quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Inteligência Emocional: estar bem consigo mesmo

Seguem aqui as respostas que produzi frente às perguntas do Sr. Samuel Tadeu, Editor-chefe do Jornal Observador de Pedro Leopoldo-MG, a respeito do tema "Sentir-se bem consigo mesmo", algo que eu mesmo entendi como relacionado ao campo da "Inteligência Emocional".

1- O que significa estar bem consigo mesmo?
Principalmente ter desenvolvido a inteligência emocional suficiente para ser autorresponsável por todo o destino de sua vida e por tudo que lhe ocorre, juntamente com o sentimento de gratidão por tudo que enfrentou, conquistou e desenvolveu, ou seja, grato consigo mesmo pela luta pessoal do cotidiano, pelas conquistas, pelas vitórias, pelas derrotas e erros com os quais pode aprender e evoluir. Além disso, para a pessoa se sentir bem consigo mesma uma das condições primordiais é a de não se sentir vitimada, pois a posição vitimada produz rancor, desgosto e baixa autoestima. O vitimado nunca estará bem consigo mesmo, já que estar numa condição de vítima é dizer para si mesmo e para o mundo que ela não é boa o suficiente e não merece se sentir capaz. A vítima é a personificação da derrota; e se a pessoa se sente derrotada como poderá ficar bem? Impossível.

2- O que leva a pessoa a não estar bem com ela mesma?
Sensação de não merecimento, culpa, ingratidão e baixa autoestima. Tudo isto somado à posição vitimada é o que leva uma pessoa a fechar as portas da possibilidade de se sentir bem consigo mesma. A pessoa que não se respeita, não se trata bem, não se perdoa, não se ama, e sente que não merece viver bem, automaticamente sem pensar e sem ter consciência disso irá tomar decisões e atitudes que o levarão ao pior. Portanto, inconscientemente a pessoa que não se sente bem consigo mesma busca se punir, se adoecer e se fazer mal, numa espécie de masoquismo velado e bem disfarçado em uma posição de vítima dos outros e do mundo.

(Perguntas 3, 4 e 5 juntas em uma só resposta)
3- Qual a importância de ter ao nosso lado a presença de outras pessoas? 4- Por que a presença do outro às vezes nos incomoda tanto? 5- Seria este o motivo relacionado ao isolamento de muitas pessoas?
O ser-humano é ao mesmo tempo um ser social e avesso ao seu semelhante. Carregamos internamente esta divisão e conflito de ao mesmo tempo que queremos contato, nós temos uma aversão ao que os outros causam e despertam. A presença do outro em nossas vidas é a fonte de onde mais recebemos feedback e retorno de como somos, como estamos e o que sentimos. Somente no convívio com o outro que eu me torno um sujeito melhor comigo mesmo e evoluo. Porém é importante ressaltar que não são os outros que me dizem quem sou, mas é pelo convívio com o outros que eu mesmo me descubro quem eu sou. Sozinho isso seria impossível, pois ninguém acessa a si mesmo se não for pelas experiências que colhe fora.
A presença do outro às vezes incomoda somente quando eu encontro no outro algum traço de minha personalidade, característica ou jeito que eu mesmo possuo e não suporto ou não gosto. Nosso aparelho psíquico funciona muito pela via do mecanismo da Projeção Inconsciente, e quando eu encontro no outro a semelhança de algo em mim que não gosto ou que eu não mais gostaria de ter, eu projeto inconscientemente minha raiva, frustração e revolta. O ser humano não gosta no outro exatamente aquilo que internamente em si próprio não está dando conta. Para que os outros passem a te incomodar menos olhe para si mesmo e descubra o que esta relação específica está despertando em si mesmo. Ao se tratar e ao se livrar de suas neuroses e traços de personalidades disfuncionais, você automaticamente passará a não se incomodar tanto com alguns outros à sua volta. A coisa é inconsciente e é séria! A pessoa que se isola não está afim de se encarar, não consegue pagar o preço da evolução pessoal e não dá conta de lidar com as próprias questões, porque o contato com os outros é o que nos faz termos contato direto com o nosso âmago mais profundo. Não por acaso que o casamento e os relacionamentos sinceros nos exigem amadurecimento, pois o contato intenso com o outro potencializa o meu contato comigo mesmo e com meu mundo interno.

6- Para um bom relacionamento quer seja com amigos ou parceiro é fundamental estarmos bem com o que somos e fazemos?
Se eu não estou bem comigo mesmo e não trato minhas neuroses, por uma questão lógica, eu vou projetar isto nos outros à minha volta; e esta é a causa de tantos relacionamentos ruins e disfuncionais.

7- Muitas vezes as pessoas se envolvem em situações conflituosas e só deparam com esta situação depois que o leite está derramado. Como explicar isto?
A impulsividade é uma marca negativa de nossa contemporaneidade. Cada dia mais estamos produzindo crianças impulsivas, adolescentes ansiosos e adultos inconsequentes. Na palestra que fiz para o Rotary, sobre o tema "Ética na Contemporaneidade" pude abordar os três tempos lógicos que a Psicanálise formula sobre o funcionamento psíquico e que explicam o porquê de estarmos tão impulsivos e ansiosos. São eles: Instante de Ver, Tempo de Compreender e Momento de Concluir. A impulsividade típica das relações atuais não passam de uma consequência do esmagamento e diminuição do "Tempo de Compreender". Para a Psicanálise, todo pensamento, experiência, vivência, ação e comportamento passam por estes três tempos lógicos citados acima. Tudo que fazemos depende do nosso Instante de Ver e Experimentar uma determinada situação, para depois passarmos ao Tempo de Compreender esta determinada situação e elaborar o que experimentamos, para depois irmos ao Momento de Concluir, que é a decisão, reação e reposta frente ao que vi e elaborei. O grande problema é que na contemporaneidade nós passamos a eliminar o tempo de compreender e estamos curto-circuitando nosso aparelho Psíquico direto do Instante de Ver para o Momento de Concluir. Estamos cada dia mais eliminando o tempo de elaboração das coisas, o tempo de calcular as consequências, o tempo de pensar os efeitos, e passamos direto para a Conclusão! Não é à toa que estamos produzindo tantas agressões, tantos adoecimentos emocionais no corpo e tantas crianças com hiperatividade, ou seja, doenças e sintomas de uma sociedade que não mais possui o Tempo de Compreender tão necessário inclusive para sermos pessoas éticas e respeitosas com as leis e normas, cruciais para uma vida digna e saudável em sociedade.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Gratidão

Gratidão pode ser um estado de espírito ou até mesmo um sentimento.
A pessoa que sente gratidão ou se coloca aberta ao sentimento de gratidão, tem grandes chances de viver com mais paz consigo mesma e com os outros. Quanto mais gratos nos sentimos menos cobramos do outro e de nós mesmos. Este ponto aqui é o maior causador de conflitos interpessoais, ou seja, a cobrança além do que a pessoa pode dar. Idealizamos demais o outro à nossa volta, mas somos todos humanos e estamos todos no mesmo barco da evolução. Quanto mais grato eu estiver e idealizar menos quem convive comigo, menos frustrado permaneço.
A consequência mais positiva para quem consegue acessar o estado de gratidão é o viver de forma menos ansiosa, reduzindo também consideravelmente a possiblidade de desenvolver uma depressão, simplesmente porque a pessoa que está se sentindo grata considera que não há ninguém em dívida afetiva com ela, não cobra das pessoas nada além do que as pessoas conseguem dar. Sentir-se grato pelo que tem, pelo que já conquistou, pelas condições de vida na qual se encontra, gera uma liberdade da pressão de se sentir culpado e devedor consigo mesmo, logo terá mais energia para poder evoluir e conquistar; e menos tempo perderá projetando esta culpa e dívida nos outros. Com isso deixamos de achar que os culpados são os pais, o parceiro afetivo, o amigo, a professora, o chefe ou qualquer outro, e assumimos as rédeas do próprio destino.
Ter gratidão é assumir que o estado atual de sua vida e do seu entorno está exatamente do jeito que você construiu, buscou e plantou, e ninguém tem culpa disso.
Mesmo que alguém tenha lhe feito algum mal, o que você vai fazer com isso é responsabilidade sua, e a gratidão consigo mesmo por conseguir fazer algo positivo diante de uma experiência negativa é o que pode lhe dar uma vida mais digna, calma e sem as diversas neuroses doentias do cotidiano humano.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sexo / Sexualidade / Sexuação. O que está em jogo na nossa época hipermoderna?

A sexualidade é sempre traumática!
Para o ser humano, se posicionar frente ao mal estar sexual é um desafio desde a infância. Sofremos de falta de um instinto animal que dite as regras da nossa direção sexual. Para o humano, em sua constituição, não há necessariamente uma equivalência direta entre o sexo e a sexuação subjetiva de cada pessoa. Não há correspondência direta e exclusiva entre gênero biológico e a posição sexuada do humano, este animal civilizado e falante. A escolha sexual não é determinada exclusivamente pelo gene, mas muito pelas identificações inconscientes e pelas influências da hereditariedade (estilos, traços, modos de criação transmitidos pelas gerações nos chamados “complexos familiares”). Se antes, em outros tempos, a sexuação ou posição sexuada era abafada e restrita à dicotomia entre dois gêneros, hoje, na nossa hipermodernidade líquida, tudo é mais fluido e sem padrões estanques, ainda mais na esfera sexual.. A mudança de sexo, atualmente, está mais acessível àquela pessoa para quem a natureza de seu organismo não é compatível com sua verdade subjetiva. Para além da liberdade sexual, o que fica em jogo é o sujeito que, sem saber ao certo sua posição sexuada, fica à deriva, objetalizado no fluxo de uma lógica dita “moderna”, porém muitas vezes sem bordas e sem limites.
         Fomentados por um discurso científico de que tudo é possível, os seres contemporâneos se lançam cada dia mais nos procedimentos de readequação sexual, os chamados “Processos Transexualizadores”, que compreendem desde tratamentos hormonais às intervenções cirúrgicas. Sendo assim, a mudança de sexo, atualmente, está mais acessível àquela pessoa para quem a natureza de seu organismo não é compatível com sua verdade subjetiva (sua sexuação ou sua posição sexuada).
Vivemos uma era onde há uma fluidez generalizada, causando mudanças em vários setores da vida, e aqui podemos colocar de forma especial o campo da sexualidade, engendrando assim novas identidades, novas identificações e consequentemente novos modos de relacionamento.

A heterossexualidade, ou seja, a lógica da relação heterossexual encontra-se para muitos seres contemporâneos como algo ultrapassado e arcaico, chegando a existir certos movimentos de liberação sexual para além dos padrões estabelecidos pela moral social. Porém, para além da liberdade sexual o que está em jogo é o sujeito que, sem saber ao certo sua posição sexuada, permanece à deriva, objetalizado no fluxo de uma lógica dita “moderna”, porém muitas vezes sem bordas e sem limites.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Crise e desastre: interface entre o social e o subjetivo

Trago aqui um resumo de minha palestra, realizada na quarta-feira dia 02/12/15, em mais um evento no Hotel Tupyguá. Ocasião organizada por Maria Florêncio, que sabiamente trouxe convidados especiais implicados em pensar a condição humana e dispostos a uma reflexão crítica a respeito da tão falada “crise”, seja ela a crise social, seja ela a crise pessoal que cada um enfrenta em sua particularidade. Pude contar com uma participação ativa dos convidados em perguntas e pontuações perspicazes, dignas de pessoas atentas ao real. Segue abaixo o tema trabalhado no evento. Vou me restringir a escrever brevemente o que levantei como provocação a partir da Psicanálise.
            Qual é o estatuto das crises? A rigor, para a Psicanálise, toda crise é econômica! Seja ela do Estado ou de um indivíduo, o que coloca uma existência em crise é um problema econômico. E aqui não digo que economia, para a Psicanálise, se restrinja ao dinheiro, ao lado financeiro da coisa. O termo ‘econômico’ nos remete ao fator quantitativo e o quanto uma pessoa investe seu afeto, sua energia, sua pulsão de vida nas coisas que realmente vão lhe render frutos. E o quanto investir errado um afeto deixa um indivíduo em crise. No Estado, nos Governos, nas políticas ou na vida particular, o que traz uma crise é um desuso da matemática, é um descaso com o fator econômico, ou seja, é a negligência e boicote ao investir afeto, energia e pulsão onde você já sabia que não ia dar certo. Mas como saber que ali eu não terei um retorno interessante e irei me arruinar? Como evitar o problema econômico que me leva à crise? Pois bem, o que nos aponta uma crise e o que nos tira dela é o real! Basta ler o real! Assimilar o que real nos apresenta, pois as crises são sempre anunciadas. E quem nos anuncia é o real. Como dizia o psicanalista francês Jacques Lacan: “existe saber no real”. Há saber no real, e somente aqueles que conseguem ler este saber no real é que se posicionam de maneira interessante frente uma possível crise.
Um Estado ou uma pessoa só entra em crise, quando nega o saber no real. O real não falha, os fatos, os dados, os números, mostram, os resultados nos dizem algo, porém nós ignoramos, passamos adiante sem nada querer deste saber, e é exatamente assim que topamos com uma crise. Por rejeitarmos tanto o real, acabamos tendo que lidar com rompimentos de barragens, com o retorno daquilo que evitamos tratar e que apenas fomos guardando em um espaço onde não cabia mais tanto rejeito. O desastre da barragem na cidade de Mariana é uma metáfora do nosso funcionamento psíquico. O que aconteceu lá é similar ao que acontece dentro do psiquismo de cada pessoa. Rejeitamos aquilo que não queremos saber, evitamos ter que lidar com aquilo que o real nos mostra, e assim, nossas barragens vão se rompendo ao longo da vida. As dores crônicas, as enxaquecas, os cânceres, as gastrites, as somatizações diversas, não passam de sintomas sinais de que sua barragem está a ponto de estourar.
Freud nos afirmou certa vez que: “sofremos de reminiscências”. Ou seja, sofremos de lembranças. A memória nos faz sofrer. Do conteúdo memorizado, deste material guardado, o que não for tratado, retornará de forma avassaladora. O que você rejeita em si mesmo retorna por outras vias. Não que devamos querer saber de todo o lixo que rejeitamos; não que o ser-humano tenha que suportar todas as suas lembranças e resgatar da barragem o material tóxico intratável e assim suportá-lo a qualquer custo. Mas rejeitar tudo, sem um mínimo de esforço de tratamento é o que pode sobrecarregar a barragem e colocar o aparelho psíquico em colapso.
Em cada indivíduo, a barragem pessoal dá sinais de que algo não vai bem, pois o saber no real aponta e mostra. Insistir na negação desse saber no real é favorecer o desastre. É se colocar em risco.
Colar no real, saber ler o saber no real, fazer um bom uso da matemática na sua pulsão, não abusar das contas de seu afeto, não investir mal sua energia, aí sim podemos nos prevenir e sair de uma crise, na esfera particular ou na esfera pública.
A questão é prevenir-se de si mesmo, pois há um masoquismo estrutural que insiste em nos levar para a crise. O Ser humano precisa, no real, defender-se de sua própria pulsão de morte. E isso não tem como negar... Ou melhor, até tem, pois muitos vivem negando o real e pagam um alto preço por isso. Façamos as contas e decidamos em que estamos dispostos a pagar. Você é o parâmetro de si mesmo, portanto, sua própria solução. Basta ler o saber que existe no seu real.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Somos alegres ou felizes?

Recentemente, atendendo ao convite carinhoso para fazer uma pequena palestra no auditório do novo Hotel Tupyguá em Pedro Leopoldo-MG, em comemoração ao Dia da Secretária, pude trabalhar diversos temas da nossa era contemporânea. Resolvi publicar aqui um pouco da breve reflexão que pude levantar junto ao publico do tal evento.
Pois bem, vivemos em uma era na qual alguns estudiosos denominam de “hipermoderna”. E o que tais estudiosos, dentre eles, sociólogos, filósofos e psicanalistas, querem nos alertar é que estamos vivendo num estilo de vida onde tudo é “hiper”. Vivemos em uma hipermodernidade onde não existem mais o pequeno espaço particular, onde as coisas singelas estão perdendo sentido, onde as relações estão misturadas e sem sentido; onde também as imagens valem mais que as palavras, onde tudo é grandioso, imenso, rápido, acelerado, potente e cheio de informações. Ou seja, onde tudo é hiper! Porém quanto mais hiper nós somos, menos estruturados ficamos. O hiper te leva sempre ao olhar para fora, para o outro, e nunca para si mesmo. Ficamos mais alienados, mais objetalizados e mais desacreditados de nós mesmos. Tudo se resume ao quanto de “hiper” você consegue ter ou através de quantos “hiper” você pode ser medido e avaliado.
Além de hipermodernos, nós também nos tornamos seres líquidos. Não no sentido do líquido como a água, mas no sentido da liquidez e do tanto que estamos a cada dia liquidando tudo e a todos, e do quanto estamos nos liquidando como produtos e assim sendo liquidados. As relações se tornaram líquidas, efêmeras, dispensáveis, e nós seres humanos, estamos em liquidação!
Em meio a tanta hipermodernidade e a tanta liquidez, somos felizes?
Felicidade é um estado duradouro e constante, onde alguém sente-se bem mesmo com os problemas que possui. Felicidade não é euforia e está mais próximo de um sentimento estável e firme. Alegria é a euforia, a explosão, uma intensidade especial, porém fugaz, evanescente e que possui um pequeno tempo de existência. Teremos vários momentos de alegria, mas eles nunca durarão o bastante. Felicidade já é algo raro, pois é um estado a ser conquistado com muito amadurecimento. Alegria é momento, felicidade é um jeito de ser e de estar no mundo.
E então? Você é feliz? Ou você vive somente de alegrias?
E pensando aqui para além da vida particular, ampliando a provocação para nosso atual cenário no Brasil, será que somos um povo feliz? Muitos dizem que sim, inclusive os estrangeiros. Porém, em se tratando de Brasil, discordo plenamente e afirmo que somos um povo alegre, não feliz. Vivemos de pequenas alegrias, entra ano e sai ano, entra um político ou outro. Como nação, a meu ver, não experimentamos ainda a felicidade. Não temos isso estruturado, maduro e de forma contínua. Temos períodos de alegria, que logo acabam e assim voltamos a ser brasileiros. Voltamos a nossa crise cotidiana de país eternamente em desenvolvimento, não desenvolvido, não amadurecido.

A crise sempre esteve aqui, e a alegria também, pois caminham muito bem juntas. Felicidade é para poucos! A saída é cada um buscar a sua felicidade, e não viver somente de alegrias. Mesmo em um país que insiste em nos liquidar com pequenos momentos de alegrias, cada um precisa buscar sua estrutura firme, estável e cotidiana, apesar da crise. Amadurecer com e apesar dos problemas. Viver apesar das crises é ser maduro, e o amadurecimento é um caminho para a felicidade!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um problema típico dos casais... do ser-humano

Recentemente, em uma conversa com um casal amigo, surgiu a questão do porquê dos casais terem seu jeito particular de ser, de relacionar, tanto no modo como cada casal busca prazer como pelo modo como são marcados pelo desprazer, brigas e atribulações. Estas últimas, situações que aos olhos dos outros deveriam ser motivos de rompimento, término ou mudança. O que vemos na prática é que isso muitas vezes não muda, não causa um término e que o próprio casal se comporta de modo que o conflito se mantenha, mesmo sem terem consciência disso.
Como pode alguém querer viver assim dessa maneira?
A história de vida de cada um é permeada por vivências, ensinamentos, problemas e traumas que antes mesmo de nascermos estão prontos a serem passados de nossos ancestrais para nós. Nossos familiares nos transmitem uma soma de experiências, e essas se juntam àquelas situações que nós mesmos vamos presenciando desde a infância. Assim, formamos nossa personalidade e iniciamos certos padrões de comportamentos, repetições e imaginações que nem sempre nos trazem prazer.

Os casais se formam exatamente a partir das fantasias e marcas inconscientes que cada um possui e que em alguma medida se mostram favorecidas e instigadas pela fantasia do outro. Aqui cabem as expressões populares “um gambá cheira o outro” e “cada pé com seu chinelo”. Em um casal, os parceiros são os sintomas um do outro, são a dor e o prazer um do outro. Cada relacionamento satisfaz pontos particulares inconscientes de cada um, sejam pontos de sofrimento ou de prazer. Existem motivos fortes e nem sempre tão claros para isso... e nem sempre tão fáceis de serem abandonados.
Em relação às situações de sofrimento, somente quando um dos dois do casal decide não mais ficar tão entregue a esta carga inconsciente de comportamentos e de mal estar, que uma mudança pode ocorrer. Ou o(a) parceiro(a) revê também a sua postura, se retifica e se implica numa mudança ou o término provavelmente estará próximo.
Somos sim fruto de um meio, de uma criação, de cargas de nossas gerações passadas, mas diante disso temos nossas escolhas e decisões sobre o que queremos mudar. Antes mesmo de nascermos uma história já vinha sendo escrita e o que faremos com isso que nos foi dado é de responsabilidade de cada um. Cada um decide o que quer manter e repetir em um relacionamento. Ninguém é vítima de uma situação que se repete em sua própria vida e que conta com sua própria participação, por mais que muitos insistam em ocupar esse lugar de vítima.

Todo ser humano traz em si um traço masoquista e extrai prazer do sofrimento. Faça sua a responsabilidade por isso que em você se repete.

terça-feira, 11 de março de 2014

Sobre cada mulher

Em todo dia 8 de março é comemorado o dia internacional da mulher. Uma data para lembrar e marcar as lutas pelos direitos e melhores qualidades de vida das mulheres. Porém esta data traz um paradoxo, pois ao mesmo tempo em que comemora e enfatiza o valor das mulheres, contribui para aumentar a discriminação e preconceito, assim como nas entrelinhas das comemorações em torno do dia dos negros, do índio, da árvore, das crianças. Todos estes são os mais vitimados, desrespeitados, subjugados e descartados da sociedade. Há por trás desses dias comemorativos um reforço da ideia de que são seres inferiores e que precisam de uma data para amenizar os desrespeitos e agressões que a sociedade lhes impõe a cada dia. A árvore, o índio, a criança, as mulheres, os negros são realmente tratados como iguais pelos nobres homens de nossa sociedade? Ao instituirmos e legitimarmos um dia para lembrarmos das mulheres e de suas lutas ao longo da história, automaticamente reafirmamos a discriminação sobre elas e a tornarmos ainda mais objetalizadas.

As mulheres lutam a toda hora. As mulheres conquistam seu espaço a todo momento. Cada mulher busca vencer os diversos obstáculos todo dia... e o maior deles é o tornar-se mulher. Portanto, o dia internacional da mulher deveria ser todo dia. E por ser todo dia o dia das mulheres, deveríamos acabar com essa história de data determinada, pois uma mulher não pode ser marcada e reservada a comemorar sua luta somente no dia 8 de março.
A mulher não é um ser que possa ser generalizado e nem mesmo tratado de forma grupal, como por exemplo: ‘as mulheres’, ou ‘todas as mulheres’. Mas sim devemos tomar a mulher como única e uma a uma. O psicanalista francês Jacques Lacan em um de seus seminários chegou a afirmar que “A Mulher não existe”, ou seja, a mulher com “M” maiúsculo não existe, pois não há algo que unifique as mulheres em torno de um só significado ou sentido universal.
Freud, ao escrever sobre o enigma da feminilidade, lançou a pergunta: “O que quer uma mulher?” É possível fazer a pergunta: o que quer uma mulher? E não pergunta: o que querem as mulheres? Como se fosse possível tratar a todas como iguais. A resposta à pergunta, o que quer uma mulher, pode ser respondida somente se cada mulher for tomada uma a uma em sua particularidade e singularidade, pois cada uma tem seu jeito de ser mulher, o seu desejo e o seu querer.
Mulher não cabe em nenhuma palavra, não se encaixa em nenhum significado, uma mulher torna-se a cada dia de forma singular e não se restringe a uma data no ano.
Para finalizar, trago aqui a afirmação de uma mulher mineira em sua poesia:

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou
.” Adélia Prado.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ser professor(a): missão impossível



Em homenagem aos professores, reedito aqui o artigo que publiquei em 2011. Trata-se de uma reflexão sobre a árdua tarefa de ser um(a) professor(a).
Freud disse por duas vezes ao longo de sua obra que uma das profissões impossíveis existentes seria a do educador. Junto desta profissão, outras duas impossíveis seriam a do psicanalista e a do governante. O que há em comum em tais profissões que as fazem serem consideradas impossíveis? Ser professor(a), uma tarefa impossível, visto a impossibilidade de conseguir fazer alguém entender algo por completo. Ser psicanalista, um trabalho impossível frente à impossibilidade de fazer alguém se livrar de sua neurose por completo. Ser governante, uma profissão impossível diante da difícil tarefa de atender todos os anseios e diferentes desejos da população.
As escolas e o papel do educador foram ao longo dos tempos perdendo sua função exclusivamente científica, ou talvez nunca a exercessem de verdade, porque as famílias aprenderam a deixar nas mãos dos professores funções muitas vezes não exercidas em casa, ou seja, as de pai e mãe.

A modernização e a globalização do mundo fizeram os pais e mães correrem para o trabalho e negligenciarem em grande parte a condução dos filhos, seja nos estudos, seja nos modos de comportamento, seja no jeito de respeitar a vida em comunidade e os outros. O que fazer se o trabalho cada dia mais afasta os pais dos filhos? Muitos dirão: Mande-os para a escola! Quanto mais tempo por lá ficarem, melhor será. Portanto, para quem fica toda a carga de responsabilidade? Professor herói! Professora santa!
Mas os(as) professores(as) são tão fortes assim? Não há dúvidas de que nossos educadores estão sofrendo e adoecendo. Afinal de contas, pai e mãe muitos já são em casa e ainda têm que ser no local de trabalho. Os que não são pais e mães na vida real, não possuem obrigação nenhuma de passarem a ser.
Mas o problema também nasce de outro ponto. O professor é gente. Sofre, adoece, sente medo, possui fraquezas e sonhos. Porém, fomos acostumados a enxergar no educador uma figura forte e inabalável. Quando pequenos, admirávamos sua posição de sabedoria e conhecimento. Quando éramos adolescentes, desconfiávamos desta autoridade toda e exigíamos que nos dessem mais responsabilidade e liberdade. Porém quando adultos então “responsáveis” e “livres”, entregamos novamente a eles as nossas responsabilidades como pais, e voltamos a depender deles. No entanto não os admiramos mais, e sim os cobramos, exigimos e reclamamos como se fossem obrigados a cuidar de nossos filhos e de nós mesmos indiretamente.
O que percebo nessas mães reclamonas e nesses pais brigões de porta de escola é um pedido de ajuda. Uma forma indireta de dizer que as coisas não andam nada bem em casa. A culpa diante do problema do filho é esvaziada ao colocar o problema como consequência da incapacidade do professor que não foi bom o bastante. Coitado(a) dos(as) professores(as), viraram psicanalistas também. Só faltam serem governantes. Isso é um trabalho para a Santa Professorinha ou para o Super-Professor-herói!

domingo, 13 de outubro de 2013

Um ato produz mais efeito do que muitas palavras

"Quando verão que o que prefiro é um discurso sem palavras?"
Jacques Lacan - 1968
Conclusão de 'Alocução sobre as psicoses da criança'. In "Outros Escritos"

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entrevista ao Jornal Observador para o Dia dos Pais

Pais protetores
Nenhum pai deseja perigo para seus filhos. Porém o risco de proteger excessivamente pode se transformar numa dificuldade para ambos os lados, ocasionando falta de compreensão e atrapalhando o desenvolvimento das crianças. O OBSERVADOR conversou com o psicanalista Thales Siqueira de Carvalho

A criança, junto com seu pai, coberta de roupas da cabeça aos pés, vai fazer uma pequena visita a seus avós. Durante o percurso, a viagem é paralisada de quinze em quinze minutos, para que o pai verifique se seu garotinho está limpo, como faz sempre. Chegando à casa dos avós, não permite que a criança engatinhe no chão. Brincar somente no tapete, também não.
Satisfeito, o pai acha que, cuidando desta maneira, está fazendo com que seu pimpolho fique longe de todas as ameaças. A verdade é que, quanto mais zelo tem, mais receio de que o perigo possa acontecer. Dessa forma, pai e filho vão se acostumando e, sem notar, os responsáveis passam a proteger demais seus filhos deixando-os isolados. E se seguirem com isso, futuramente, o seu filho terá de conviver com crianças, mas sem nenhuma preparação para encarar o mundo.
Entre obrigação natural de dar proteção às crianças e os exageros da proteção, vários pais têm dificuldades em colocar seus próprios limites. Aos poucos, o que era comum, como não deixar que a criança fique brincando na areia do parque onde muitos gatos e cachorros passam, se torna uma ação radical de nem levar o filho ao chão.
Assim, até chegar à adolescência e mesmo quando adulto, os pais colocam uma difícil relação com seus filhos, que ocasiona incompreensão dos dois lados e atrapalha a autoconfiança dos pequenos. “Meus pais sempre retiraram as dificuldades que poderiam surgir para mim e me facilitavam as coisas. O interessante é que faziam isto para fazer cobrança depois. Eu compreendo a intenção deles, que é boa, mas isso atualmente me traz sequelas horrorosas. Não consigo lutar sozinho pelas coisas e correr atrás das minhas metas. Fui muito mimado”. Relata um jovem profissional liberal.
Este é um comportamento dos pais que dão muita proteção aos filhos. O objetivo, como disse o jovem, é ajudar só que, terminam criando uma relação de dependência e dificuldade para se desenvolver. O psicanalista Thales Siqueira de Carvalho, é Especialista em Teoria Psicanalítica e Mestre em Investigações Clínicas Psicanalíticas. Há 8 anos atende em seu consultório em Pedro Leopoldo-MG e Belo Horizonte-MG. Ele comenta a realidade de superproteção que se referiu o jovem:  “Na verdade, a superproteção de um pai ou de uma mãe revela a insegurança dos pais e não do filho. Quando um comportamento ou estilo de vida é perpetuado pelas gerações, os filhos tendem a repetir os pais no futuro. No caso, provavelmente, esse jeito do pai para com o filho têm suas raízes na maneira como este pai foi criado em sua infância. Não é por acaso que se comporta assim com o filho e os motivos disso podem ser tratados em análise, para que um destino menos angustiante seja dado a esse conflito”.
Muitos pais abdicam totalmente da proteção. Esta seria uma boa conduta para deixar que a criança caminhe com suas próprias pernas?  Thales responde: “proteção demais ou a ausência total dela dá na mesma, ou seja, em ambas as situações o filho crescerá de forma insegura e sem conseguir lidar sozinho com os desafios da vida. É fundamental que o filho sinta que pode contar com os pais, mas um poder contar quando precisar e não o tempo todo e de forma esmagadora. Exercer a função paterna é muitas vezes fazer uma presença pontual e não sufocante. É preciso saber que há um tempo para o filho deixar aberturas para que os pais entrem, pois também vai querer se virar sozinho em determinados momentos”.
O que se observa é que em diversos momentos, é mais fácil interferir para solucionar um problema do que deixar que o filho o avalie e mostre suas condições de resolvê-lo. Como esta atitude pode interferir na formação da personalidade da criança? “a personalidade se forma ao longo dos primeiros anos de vida, e uma criança crescer em um meio em que os pais resolvam tudo por ela acaba gerando um funcionamento psíquico de dependência extrema, de modo que a criança, no futuro vá repetir ocasiões em que isso novamente venha à tona, ou seja, provavelmente vai buscar se colocar em situações em que precise sempre de alguém para resolver as coisas por ela, seja no trabalho, escola e relacionamentos amorosos. Nós passamos a vida repetindo inconscientemente uma tentativa de revivermos aquelas relações afetivas infantis para com os pais, mesmo que desprazerosas e causadoras de angústia”.
É fundamental para os pais descobrir que a forma de levar a vida é baseada no equilíbrio entre colocar as mãos e regressar, para deixar que as crianças conduzam realmente as suas vidas. Sem isto, não terá valor a importância de decidir, de reconhecer suas possibilidades e também seus limites. Ajudar os filhos a crescer: esta é uma prova de amor realmente. Thales ainda complementa: “É preciso alguém para realizar a função paterna, não o tempo todo, mas de forma consistente no tempo que for preciso. Ser pai e mãe é inclusive saber se fazer faltar para o filho. Pois é a partir da falta que um filho se movimenta e cresce, mas isso não pode ser uma falta completa, pois aí teríamos a devastação”.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

A tal “alma gêmea” existe?

De onde vem essa expressão?
   Vem da mitologia grega tentando explicar o porquê de sermos seres entregues à paixão. E especificamente na obra “O Banquete” de Platão, encontramos um discurso sobre o nascimento da ideia de alma gêmea. Trata-se de um castigo dos Deuses que ao perceberem os humanos completos em si mesmos, autossuficientes afetivamente por serem andrógenos (homem e mulher no mesmo corpo), promoveram uma cisão/separação ao meio, condenando a raça humana a procurar eternamente essa outra metade separada.
         Carregamos esse ímpeto de busca pela alma gêmea, pela cara-metade perdida, e que acreditamos nos completar.
        Só vivemos dignamente quando temos paixão, desejo e graça com a vida. É fundamental amar para que possamos suportar as árduas situações que a vida nos impõe no cotidiano. Porém, em um relacionamento, quando depositamos ali toda a felicidade de forma idealizada, de certa forma, depositamos o destino de nosso futuro nas mãos de um Outro, que por ser também um imperfeito humano, está passível de fracasso e desacerto. Isto é, nosso tão sonhado futuro ideal nunca será alcançado.
Relacionar e viver a dois deve ser algo que preserve espaço para a falta e para a renovação, caso contrário a decepção pode ser esmagadora e paralisante. Para haver desejo é preciso haver falta. O próprio nome já diz: “viver a dois” e não “viver a um”, em função de um, já que um afeto quando é unilateral só provoca alienação. Amar é trocar sentimentos, pois, mesmo que sejam desproporcionais e desiguais é possível haver afinidades. É na diferença que um casal se mantém, afinal de contas, amar alguém e ser amado por este alguém é sempre um encontro desencontrado ou desencontro encontrado.

A “alma gêmea”, de gêmea ela não tem quase nada, mas o pouco que tem já basta para iniciar um laço... e não um nó.

"Amar é dar o que não se tem" Jacques Lacan

Aproveitando a proximidade com o Dia dos Namorados, comemorado pelos brasileiros no dia 12 de junho, o ParPerfeito(www.parperfeito.com.br), maior site de relacionamento do Brasil, realizou uma pesquisa com 2.500 usuários para descobrir quais atitudes podem determinar o fim de um relacionamento. E, por incrível que pareça, a falta de romantismo foi determinante para que 40% dos homens entrevistados colocassem um ponto final em alguma relação que já tiveram. Parece que eles estão mais românticos do que imaginávamos. No ranking geral, os maus hábitos, como fumar e beber, aparecem em segundo lugar com 23% dos votos. O interesse por outra pessoa vem logo em seguida, com 19% das escolhas.
Ao questionar as mulheres sobre o mesmo assunto, a pesquisa do ParPerfeito mostrou que elas têm a mesma opinião que o público masculino. Para a mulherada a falta de romantismo também vem em primeiro lugar, com 50% dos votos, maus hábitos em segundo, com 31% das escolhas, e interesse em outra pessoa em terceiro, com 13% das respostas. Confira abaixo o resultado completo da pesquisa.


HOMENS
O que já te fez terminar um relacionamento sério?
Falta de romantismo 40%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 23%
Interesse por outra pessoa 19%
Não se dar bem com a família do parceiro 17%
Ganhar um presente ruim 1%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013

MULHERES
O que já te fez terminar um relacionamento?
Falta de romantismo 50%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 31%
Interesse por outra pessoa 13%
Não se dar bem com a família do parceiro 6%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013

Li a pesquisa e pude concluir que trata-se de uma queixa corriqueira da vida cotidiana. Ou seja, estamos diante da insatisfação que o ser humano tem com qualquer um que seja o seu parceiro amoroso.
Idealizamos demais o outro e queremos que ele nos supra de todas as formas. Essa é uma tentativa frustrada, pois ao depositarmos a ilusão de completude no outro estamos fadado ao desapontamento.
Quando gostamos de alguém depositamos todo nosso narcisismo insatisfeito nessa pessoa, e demandamos que essa pessoa preencha nossos furos e faltas.
Amar não é viver completo, mas saber viver com a falta, já que ninguém irá nos tirar desse desamparo estrutural que temos e que nunca curaremos. Podemos sim aprender a viver com esse desamparo eterno, sem que isso seja um problema, mas tornando-se uma causa de vida e de amor. Porém, um amor que respeite as diferenças e desacertos, já que conforme Jacques Lacan "amar é dar o que não se tem".

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma conclusão sobre a causa do terrorismo


O terrorismo vem se mostrando cada dia mais presente em nossa sociedade. Em diversos graus e de diversas formas, atentados consumados e ameaças violentas estão cada vez mais banalizadas em nosso cotidiano. Recentemente fomos surpreendidos com mais um ato terrorista nos EUA, especificamente na maratona de Boston. Os responsabilizados pelo ato são dois irmãos de 19 e 26 anos, religiosos islâmicos radicais que defendiam a luta pela independência da Chechênia, república que hoje faz parte da Federação Russa.
Não somente neste caso específico, mas em qualquer ato que esteja motivado por religião, causa política ou étnica, tem como pano de fundo um narcisismo doentio, que fazem os indivíduos terroristas considerarem qualquer diferença ou alteridade como algo insuportável e digno de ser eliminado. A causa do terrorismo é um narcisismo desmedido e sem limite!
Provavelmente os irmãos chechenos estariam em uma identificação narcísica sob um ideal acreditado como inabalável e acima de qualquer impedimento. Fato que pode os ter feito tomar a atitude radical do atentado, em nome de um objetivo idealizado, inquestionável e supremo.
Os seres humanos, quando identificados com um objetivo comum, são capazes de realizar atos extremos em nome de uma identidade grupal, ideal político ou por conta de uma alienação à figura de um líder. Toda manifestação agressiva contra algum grupo, população ou pessoa específica, passa por uma causa imaginária em torno de alguma idealização narcísica, que, por algum motivo, ficou abalada ou ameaçada. A violência é uma reação defensiva para que o buraco no narcisismo daquele que se sentiu ferido seja remediado. Um exemplo clássico e trágico disso foi o nazismo, que, a propósito, tem homofonia com a palavra narcisismo.
Temos um imenso desafio atualmente: pedem-nos paz e respeito ao próximo, mas estamos cada vez mais narcísicos e menos tolerantes com a diferença. Todos nós, de alguma forma, violentamos o outro que é diferente de nós, sejam com palavras ou atos. Quem nunca se sentiu incomodado diante daquele que lhe é diferente e assim reagiu com algum comentário ou um mínimo pensamento discriminador? O problema é que a intolerância de muitos acaba gerando reações extremas e doentias, que saem do nível do pensamento e chegam ao nível do ato. Portanto, qual será o nosso destino? Seremos um bando de narcísicos terroristas, cada um na sua bolha, destruindo uns aos outros em nome daquele ideal que acreditamos ser melhor que o do vizinho?
Há uma grande diferença entre um comentário e uma reação violenta, assim como há diferença entre sentir repulsa e passar ao ato. Porém todos nós somos narcísicos, cada um na sua medida, e não suportamos aquele que não nos é semelhante. Já dizia Caetano Veloso na música 'Sampa': “quando eu te encontrei frente a frente não vi o meu rosto. Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho”.

Fobia


Um dos grandes sintomas psíquicos que encontramos nos seres humanos é a tão famosa “fobia”, seja ela de qual objeto ou coisa for. Os fóbicos sofrem muito com isso, e sem mesmo terem consciência do porquê de tal comportamento, sentem a pressão e o peso da fobia como algo devastador. Não se trata de um medo simples, mas algo intenso e sem controle. Diferentemente do medo simples (que é vital e funcional para nossa vida, fazendo protegermo-nos e evitarmos problemas), a fobia traz muitas limitações e danos sociais para aquele que a sente.
Mas o que é uma fobia? Por que alguém chega a se comportar assim? De onde vem esse horror intenso diante de alguma coisa, a princípio tão simples? Impossível conversarmos sobre isso em apenas um artigo, mas podemos fazer aqui uma reflexão importante.
Não há como falarmos da fobia se não colocarmos em pauta a questão do inconsciente e da presença de um sistema inconsciente funcionando em nós, alheio à nossa vontade consciente. Um inconsciente que dita a nossa forma de comportamento no mundo, independente da nossa parte racional.
A fobia, seja ela um medo intenso de algum animal, fato, situação ou até mesmo a fobia social, têm suas raízes em questões inconscientes mal elaboradas e que solicitam expressão e descarga pulsional, mesmo que por vias tortas e drásticas como nessas manifestações de medo intenso e horror.
O medo extremo, o horror incontrolável diante de alguma coisa pode ser a descarga indireta de um conflito inconsciente que provavelmente venha de uma experiência que gerou grande carga psíquica.
Temos nossas defesas, nossas saídas, nossas válvulas de escape... Enfim, nossos sintomas pelos quais a pulsão encontra formas de descarga. Sintomas forjados inconscientemente, e que exigem de nós, muita energia e desgaste para serem contornados, assim como no momento de tratá-los. Ou seja, esvaziar uma fobia, exige empenho e paciência, pois não se vai à raiz inconsciente de um problema de maneira rápida e nem mesmo em um clique, da forma como estamos acostumados a fazer com tudo nessa vida hipermoderna que levamos.
Quando se trata de um ser humano, o tempo é outro!
Quando se trata de inconsciente, a lógica é outra!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Desejo decidido


Há uma grande diferença entre desejar e ter um desejo decidido. Podemos passar uma vida inteira sonhando com as coisas que gostaríamos de realizar e assim vivermos na via do desejo insatisfeito ou impossível de concretizar. Isso é o pior!
O ser humano comete um grande erro ao manter o seu desejo como algo distante e inatingível, muito em função da ocupação com a realização do desejo dos outros. Há certa satisfação na dor da não conquista, do insucesso, e assim, muitos ficam parados nesse “eu desejo” e não se movimentam no “eu realizo”. Tem sempre algum ponto condensado ou alguma coisa pela qual nós nos deixamos ficar apenas no estado do “desejar”. É como se a cada corrida ficássemos na linha de largada imaginando o quanto seria bom o percurso até a linha de chegada. Chegar é preciso, e a graça da vida não está somente na chegada, mas no percurso que traçamos até lá. João Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” já nos alertou: “O real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
O desejo decidido é aquele que realizamos sem medo e sem necessidade de garantias e certezas. Realizamos porque queremos. É o que nos tira da inércia da insatisfação e nos coloca a dar um passo a mais na vida... fazer girar o moinho que vivia estagnado na ideia de quem sabe um dia algo fosse fazê-lo girar.
Desejar é fundamental para seguirmos com a vida adiante, mas ficar no desejo em estado imaginário, sem concluí-lo, é um engano. Cada um tem seu tempo e seu modo de lidar com o desejo, um tempo particular pelo qual não podemos nos deixar levar sem uma responsabilização, afinal de contas, este tempo da decisão é cada um quem o faz, produzindo o efeito de solavanco que nos tira da angústia da estagnação. É o solavanco que somente cada um pode operar em sua vida, de modo que a decisão de hoje promova aberturas para novas decisões futuras.
Se há algo que o desejo nos ensina é que por ele não se pode passar sem a coragem de realizá-lo. É preciso rigor para fazer, do desejo, algo decidido. Um rigor de conclusão, ou então ficamos na imaginação estéril e paralisante. Aqui mora a diferença radical entre o desejar infinito e o desejo concluído.
No próximo artigo falarei sobre “fobia”. Até lá!

quarta-feira, 6 de março de 2013

Religião ou ciência? Por onde seguir?


A renúncia do Papa no Vaticano trouxe uma série de dúvidas e discussões em torno da questão da religião e do papel dela no cotidiano das pessoas. As consequências de cada fato dependem de como o encaramos. O Papa renunciar, para uns é o fim, é a perda da direção, um motivo de desespero. Já para outros, pode ser um recomeço, uma renovação, uma nova etapa, assim como cada coisa da vida que nos exige adaptação e movimento.
Por mais que o Papa tenha alegado problemas de saúde, justificando assim sua renúncia, acredito que os motivos foram outros. Há uma grande diferença entre o catolicismo e o Vaticano como estado de poder financeiro. Não foi o primeiro Papa a renunciar... e a história mostra que aqueles que tentaram conter o espírito financista e mercantil dos mandantes do Vaticano acabaram sofrendo consequências cruéis. O poder do Vaticano não perdoa ninguém, nem mesmo os Papas, e sábios foram aqueles que souberam se retirar no momento certo.
Mas, enfim... voltemos ao que nos interessa aqui hoje!
Vivemos em um tempo em que a religião perdeu espaço para a ciência. Os fatos e vivências que antes eram justificados pelas diversas religiões, hoje são explicados minunciosamente pela ciência. Grande parte da fé e crença que as pessoas tinham nos papas, pastores e líderes espirituais, agora se encontra sob as conclusões das pesquisas científicas. O discurso científico tem arrebanhado fiéis de todos os tipos e classes, tornando-se assim, a meu ver, a grande religião de nossa época. Estamos crentes na ciência e é ela quem nos dita quais caminhos seguir.
Independente das respostas que cada uma nos fornece, seja a religião ou a ciência, em nossa época as pessoas estão vazias de ideais e sem direção de vida. Por isso, cada resposta científica e cada mandamento religioso são levados a ferro e fogo como a única coisa a ser seguida. É preciso relativizar o que o Outro nos manda seguir e ser. Esse grande Outro com “O” maiúsculo, ditando suas regras, se não questionado ou esvaziado, pode acabar se tornando um problema, ao invés de ajuda na busca de solução.
Há quem consiga conciliar ciência e religião, mas há também quem fique cego pela ciência ou pela religião. Fato é que tudo nessa vida exige uma dose de crença. Cada consulta médica, cada projeto de vida, cada sonho a ser realizado, cada orientação dada pelo padre, pastor, mestre, professor ou cada receita médica, precisa de nossa crença, ou então nenhum efeito terá sobre nós. Por outro lado, nossa vida se torna alienada quando somente acreditamos e não realizamos, ou também quando esperamos que o Outro realize por nós sem nos implicarmos em uma busca própria. Estamos acostumados a deixar nosso destino na mão deste grande Outro, e exigimos que ele não falhe.
Religião ou ciência? Qual delas seguir? Siga naquilo que te faz bem e torne-se o construtor de seu próprio destino! Mas relativize e questione o que está escrito aqui, para que isso não se torne também um grande Outro.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Descontrole pulsional no carnaval


Para vivermos em sociedade, respeitando uns aos outros, são necessários que façamos alguns sacrifícios. Além disso, somos pressionados a abrir mão de satisfazermos vontades em função dos outros e da comunidade. Nossa civilização é baseada na ideia de que para convivermos uns com os outros em harmonia é fundamental que cada um reprima seus impulsos e desejos que se mostram incompatíveis com a moral. Porém, esses impulsos, que na psicanálise recebem o nome de pulsão de vida e pulsão de morte, nunca serão totalmente domados ou civilizados, restando sempre uma parcela insatisfeita exigindo ser descarregada, e que nem mesmo toda a moral reguladora é capaz de conter.
Sofremos com o fato de não podermos realizar toda a pulsão, porque ela é por si só irrealizável por completo, e também porque não podemos fazer tudo que queremos da forma como queremos sem levar em conta o direito dos outros. Mas o que fazer com toda essa energia insatisfeita? Muitos descarregam nas artes, nos esportes, no trabalho... formas substitutas de satisfazermos nossa pulsão, mesmo que de forma indireta e sublimada.
Por outro lado, muitos se aproveitam do carnaval para dar escoamento a essa contenção pulsional acumulada ao longo da vida cotidiana. Assim, o carnaval acaba se tornando um período em que as pessoas aproveitam para realizar coisas que no dia a dia comum não podem ou não têm coragem de fazer. Há uma espécie de aceitação de que a vida é árdua demais, e que, no carnaval, temos uma liberdade momentânea para esquecermos a civilização e realizarmos todos os desejos reprimidos: beber demais, comer além da conta, realizar desejos sexuais, cometer atos transgressores, bater, matar e, em alguns casos até morrer, já que a pulsão de morte também pede seu espaço, e em pequenos atos vai dando mostras de seu potencial.
Em 1930, Freud, em seu texto “O Mal-estar na civilização”, nos alerta para um impasse, um mal-estar que vem do fato de um lado termos as pulsões internas exigindo satisfação e de outro a civilização nos impondo regras e impedimentos. A pulsão, quando negligenciada, retorna de forma mais contundente, mas o que fazer se ao mesmo tempo não podemos fazer tudo que queremos?
Cada um descobrirá sua forma de lidar com suas pulsões, de modo que não fiquem tão acumuladas e não caminhem para atos exagerados. Os pequenos prazeres de cada dia e as pequenas satisfações substitutas podem amenizar este mal estar da insatisfação. Nunca estaremos satisfeitos por completo e sempre carregaremos o sentimento de não-estar-bem na vida civilizada, porém, pequenas permissões de prazeres podem nos poupar de grandes tragédias. É preciso que cada um construa um saber fazer com a própria pulsão.
O carnaval tem se tornado um período de grande descarga pulsional, entretanto, isso não garante que a pessoa vá se sentir livre da pressão da pulsão e da moral civilizada. A pulsão será sempre insatisfeita, e moral sempre implacável. Aqui reside a diferença entre pessoas que fazem dessa insatisfação uma causa de novas buscas e novos prazeres, e aquelas outras que no carnaval chegam com o lema “Prazer a qualquer custo!” ou “É matar ou morrer!”.