fazer se é exatamente essa diferença que promove a graça da vida? Aquele que não é igual, que não compartilha da mesma compulsão está fora da rede. Uma rede virtual, nada real.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Autismo

A fim de tentarmos entender mais o mundo autista, vale a lida de alguns tópicos no site:
http://www.autismos.es/
.
A Psicanálise aborda o problema do autista considerando-o em sua particularidade. A direção de tratamento leva em consideração o que o sujeito pode construir a partir de seus recursos, mesmo que sob o olhar da ciência eles sejam considerados deficitários.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre o real da transferência, motivo de existência do psicanalista

É somente pelo amor de transferência que o psicanalista opera em sua função:

"A transferência, em última instância, é o automatismo da repetição. [...] A transferência, por mais interpretada que seja, guarda em si mesma como que uma espécie de limite irredutível. [...] Na transferência, o sujeito fabrica, constrói alguma coisa. [...] Em outras palavras, parece-me impossível eliminar do fenômeno da transferência o fato de que ela se manisfesta na relação com alguém a quem se fala. Este fato é constitutivo."
LACAN, O seminário, Livro 8, a transferência, capítulo XII.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Para pensar e se indignar

Filósofa russo-americana Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920):
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A perda do líder: possibilidade de sonho


A morte do ditador norte-coreano Kim Jong-il nos conduz a pensar muitas coisas pelas quais a humanidade passa, porém ainda ignora como se fosse algo trivial. Trata-se da relação das massas com seu líder, da alienação mental em torno da figura de grandes líderes ou em torno de ditadores. Já cansamos de ver as consequências devastadoras de movimentos que abolem a vida privada em nome dos ideais do grupo. O ser humano é capaz de tudo quando age em nome do bando. Desde pequenos grupos, turmas, até grandes nações, percebemos movimentos em torno de um ideal de onipotência. Os fanatismos religiosos estão no mesmo patamar dos líderes radicais como Hitler, Sadan Hussein, Kadafi e agora Kim Jong-il.

Ao ver as reportagens e vídeos mostrando a reação da população norte coreana com a morte do ditador, fiquei atento ao choro marcante do povo, diante da perda de sua referência. Na população feminina isso ainda é mais notável, quando aparecem aos prantos nas ruas. A perda da referência identificatória, daquele que garantia a ilusão comum da nação norte-coreana ainda vai ressoar bastante no povo. No lugar do ser imortal e imponente, agora só restam o vazio e a desestruturação da identificação imaginária. Uma crise que pode abrir espaço para sonhos e buscas particulares. Aliás, não somente na Coreia do Norte, mas em qualquer lugar do mundo, o vazio e o furo no imaginário sedutor abre espaço para o sujeito sonhar, buscar, realizar. Porém, por lá, rapidamente já elegeram o sucessor (o adolescente filho do ditador) a fim de não verem abaladas as estruturas da comunidade, da comum unidade. A política do falecido Kim Jong-il, que promove a amputação do desejo singular e o esmagamento do que pode haver de particular é capaz de fazer uma nação inteira viver alienada. 
Não podemos deixar de percorrer o texto de Freud "Psicologia das massas e análise do eu" e da discussão que ele desenvolve lá ao explicar o mecanismo que existe na estrutura dos movimentos populares e de condução de grupos por uma identificação alienada ao ser portador da liderança. Exteriorizamos na figura externa nossa responsabilidade sobre nós mesmos e depositamos no líder toda esperança de salvação, de cura, de conforto. O preço por isso é altíssimo. Pagamos com nossos sonhos mais íntimos, nossas fantasias mais preciosas em nome da unidade inabalável do grupo. Abrimos mão de projetos particulares para satisfazer o projeto da proposta única do grupo.
Não precisa ir muito longe para encontrarmos discursos alienantes nos quais as pessoas se agarrem para automaticamente se desresponsabilizarem de seus desejos, seus feitos e até mesmo seus erros. O ser humano faz de tudo para abrir mão de seu desejo e eleger o outro como grande culpado do fracasso. Daí então um meio de entender por que tantas pessoas se submetem a regimes totalitários ou práticas alienantes, ou seja, para nada saberem de si mesmas. É a fuga covarde, a escolha pela ignorância, para do desejo nada querer saber. Por isso, ainda veremos muitos ditadores pelo mundo. Há quem precise deles, infelizmente!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Na era digital, nada melhor do que um próprio ícone da área para nos alertar:

"Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história."
Bill Gates

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Desafio

Quem são as celebridades pensantes abaixo, estilizadas à maneira 'The Simpsons'?
O último à direita já lhes digo que é Michel Foucault. Mas e os demais?
Quem acertar ganha um doce de leite do pé da vaca.

Articulação: Psicanálise e a arte do Arqueiro Zen

O que pode haver de similar entre o ato analítico e a postura zen no tiro com o arco?
A meu ver, tais práticas são fortemente marcadas por um fator, o Mushin. 
Tal postura nos remete ao estado de 'não mente' ao 'nada na mente' e desprendimento de si mesmo, para que a intenção ceda espaço à tensão, única responsável por tocar aquilo que realmente precisa ser tocado, logo, o real da pulsão.
Para melhor entender o que pretendo introduzir aqui, sugiro o livro do filósofo alemão Eugen Herrigel "A arte cavalheiresca do arqueiro zen". Trata-se do relato de sua experiência com a transmissão zen na arte de tiro com arco, sob a tutela do mestre japonês Sensei Awa Kenzo.
Abaixo um antigo vídeo do sensei Awa.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

É possível ser feliz?

          Apesar de ser um assunto antigo que percorre a humanidade antes mesmo das filosofias gregas, o tema da felicidade parece ser muito atual.
A Psicanálise sempre problematizou a “felicidade”, e atualmente com mais vigor tem debatido este assunto nos congressos, seminários e nas instituições diversas. Talvez o interesse por esse assunto tenha aumentado porque nunca tivemos uma época tão adoecida e depressiva como a nossa contemporânea.
Pois bem, é possível ser feliz?
            Freud, em 1930, no seu belíssimo texto “O mal estar na civilização” afirma que a felicidade não nasce junta conosco, não está inclusa no material genético e é um momento raro, que ocorre com muito menos frequência do que os momentos de mal estar e desprazer. A tal felicidade suprema almejada é um horizonte inatingível e o máximo que podemos sentir são pequenos momentos de prazer.
Nos dias de hoje, cada vez mais temos percebido o aumento do número de pessoas insatisfeitas e desanimadas com a vida. Basta vermos o número abusivo do consumo de antidepressivos e ansiolíticos, muitos adquiridos até sem receita médica; além é claro, do aumento do uso de drogas e abusos do álcool. Nunca se consumiu tanta droga, álcool, e tanto psicofármaco na história da humanidade. Por que será? Alguns leitores dirão que é devido ao fato de termos maior acesso ao consumo. Porém, há outra coisa por trás disso, com maior peso do que as estratégias da indústria farmacêutica ou do tráfico de drogas, ou seja, o ser humano iludido.
A configuração de vida na era contemporânea nos coloca a querer respostas rápidas e sensações intensas sempre, sem o menor esforço. Isto é, queremos ser felizes, mas de forma a não gastarmos nenhum empenho energético, emocional e físico inclusive. As crianças estão assim, os adolescentes nem se fala, e os adultos parecem já terem jogado a toalha, caindo em um tédio sem fim. Queremos engolir um remédio mágico e acordarmos plenos, satisfeitos.
Se isso é ser feliz hoje em dia, então podemos dizer que todos somos felizes! Que maravilha!
Ilusão. Vazio entediante, que mais cedo ou mais tarde nos jogará de frente à dura realidade. Realidade onde temos que construir as coisas, os sonhos, os objetivos na vida, e isso inclui também o estado de prazer e felicidade que almejamos, mas que os alerto, não será pleno de forma alguma.
Não queremos investir na busca, na aventura de viver sem saber ao certo o que encontraremos pela frente. Esquecemo-nos de encarar a vida com todos os mistérios e incertezas que ela carrega, pois é isso mesmo que pode nos trazer graça. A era digital nos fez crer que tudo é possível, inclusive ignorar a imprevisibilidade da vida. Como somos estúpidos, pois o imprevisível é o que nos faz sermos felizes, mesmo que momentaneamente. São desses pequenos e raros momentos, não sabidos, não planejados, não medidos, que podemos extrair prazer. Somente assim eu acho que poderemos afirmar: é possível ser feliz, não toda vez, mas de vez em quando, em cada vez.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Em época de pressa, pressão e compulsão é bom lembrar que:

"Was man nicht erfliegen kann, muss man erhinken.
Die Schrift sagt, es ist keine Sünde zu hinken"
                       
"Ao que não podemos chegar voando, temos de chegar mancando.
A escritura diz que não há pecado em claudicar"

Este trecho - retirado da versão de Rückert dos Maqâmât de al-Hariri (literatura árabe) encontrado no 'Die Beiden Gulden' -, foi citado por Freud em 1920 no final de "Além do Princípio do Prazer".

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Em época de protestos é bom lembrar que...

"As revoluções começam sempre nas ruas sem saída"
"Desgraçado é o país que precisa de heróis"


Bertolt Brecht (Poeta e dramaturgo alemão)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Michel Foucault - Sobre o paradoxo do louco

Percurso sobre o louco, da era Clássica à Modernidade.
Será também essa, a nossa forma de o entender, até hoje, na pós modernidade?

"O Louco doravante está livre, e excluído da liberdade. Outrora ele era livre durante o momento em que começava a perder sua liberdade; é livre agora no amplo espaço em que já a perdeu."
História da Loucura - Capítulo 14 'O círculo Antropológico'.
Ao louco é dado liberdade, porém somente dentro dos muros fechados dos hospitais. Raramente os encontramos pela cidade afora.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Transtorno mental: problema cerebral ou psíquico?

Assusta-me a grande quantidade de pessoas, inclusive crianças, fazendo uso de antidepressivos e ansiolíticos. Os transtornos mentais, sejam eles leves ou graves, são problemas no funcionamento dos neurônios? Ou são causados por desarranjos psíquicos? Quando digo ‘psíquico’ quero falar de causas afetivas, emocionais, que surgem de nossas experiências no mundo, na infância, na família, nos relacionamentos, com os pais... Enfim, fruto da vivência humana.
Existe uma forte corrente científica que acredita unicamente no “desequilíbrio químico” do cérebro. Porém esta ideia nunca conseguiu ao certo provar-se como verdade única, mesmo que os laboratórios insistam nessa tese e queiram alienar a população, fazendo-a acreditar cada dia mais somente nisso. Afinal, vender remédio é imensamente lucrativo. Quanto mais pessoas confiando que o cérebro é a causa da depressão, mais remédios serão vendidos.
Mas por que, mesmo sabendo que a causa de seus problemas são outros, as pessoas insistem nos remédios e acreditam cegamente nas teses neuronais? É uma ferida na onipotência e no narcisismo, além de vergonhoso para alguns, assumir que existem problemas em casa, na vida íntima. Assim, fica mais fácil eu dizer que a causa de minha agressividade é porque Deus fez meu cérebro com falta de serotonina, ou com excesso de dopamina. Portanto, no meio social, passo uma impressão de que o problema não é meu, mas do meu cérebro. É como se a causa de meu transtorno mental não passasse pelas minhas escolhas e desacertos da vida, dos quais eu sou responsável. Esse raciocínio de passividade e vitimização de nossa época nos fez ganhar o rótulo de Geração T. Isto é, Geração Testemunha, que acompanha tudo que acontece, mas é incapaz de analisar e criticar o que se passa consigo mesma.
O problema que causa uma febre não é a falta de aspirina no corpo, e sentir dor não é devido à falta de morfina no corpo, como se fôssemos doentes por não termos todas as substâncias dentro de nós. O que faz uma criança ser agitada e desatenta não é um desequilíbrio químico dos neurônios. Antes mesmo de o remédio entrar em sua vida, preste a atenção nas coisas que já aconteciam e que não vinham muito bem. São raríssimos os casos em que a causa de um transtorno mental é biológica, mas raríssimos mesmo!
O remédio muda sua vida ou apenas ameniza seus sintomas? É melhor sempre cuidar do machucado ou entender por que se machuca tanto? Acreditamos demais nos tais milagres da química divulgados na mídia. Quando colocaremos o pé no chão real da vida e assumiremos responsabilidades pelos transtornos? Deixaremos que a ciência nos conduza como única luz possível neste túnel escuro?
Faço-lhes uma indicação de leitura que me pôs a pensar mais neste tema. Trata-se da reportagem “A Epidemia de Doença Mental” de Márcia Angell na Revista Piauí de agosto deste ano, nº59. Vale a pena não ficar tão alienado e parar de se enganar às custas da indústria farmacêutica. O destino de sua vida passa pelas suas escolhas, muito mais do que pelas sinapses de seus neurônios. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Paul Valéry

Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry, foi um filósofo, escritor e poeta francês.
"Les livres ont les mêmes ennemis que les gens: le feu, l'humidité, les animaux, la météo, et leur propre contenu"
"Os livros têm os mesmos inimigos que as pessoasfogo, umidade, animais, clima, e seu próprio conteúdo "

Um pedacinho da história da loucura... Brant, Bosch, Erasmo de Rotterdan, Foucault e o inusitado Billie Joe Armstrong

Segue aqui o artista Hieronimus Bosch e suas ilustrações sobre o modo como se interpretavam e tratavam as manifestações psíquicas na era clássica, fim do tempo medieval. Marco do início da 'Grande Internação', da forma como Michel Foucault nos explica, e início da exclusão do 'louco' dos meios culturais, como se a ele não fosse possível o direito à vida social. Essa é uma longa discussão... que nos atravessa ainda hoje.

Segue aqui o Navio dos Loucos ou a Nau dos Loucos - Narrenschiff. Uma ilustração sobre o período em que as cidades expulsavam seus 'loucos' e os destinavam aos asilos espalhados por toda Europa, através de grandes embarcações rios acima e abaixo. Alguns dizem que Bosch ilustrou o que Sebastian Brant escreveu em sua obra Das Narrenschiff de 1492 ou Stultifera Navis versão em latim de 1497.


Tentativa do homem dito" racional" de expurgar a insanidade de dentro das cidades, porém, ironicamente o louco leva consigo um saber trágico e revelador, apreciado e inatingível pelos homens "normais". A árvore que a Nau traz como mastro principal representa o saber (árvore proibida, a árvore da imortalidade pretendida). O  embarque anunciava a Grande Internação que estava por vir, tendo seu marco com a criação em 1656 do Hospital Geral de Paris, uma instituição pautada nos moldes morais, muito mais do que sob princípios médicos.


E abaixo a Extração da Pedra da Loucura ou Cura da Loucura - Das Steinschneiden. Diante do não saber o que fazer com a 'loucura', tentava-se retirar do cérebro alguma causa ou núcleo causador do mal estar psíquico. Ou quem sabe os invejosos tentavam tirar do louco seu saber em lidar com a vida de modo natural e livre? 




Diferente do que Brant e Bosch retratavam, tudo que havia de obscuro da loucura que espreitava o homem de fora para dentro, com Erasmo de Rotterdam em 1509 ao promover o Elogio da Loucura a insanidade passa ser o que se insunua de dentro do próprio homem em seu conflito consigo mesmo. Neste sentido, Foucault na História da Loucura na Idade Clássica compila: "A loucura só existe em cada homem, porque é o homem que a constitui no apego que ele demonstra por si mesmo e através das ilusões com que se alimenta"
Portanto, não nos esqueçamos do alerta de um cantor de nossa época, Billie Joe Armstrong do Green Day:
The space that's in between insane and insecure.

Oh therapy, can you please fill the void?
Am I retarded?
Or am I just overjoyed?
Nobody's perfect and I stand accused,
For lack of a better word and that's my best excuse.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A Sublimação além do crime

O sujeito se mostra vivo na criação, até mesmo dentro da instituição!
Segue a poesia lavrada pelo delegado Reinaldo Lobo a respeito de um crime, na 29ª DP, de Riacho Fundo(18 quilômetros de Brasília). 
Vale a pena conferir a reportagem: 
http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2011/08/delegado-do-distrito-federal-relata-crime-em-forma-de-poesia.html
"Já era quase madrugada
Neste querido Riacho Fundo
Cidade muito amada
Que arranca elogios de todo mundo
O plantão estava tranqüilo
Até que de longe se escuta um zunido
E todos passam a esperar
A chegada da Polícia Militar
Logo surge a viatura
Desce um policial fardado
Que sem nenhuma frescura
Traz preso um sujeito folgado
Procura pela Autoridade
Narra a ele a sua verdade
Que o prendeu sem piedade
Pois sem nenhuma autorização
Pelas ruas ermas todo tranquilão
Estava em uma motocicleta com restrição
A Autoridade desconfiada
Já iniciou o seu sermão
Mostrou ao preso a papelada
Que a sua ficha era do cão
Ia checar sua situação
O preso pediu desculpa
Disse que não tinha culpa
Pois só estava na garupa
Foi checada a situação
Ele é mesmo sem noção
Estava preso na domiciliar
Não conseguiu mais se explicar
A motocicleta era roubada
A sua boa fé era furada
Se na garupa ou no volante
Sei que fiz esse flagrante
Desse cara petulante
Que no crime não é estreante
Foi lavrado o flagrante
Pelo crime de receptação
Pois só com a polícia atuante
Protegeremos a população
A fiança foi fixada
E claro não foi paga
E enquanto não vier a cutucada
Manteremos assim preso qualquer pessoa má afamada
Já hoje aqui esteve pra testemunhá
A vítima, meu quase chará
Cuja felicidade do seu gargalho
Nos fez compensar todo o trabalho
As diligências foram concluídas
O inquérito me vem pra relatar
Mas como nesta satélite acabamos de chegar
E não trouxemos os modelos pra usar
Resta-nos apenas inovar
Resolvi fazê-lo em poesia
Pois carrego no peito a magia
De quem ama a fantasia
De lutar pela Paz ou contra qualquer covardia
Assim seguimos em mais um plantão
Esperando a próxima situação
De terno, distintivo, pistola e caneta na mão
No cumprimento da fé de nossa missão
Riacho Fundo, 26 de Julho de 2011
Del REINALDO LOBO

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Amy Winehouse: expressão da angústia de nossa época

Natural de Londres, cantora e compositora de inigualável capacidade, voz inconfundível e estilo original, Amy Jade Winehouse falece em sua mais autêntica forma de expressão. Não escondia seu problema, não fingia para e por ninguém, não negava que sofria.
Existem várias pessoas como Amy Winehouse por aí, mas ela era a expressão máxima do ser desesperado e iludido com o falso mundo propagado de nossa época. Um ser caído na armadilha do modo de vida atual que vende uma felicidade vazia, que tenta colocar o ser humano preso aos objetos, ou presa dos objetos de consumo.
Amy tornou-se a cada dia um ícone de nosso tempo. Ela nos transmitiu o que poucos conseguem perceber: apesar de estarmos cheio de coisas, a cada dia, nos sentimos mais vazios.
Nossa condição mais real e mais verdadeira é a falta. Mas o que o mundo pós-moderno tenta fazer é nos impedir de tomarmos conhecimento de nossa própria falta. Somos chamados a consumir objetos a cada dia, um após outro e assim caímos na trama do vazio. Tentar ofuscar a falta é antecipar a morte. Sentir falta é essencial para buscarmos os projetos de vida. Mas indo contra isso existe o vazio, mantido pela aquisição desenfreada e consumismo. E isto, acredito estar na base do que de pior aconteceu com a cantora, que mostrava a cada dia o tédio no qual se encontrava.
Freud em 1914 já nos dizia desta sensação de vazio intenso, a angústia, “Angst” em alemão. Lacan como bom freudiano que foi, deu à angústia, “Angoisse” em francês, um lugar de destaque no psiquismo humano. A angústia é um sinal. Um aviso de que algo não vai bem e que um vazio está presente. Só sentimos este vazio, este aperto, quando algo ocupa o lugar da tal falta, que por princípio causaria o nosso movimento de busca e desejo. A angústia é a ausência de sentido, é a paralização do desejo, é a falta da falta.
Amy Winehouse! Aquela que mostra a todos o vazio em que o mundo se encontra. A angústia pós-moderna em carne e osso, literalmente.
Uma frase que se repete em suas músicas e que me chama a atenção é “tears dry”, que no português seria “lágrimas secam”. Denúncia de uma mulher que está sem lágrimas, que está sem como chorar por algo que nem sabe ao certo o que é. Pelas letras musicais, a cantora nos dava notícia de sua intimidade, assim como na música "Rehab" em que ela diz resistir às internações para tratamento do uso de drogas e álcool.
Amy, aos poucos, pela via artística, tentava fazer algum apoio psíquico para continuar viva. Mas o uso de drogas compulsivo, agressões e tentativas de suicídio, e ainda, sua anorexia em mais alto grau, tomaram grande parte de sua existência. Tentativas desesperadas de fazer algum furo nisso que se mostrava tão pesado e cheio para ela. Tentativas de voltar a funcionar baseada na falta? Esteve ela desejando a vida e lutando com sua pulsão de morte? 
O ser humano está se entupindo com um discurso de falsa felicidade dependente dos objetos da tecnologia e da ciência. Permitam-se faltar! Deixem-se desejar! A vida se prolonga na falta, não nesse vazio angustiante, cheio de coisas, por onde entra também o porquê das diversas compulsões

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Freud e Lacan

"A psicanálise não tenta descrever o que é a mulher — seria esta uma tarefa difícil de cumprir —,mas se empenha em indagar como é que a mulher se forma, como a mulher se desenvolve
desde criança[...] Em suma, fica-nos a impressão de que não conseguimos entender as mulheres, a menos que valorizemos essa fase de sua vinculação pré-edipiana à mãe."
Sigmund Freud -  1932 - 'Feminilidade'


"Não é necessário ser psicanalista para saber que
quando qualquer pessoa[...]nos pede algo,
isto não é para nada idêntico, 
e inclusive às vezes
é diametralmente oposto àquilo que deseja"
Jacques Lacan - 1960 - 'Psicanálise e Medicina'

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Hereditariedade e a nossa desresponsabilização

Instigado pela pergunta de Patrícia Belisário (doutora em assuntos da vida), e contando com a crítica apurada de Neuza Alves (leitora assídua), trago aqui apontamentos sobre o modo como o ser humano se aproveita do fator hereditário e do discurso da ciência para conduzir de forma negligente os problemas e adoecimentos, em especial, os de ordem psíquica.
Atualmente, a postura que algumas pessoas adotam diante de seus problemas de comportamento e conflitos de personalidade, tem sido regida pela não responsabilização ou tentativa de não implicação, como se contra uma força genética ou de hereditariedade nada fosse possível fazer. Vale lembrar que a hereditariedade para a Psicanálise leva em conta a criação que recebemos, isto é, transmissão de valores, interpretações e posturas de vida, que vão além dos códigos genéticos. Além disso, a Psicanálise caminha de modo à pessoa assumir o próprio papel diante de sua carga hereditária, tomando para si a responsabilidade por seu modo de ser, viver e se comportar, mesmo que algo escape de sua consciência e razão.
Sabemos da relação que existe entre a carga biológica com a qual nascemos e a modificação que sofremos por conta das influências do meio. Somos produto do gene ou do meio? A interação destes dois pontos é inegável, mas isso não exclui o peso de nossas escolhas e as consequências que extraímos de nossas próprias decisões.
A isenção de responsabilidade que vivemos atualmente e a supervalorização do fator hereditário, promovendo uma negligência no modo como passamos a encarar nossas falhas, erros e adoecimentos, traz um problema gravíssimo: aprendemos a colocar a culpa nos ancestrais ou naquilo que trazemos deles no DNA. Seja para um adoecimento orgânico, seja para um modo de comportamento estranho e doentio, a tendência atual é justificarmos pela via da força genética ou de criação do meio, forças encaradas como impossíveis de serem mudadas.
Para o problema da agressividade ou do alcoolismo, por exemplo, muitos se justificam nos traços de família, como se contra isso nada pudesse ser feito, a não ser aceitar calado.
Estamos pagando um preço por transportarmos para os outros (pais, professores, e até mesmo a ciência) uma responsabilidade que é de cada um. A tendência em não mudar a acomodação no desprazer e a compulsão à repetição faz com que mais e mais pessoas deixem de se apoderar dos próprios problemas, e passem a conduzir a vida de modo negligente.
Espera-se muito da ciência. Confia-se muito nos laboratórios. Porém, na vida íntima, no cotidiano particular de cada um, pouco se faz para mudar. Raramente assumimos nossas falhas, faltas, e sempre achamos alguém para culpar, no caso aqui, sobrou até para as nossas gerações passadas.
Implicar-se naquilo que você faz, mesmo que não consiga, ainda, entender por que é que você faz; assumir que isso é seu e não da hereditariedade (como se fosse algo distante ou fora de seu alcance); e se implicar naquilo que age em você é uma forma de dar direções diferentes para isso que já vem se repetindo muito antes de você nascer.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Alguns escritos e pensamentos próprios nos intervalos do consultório

A linguagem é um campo onde o ser humano entra para tornar-se sujeito. Isso não é nada natural a ele. (23/04/2012).

O isolamento e agressividade do autista é uma posição defensiva diante da presença do insuportável furo no Outro. (15/07/11).

O inconsciente gira na medida em que convidamos o sujeito a falar, apresentando-o à enunciação presente nos seus enunciados. (15/07/11)

A Psicanálise surge no momento em que as formações do inconsciente, rejeitadas pela ciência, passam a ser escutadas. (13/07/11)

A medicina trata do organismo. A psicanálise trata do corpo. O organismo não fala, não deseja; e o que conhecemos por anatomia, subjetivamente se organiza de outra forma... a neurose histérica nos dá notícia disso. (08/07/11)

Cada sujeito encontra seu modo particular de conduzir o conflito intrínseco à condição de ser humano, isto é, cada um cria uma amarração peculiar para o problema da sexualidade. É o que chamamos de sintoma na Psicanálise. (08/07/11)

É preciso que a mãe tome o filho como seu pequeno objeto de desejo, para que o filho seja capturado e não fique perdido à deriva autista. Num segundo tempo é preciso que o pai corte essa relação imaginária mãe-filho para que a criança não se prenda na psicose. (22/06/11)

O Psicótico trata a realidade e o seu corpo como coisas desamarradas e desligadas. Um pouco desta constatação é o que o neurótico não suporta, esconde e nega. (10/01/11)

A mulher insatisfeita é a causa de movimento do homem. A histérica provoca o mestre e o destitui para fazê-lo produzir mais. (22/01/11)

O analista não deve responder demandas, começando por não demandar nada do paciente, nem mesmo sua felicidade, seu sucesso. Acolhemos a demanda para fazer desta um caminho à causa de desejo. (27/01/11)

A linguagem  é um aparelho autônomo e alheio à realidade. Realidade que acaba sendo mordida e atingida por palavras.(01/02/11)

O desejo é sempre busca de algo outro, pois para sempre algo está perdido e não referenciado, a não ser, referenciado ao nada. (07/02/11)

A transferência é um efeito do discurso analítico e não da pessoa do analista. (18/03/11)

O inconsciente não é algo profundo, mas está na superfície moëbiana do corpo. (05/05/11)

A angústia é a materialização de algo no lugar onde deveria haver causa de desejo. (26/05/11)

Não me dê isso que peço, pois não é isso que quero... Amar é dar o que não se tem, é amar a falta encarnada pela pessoa amada. (13/05/11)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sobre o amor e o que está além disso

Passado o dia dos namorados, vamos conversar brevemente sobre o amor. O amor é uma criação humana, uma invenção demasiadamente humana. Não se engane, pois não nascemos com o dom mágico de amar.
Sem o amor não haveria a vida em civilização, não haveria amizade, namoro e nem mesmo o casamento. Além do mais, o amor nos atinge em um período estrutural de nossa personalidade, nos fazendo assim, seres sociais, diferente dos animais.
Muitos questionarão: mas os animais também se amam! O fato de formarem bandos ou viverem em conjunto não nos diz que se amam. É uma necessidade de sobrevivência, pura e simplesmente isso. O cachorrinho não ama sua cadela. É uma questão de predisposição do instinto. As grandes organizações de animais como as abelhas e formigas não se fundam a partir do amor entre si, mas do instinto de sobrevivência.
Não nascemos com capacidades de sobrevivência ou predisposições inatas que nos garantiriam sobressaírmos no mundo. Somos dependentes do outro, deste grande Outro que já nos esperava antes de nascermos (mamãe, papai, titia, vovó, vovô, irmão). Se não fôssemos acolhidos no nascimento, morreríamos, diferentemente do jacaré, por exemplo, que já faz coisas impressionantes nos primeiros minutos de vida. O ser humano é prematuro no nascimento e não possui nenhuma capacidade autônoma.
Mas o amor falha, e é fundamental que seja assim. A graça do namoro, dos relacionamentos é exatamente esta. Ou seja, nos furos e nos desencontros dos relacionamentos que a vida se torna prazerosa e permeada de desejo. Amar é assumir que precisamos do outro, é assumir que sentimos falta e somos incompletos, mas é fazer da falta uma causa de desejo, e não exigir do(a) parceiro(a) preencher e tamponar o buraco deixado pelo grande Outro do período infantil. Esta exigência cega que muitos colocam nos seus relacionamentos está próxima do amor doentio.
Por que será que nem todos conseguem amar, conseguem suportar os vazios? Poderíamos cair no dito popular de que você colhe o que planta, ou que se não foi amado não conseguirá amar. Percebo no trabalho diário que isso procede, mas tem algo que se passa além deste ponto de como a criança foi criada e não podemos nos fixar nisso. Faz uma diferença sim para a criança o modo como foi favorecido a ela um respaldo afetivo, mas a pessoa é responsável por suas escolhas e modos de vida. Mesmo os pais mais amorosos deixarão lacunas e vazios. Buracos cruciais para a criança aprender a lidar e se desenvolver. Vazios que serão projetados e reeditados nos caminhos das escolhas amorosas. O que cada um fará da falha e dos buracos deixados ao longo da constituição psíquica é problema e responsabilidade de cada um. O que cada um vai fazer de seu afeto e como vai direcionar seu modo de amar é de sua exclusiva responsabilidade.
O que fazer das lacunas deixadas? Como lidar com os vazios? Esse é o grande desafio a ser enfrentado por cada pessoa, e de quebra, por cada casal na sua aventura de amar.