Desde os primórdios da evolução da nossa espécie, o ser-humano por necessidade de sobrevivência, desenvolveu a habilidade de fabricar utensílios, ferramentas, artifícios e moradas que o possibilitasse sobreviver, vencer as dificuldades da natureza e perpetuar a espécie. O trabalho existe no nosso DNA e esteve conosco desde nossa tomada de consciência como Homo Sapiens. O pensar e o agir são características fundamentais da nossa espécie, que então é considerada Homo Sapiens e Homo Faber, respectivamente, Humano que Pensa e Humano que Fabrica. O trabalho representa nossa sobrevivência, representa nossa tomada de consciência e atitude para realizarmos coisas que nos possibilitem continuarmos vivos como espécie. Com o passar da evolução e tecnologia, trabalhos de outros humanos acabaram nos deixando mais confortáveis e menos ambiciosos, já que muito já foi feito, realizado, pensado e construído. Atualmente, o ser humano não se sente somente tão obrigado a trabalhar para perpetuar a espécie e sobreviver, mas muito mais para consumir e ter objetos e bens. A lógica do Homo Faber, na contemporaneidade, não é mais a mesma de antes, pois trabalha-se muito mais para ter dinheiro do que para se sentir realizado em uma função profissional. Estão cada dia mais raros os seres humanos que trabalham com o que gostam, possuem paixão e dom. Por que? Porque nossas crianças crescem aprendendo a lutar somente pelo ter e não pelo ser. O ter não é um problema, mas se torna adoecedor quando não está em conjunto com um propósito pessoal de realização subjetiva. Não é a toa que vemos diversos jovens se formando em profissões por conta do salário e não porque possuem aptidão, gosto e satisfação com aquela tal profissão. E nessas horas as expectativas dos pais e da família podem ser esmagadoras, reprimindo nos filhos anseios pessoais que ficam ofuscados em nome da busca pelo salário. Volto a dizer: ter dinheiro não precisa ser um problema e todos nós temos direito de sermos prósperos financeiramente, mas quando a busca cega pelo dinheiro esmaga a subjetividade e os sonhos pessoais, a chance de você ser uma pessoa com dinheiro mas adoecida emocionalmente se torna bastante alta. E o adoecimento emocional necessariamente adoece o corpo. Logo, se você não respeitar seus desejos particulares e seu propósito de satisfação pessoal no trabalho, a chance de você ser uma pessoa rica, porém sem saúde é quase certa.Sendo assim, é importante que cada um identifique sintomas que podem dar sinais de insatisfação com o trabalho, como irritabilidade, humor rebaixado, rompantes agressivos, pressão alta, ansiedade, pensamento acelerado, alto consumo de álcool, drogas ou abuso de alimentos, principalmente frituras e doces (mecanismo de compensação, que pelo sabor e prazer substituem frustrações de outro setor da vida). Quando estivermos insatisfeitos no trabalho, podemos readequar a rotina, mudar logísticas de funcionamento, ou até mesmo rever se realmente estamos trabalhando com o coração ou só com a mente. Ou seja, você trabalha por realização pessoal ou por realização bancária? Vale lembrar que é possível realizar as duas coisas ao mesmo tempo, isto é, trabalhar com o que gosta e ser próspero financeiramente, já que quando estamos no nosso propósito do coração e realizando aquilo que nos dá emoção, o dinheiro fluirá com naturalidade e estaremos cuidando automaticamente da nossa saúde biopsicossocial. A vida só pode ser plenamente vivida quando o consumo está sob nossa gestão e a nosso favor e não quando somos escravos dele. Ou seja, é o dinheiro quem tem que estar para nós e não nós para ele. O dinheiro precisa ser uma ferramenta em que o humano possa usar e não um senhor do qual o ser humano se torna objeto. Dinheiro sim traz felicidade, mas somente se a pessoa é dona do próprio destino. Dinheiro não traz felicidade quando o dinheiro é o único destino da vida da pessoa. A escolha é de cada um, e as consequências também.
Espaço destinado ao compartilhamento dos artigos e escritos, que já foram publicados nos Jornais Observador e Folha de Pedro Leopoldo, entre outros espaços de publicação e comunicação. Trago também contribuições a partir de minha experiência clínica, estudos, discussões e formulações com pessoas interessadas no real da vida.
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
domingo, 16 de julho de 2017
terça-feira, 2 de maio de 2017
A subjetividade é terreno inviolável: reflexão em tempos de intolerância política
Recentemente
fui perguntado sobre o que a Psicanálise teria a dizer quanto a um episódio de
repúdio por parte de um adulto frente à posição política momentânea de um
adolescente. Posição política esta do adolescente, incompatível com a posição
subjetiva deste adulto.
O
que a Psicanálise pode dizer e esclarecer é que uma posição política ou uma
escolha ideológica é uma das formas de expressão da subjetividade,
principalmente de um adolescente, em transição, em plena metamorfose pessoal e
em formação de presença singular no mundo. Ou seja, estamos no campo da esfera
íntima e particular. Estamos no campo da liberdade de o sujeito decidir ser
quem quiser, da forma como quiser e compartilhar dos pensamentos que no momento
lhe fizerem ter uma identidade. Se esta postura transcender a ordem pública ou
invadir o direito alheio, então temos os aparelhos de poder do Estado para
mediarem, conterem e se for o caso, até mesmo punirem.
Interpelar
a subjetividade de um ser humano sem o direito formal instituído para tal dever
social é invadir um terreno sensível, e no caso de um adolescente em plena
formação de personalidade é invadir um terreno frágil. Os efeitos de tal
desrespeito podem ser graves, a depender do nível de estruturação ao qual o adolescente
já esteja desenvolvido e do nível de suporte familiar que possui.
Nunca devemos nos esquecer que a adolescência é tempo de
turbulência, metamorfoses e mudanças. Uma postura política, ideológica ou
pensamento de um adolescente pode logo a frente mudar-se, visto que o sujeito
adolescente está em plena experimentação, em plena construção, e qualquer
intervenção irresponsável frente a este sujeito pode lhe trazer prejuízos
psíquicos importantes.
Atualmente, temos atravessados tempos difíceis de
intolerância e narcisismo, onde as pessoas acreditam serem melhores ou terem
posturas mais maduras do que outras e devido a isto se sentem no direito de
atacar, julgar e punir. O cenário político brasileiro e mundial têm dado
mostras deste narcisismo egoísta que agride tudo e todos que não lhe parecem
iguais. A diferença virou motivo de agressão! Cito Caetano Veloso na música
‘Sampa’ “é que narciso acha feio o que não é espelho”.
Cada
um precisa cuidar de si, pois o julgamento nada mais é do que a imperfeição
própria sendo projetada especularmente no próximo. Quanto mais eu julgo mais eu
dou a prova de que eu estou mal resolvido comigo mesmo. A projeção é um
mecanismo psíquico em que coloco no outro uma agressividade que eu mesmo tenho
contra minha própria pessoa. Porém, os outros não têm nada a ver com isso e não
precisam pagar um preço pela minha imaturidade e falta de inteligência
emocional. A perfeição não está comigo, nem com você, nem com adulto, nem mesmo
com o adolescente. Já diziam as pessoas mais espiritualizadas: A perfeição não é deste mundo!
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Inteligência Emocional: estar bem consigo mesmo
Seguem aqui as respostas que produzi frente às perguntas do Sr. Samuel Tadeu, Editor-chefe do Jornal Observador de Pedro Leopoldo-MG, a respeito do tema "Sentir-se bem consigo mesmo", algo que eu mesmo entendi como relacionado ao campo da "Inteligência Emocional".
1- O que significa estar bem consigo mesmo?
1- O que significa estar bem consigo mesmo?
Principalmente ter desenvolvido a inteligência emocional suficiente para ser autorresponsável por todo o destino de sua vida e por tudo que lhe ocorre, juntamente com o sentimento de gratidão por tudo que enfrentou, conquistou e desenvolveu, ou seja, grato consigo mesmo pela luta pessoal do cotidiano, pelas conquistas, pelas vitórias, pelas derrotas e erros com os quais pode aprender e evoluir. Além disso, para a pessoa se sentir bem consigo mesma uma das condições primordiais é a de não se sentir vitimada, pois a posição vitimada produz rancor, desgosto e baixa autoestima. O vitimado nunca estará bem consigo mesmo, já que estar numa condição de vítima é dizer para si mesmo e para o mundo que ela não é boa o suficiente e não merece se sentir capaz. A vítima é a personificação da derrota; e se a pessoa se sente derrotada como poderá ficar bem? Impossível.
2- O que leva a pessoa a não estar bem com ela mesma?
Sensação de não merecimento, culpa, ingratidão e baixa autoestima. Tudo isto somado à posição vitimada é o que leva uma pessoa a fechar as portas da possibilidade de se sentir bem consigo mesma. A pessoa que não se respeita, não se trata bem, não se perdoa, não se ama, e sente que não merece viver bem, automaticamente sem pensar e sem ter consciência disso irá tomar decisões e atitudes que o levarão ao pior. Portanto, inconscientemente a pessoa que não se sente bem consigo mesma busca se punir, se adoecer e se fazer mal, numa espécie de masoquismo velado e bem disfarçado em uma posição de vítima dos outros e do mundo.
(Perguntas 3, 4 e 5 juntas em uma só resposta)
3- Qual a importância de ter ao nosso lado a presença de outras pessoas? 4- Por que a presença do outro às vezes nos incomoda tanto? 5- Seria este o motivo relacionado ao isolamento de muitas pessoas?
O ser-humano é ao mesmo tempo um ser social e avesso ao seu semelhante. Carregamos internamente esta divisão e conflito de ao mesmo tempo que queremos contato, nós temos uma aversão ao que os outros causam e despertam. A presença do outro em nossas vidas é a fonte de onde mais recebemos feedback e retorno de como somos, como estamos e o que sentimos. Somente no convívio com o outro que eu me torno um sujeito melhor comigo mesmo e evoluo. Porém é importante ressaltar que não são os outros que me dizem quem sou, mas é pelo convívio com o outros que eu mesmo me descubro quem eu sou. Sozinho isso seria impossível, pois ninguém acessa a si mesmo se não for pelas experiências que colhe fora.
A presença do outro às vezes incomoda somente quando eu encontro no outro algum traço de minha personalidade, característica ou jeito que eu mesmo possuo e não suporto ou não gosto. Nosso aparelho psíquico funciona muito pela via do mecanismo da Projeção Inconsciente, e quando eu encontro no outro a semelhança de algo em mim que não gosto ou que eu não mais gostaria de ter, eu projeto inconscientemente minha raiva, frustração e revolta. O ser humano não gosta no outro exatamente aquilo que internamente em si próprio não está dando conta. Para que os outros passem a te incomodar menos olhe para si mesmo e descubra o que esta relação específica está despertando em si mesmo. Ao se tratar e ao se livrar de suas neuroses e traços de personalidades disfuncionais, você automaticamente passará a não se incomodar tanto com alguns outros à sua volta. A coisa é inconsciente e é séria! A pessoa que se isola não está afim de se encarar, não consegue pagar o preço da evolução pessoal e não dá conta de lidar com as próprias questões, porque o contato com os outros é o que nos faz termos contato direto com o nosso âmago mais profundo. Não por acaso que o casamento e os relacionamentos sinceros nos exigem amadurecimento, pois o contato intenso com o outro potencializa o meu contato comigo mesmo e com meu mundo interno.
6- Para um bom relacionamento quer seja com amigos ou parceiro é fundamental estarmos bem com o que somos e fazemos?
Se eu não estou bem comigo mesmo e não trato minhas neuroses, por uma questão lógica, eu vou projetar isto nos outros à minha volta; e esta é a causa de tantos relacionamentos ruins e disfuncionais.
7- Muitas vezes as pessoas se envolvem em situações conflituosas e só deparam com esta situação depois que o leite está derramado. Como explicar isto?
A impulsividade é uma marca negativa de nossa contemporaneidade. Cada dia mais estamos produzindo crianças impulsivas, adolescentes ansiosos e adultos inconsequentes. Na palestra que fiz para o Rotary, sobre o tema "Ética na Contemporaneidade" pude abordar os três tempos lógicos que a Psicanálise formula sobre o funcionamento psíquico e que explicam o porquê de estarmos tão impulsivos e ansiosos. São eles: Instante de Ver, Tempo de Compreender e Momento de Concluir. A impulsividade típica das relações atuais não passam de uma consequência do esmagamento e diminuição do "Tempo de Compreender". Para a Psicanálise, todo pensamento, experiência, vivência, ação e comportamento passam por estes três tempos lógicos citados acima. Tudo que fazemos depende do nosso Instante de Ver e Experimentar uma determinada situação, para depois passarmos ao Tempo de Compreender esta determinada situação e elaborar o que experimentamos, para depois irmos ao Momento de Concluir, que é a decisão, reação e reposta frente ao que vi e elaborei. O grande problema é que na contemporaneidade nós passamos a eliminar o tempo de compreender e estamos curto-circuitando nosso aparelho Psíquico direto do Instante de Ver para o Momento de Concluir. Estamos cada dia mais eliminando o tempo de elaboração das coisas, o tempo de calcular as consequências, o tempo de pensar os efeitos, e passamos direto para a Conclusão! Não é à toa que estamos produzindo tantas agressões, tantos adoecimentos emocionais no corpo e tantas crianças com hiperatividade, ou seja, doenças e sintomas de uma sociedade que não mais possui o Tempo de Compreender tão necessário inclusive para sermos pessoas éticas e respeitosas com as leis e normas, cruciais para uma vida digna e saudável em sociedade.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Gratidão
Gratidão pode ser um estado de espírito ou até mesmo um sentimento.
A pessoa que sente gratidão ou se coloca aberta ao sentimento de gratidão, tem grandes chances de viver com mais paz consigo mesma e com os outros. Quanto mais gratos nos sentimos menos cobramos do outro e de nós mesmos. Este ponto aqui é o maior causador de conflitos interpessoais, ou seja, a cobrança além do que a pessoa pode dar. Idealizamos demais o outro à nossa volta, mas somos todos humanos e estamos todos no mesmo barco da evolução. Quanto mais grato eu estiver e idealizar menos quem convive comigo, menos frustrado permaneço.
A consequência mais positiva para quem consegue acessar o estado de gratidão é o viver de forma menos ansiosa, reduzindo também consideravelmente a possiblidade de desenvolver uma depressão, simplesmente porque a pessoa que está se sentindo grata considera que não há ninguém em dívida afetiva com ela, não cobra das pessoas nada além do que as pessoas conseguem dar. Sentir-se grato pelo que tem, pelo que já conquistou, pelas condições de vida na qual se encontra, gera uma liberdade da pressão de se sentir culpado e devedor consigo mesmo, logo terá mais energia para poder evoluir e conquistar; e menos tempo perderá projetando esta culpa e dívida nos outros. Com isso deixamos de achar que os culpados são os pais, o parceiro afetivo, o amigo, a professora, o chefe ou qualquer outro, e assumimos as rédeas do próprio destino.
Ter gratidão é assumir que o estado atual de sua vida e do seu entorno está exatamente do jeito que você construiu, buscou e plantou, e ninguém tem culpa disso.
Mesmo que alguém tenha lhe feito algum mal, o que você vai fazer com isso é responsabilidade sua, e a gratidão consigo mesmo por conseguir fazer algo positivo diante de uma experiência negativa é o que pode lhe dar uma vida mais digna, calma e sem as diversas neuroses doentias do cotidiano humano.
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Sexo / Sexualidade / Sexuação. O que está em jogo na nossa época hipermoderna?
A sexualidade é sempre traumática!
Para o ser humano, se posicionar frente ao mal estar sexual é um desafio desde a infância. Sofremos de falta de um instinto animal que dite as regras da nossa direção sexual. Para o humano, em sua constituição, não há necessariamente uma equivalência direta entre o sexo e a sexuação subjetiva de cada pessoa. Não há correspondência direta e exclusiva entre gênero biológico e a posição sexuada do humano, este animal civilizado e falante. A escolha sexual não é determinada exclusivamente pelo gene, mas muito pelas identificações inconscientes e pelas influências da hereditariedade (estilos, traços, modos de criação transmitidos pelas gerações nos chamados “complexos familiares”). Se antes, em outros tempos, a sexuação ou posição sexuada era abafada e restrita à dicotomia entre dois gêneros, hoje, na nossa hipermodernidade líquida, tudo é mais fluido e sem padrões estanques, ainda mais na esfera sexual.. A mudança de sexo, atualmente, está mais acessível àquela pessoa para quem a natureza de seu organismo não é compatível com sua verdade subjetiva. Para além da liberdade sexual, o que fica em jogo é o sujeito que, sem saber ao certo sua posição sexuada, fica à deriva, objetalizado no fluxo de uma lógica dita “moderna”, porém muitas vezes sem bordas e sem limites.
Para o ser humano, se posicionar frente ao mal estar sexual é um desafio desde a infância. Sofremos de falta de um instinto animal que dite as regras da nossa direção sexual. Para o humano, em sua constituição, não há necessariamente uma equivalência direta entre o sexo e a sexuação subjetiva de cada pessoa. Não há correspondência direta e exclusiva entre gênero biológico e a posição sexuada do humano, este animal civilizado e falante. A escolha sexual não é determinada exclusivamente pelo gene, mas muito pelas identificações inconscientes e pelas influências da hereditariedade (estilos, traços, modos de criação transmitidos pelas gerações nos chamados “complexos familiares”). Se antes, em outros tempos, a sexuação ou posição sexuada era abafada e restrita à dicotomia entre dois gêneros, hoje, na nossa hipermodernidade líquida, tudo é mais fluido e sem padrões estanques, ainda mais na esfera sexual.. A mudança de sexo, atualmente, está mais acessível àquela pessoa para quem a natureza de seu organismo não é compatível com sua verdade subjetiva. Para além da liberdade sexual, o que fica em jogo é o sujeito que, sem saber ao certo sua posição sexuada, fica à deriva, objetalizado no fluxo de uma lógica dita “moderna”, porém muitas vezes sem bordas e sem limites.
Fomentados
por um discurso científico de que tudo é possível, os seres contemporâneos se
lançam cada dia mais nos procedimentos de readequação sexual, os chamados
“Processos Transexualizadores”, que compreendem desde tratamentos hormonais às
intervenções cirúrgicas. Sendo assim, a mudança de sexo, atualmente, está mais
acessível àquela pessoa para quem a natureza de seu organismo não é compatível
com sua verdade subjetiva (sua sexuação ou sua posição sexuada).
Vivemos uma era onde há
uma fluidez generalizada, causando mudanças em vários setores da vida, e aqui
podemos colocar de forma especial o campo da sexualidade, engendrando assim
novas identidades, novas identificações e consequentemente novos modos de
relacionamento.
A heterossexualidade,
ou seja, a lógica da relação heterossexual encontra-se para muitos seres
contemporâneos como algo ultrapassado e arcaico, chegando a existir certos
movimentos de liberação sexual para além dos padrões estabelecidos pela moral
social. Porém, para além da liberdade sexual o que está em jogo é o sujeito
que, sem saber ao certo sua posição sexuada, permanece à deriva, objetalizado no
fluxo de uma lógica dita “moderna”, porém muitas vezes sem bordas e sem
limites.
domingo, 13 de dezembro de 2015
Crise e desastre: interface entre o social e o subjetivo
Trago aqui um resumo de minha
palestra, realizada na quarta-feira dia 02/12/15, em mais um evento no Hotel Tupyguá.
Ocasião organizada por Maria Florêncio, que sabiamente trouxe convidados
especiais implicados em pensar a condição humana e dispostos a uma reflexão
crítica a respeito da tão falada “crise”, seja ela a crise social, seja ela a
crise pessoal que cada um enfrenta em sua particularidade. Pude contar com uma
participação ativa dos convidados em perguntas e pontuações perspicazes, dignas
de pessoas atentas ao real. Segue abaixo o tema trabalhado no evento. Vou me
restringir a escrever brevemente o que levantei como provocação a partir da
Psicanálise.
Qual
é o estatuto das crises? A rigor, para a Psicanálise, toda crise é econômica!
Seja ela do Estado ou de um indivíduo, o que coloca uma existência em crise é
um problema econômico. E aqui não digo que economia, para a Psicanálise, se
restrinja ao dinheiro, ao lado financeiro da coisa. O termo ‘econômico’ nos
remete ao fator quantitativo e o quanto uma pessoa investe seu afeto, sua
energia, sua pulsão de vida nas coisas que realmente vão lhe render frutos. E o
quanto investir errado um afeto deixa um indivíduo em crise. No Estado, nos
Governos, nas políticas ou na vida particular, o que traz uma crise é um desuso
da matemática, é um descaso com o fator econômico, ou seja, é a negligência e boicote
ao investir afeto, energia e pulsão onde você já sabia que não ia dar certo.
Mas como saber que ali eu não terei um retorno interessante e irei me arruinar?
Como evitar o problema econômico que me leva à crise? Pois bem, o que nos aponta
uma crise e o que nos tira dela é o real! Basta ler o real! Assimilar o que
real nos apresenta, pois as crises são sempre anunciadas. E quem nos anuncia é
o real. Como dizia o psicanalista francês Jacques Lacan: “existe saber no
real”. Há saber no real, e somente aqueles que conseguem ler este saber no real
é que se posicionam de maneira interessante frente uma possível crise.
Um Estado ou uma
pessoa só entra em crise, quando nega o saber no real. O real não falha, os
fatos, os dados, os números, mostram, os resultados nos dizem algo, porém nós
ignoramos, passamos adiante sem nada querer deste saber, e é exatamente assim que
topamos com uma crise. Por rejeitarmos tanto o real, acabamos tendo que lidar
com rompimentos de barragens, com o retorno daquilo que evitamos tratar e que
apenas fomos guardando em um espaço onde não cabia mais tanto rejeito. O
desastre da barragem na cidade de Mariana é uma metáfora do nosso funcionamento
psíquico. O que aconteceu lá é similar ao que acontece dentro do psiquismo de
cada pessoa. Rejeitamos aquilo que não queremos saber, evitamos ter que lidar
com aquilo que o real nos mostra, e assim, nossas barragens vão se rompendo ao
longo da vida. As dores crônicas, as enxaquecas, os cânceres, as gastrites, as
somatizações diversas, não passam de sintomas sinais de que sua barragem está a
ponto de estourar.
Freud nos
afirmou certa vez que: “sofremos de reminiscências”. Ou seja, sofremos de
lembranças. A memória nos faz sofrer. Do conteúdo memorizado, deste material
guardado, o que não for tratado, retornará de forma avassaladora. O que você
rejeita em si mesmo retorna por outras vias. Não que devamos querer saber de
todo o lixo que rejeitamos; não que o ser-humano tenha que suportar todas as
suas lembranças e resgatar da barragem o material tóxico intratável e assim
suportá-lo a qualquer custo. Mas rejeitar tudo, sem um mínimo de esforço de
tratamento é o que pode sobrecarregar a barragem e colocar o aparelho psíquico
em colapso.
Em cada
indivíduo, a barragem pessoal dá sinais de que algo não vai bem, pois o saber
no real aponta e mostra. Insistir na negação desse saber no real é favorecer o
desastre. É se colocar em risco.
Colar no real,
saber ler o saber no real, fazer um bom uso da matemática na sua pulsão, não
abusar das contas de seu afeto, não investir mal sua energia, aí sim podemos
nos prevenir e sair de uma crise, na esfera particular ou na esfera pública.
A questão é
prevenir-se de si mesmo, pois há um masoquismo estrutural que insiste em nos
levar para a crise. O Ser humano precisa, no real, defender-se de sua própria
pulsão de morte. E isso não tem como negar... Ou melhor, até tem, pois muitos
vivem negando o real e pagam um alto preço por isso. Façamos as contas e
decidamos em que estamos dispostos a pagar. Você é o parâmetro de si mesmo,
portanto, sua própria solução. Basta ler o saber que existe no seu real.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Somos alegres ou felizes?
Recentemente, atendendo
ao convite carinhoso para fazer uma pequena palestra no auditório do novo Hotel
Tupyguá em Pedro Leopoldo-MG, em comemoração ao Dia da Secretária, pude trabalhar diversos temas da
nossa era contemporânea. Resolvi publicar aqui um pouco da
breve reflexão que pude levantar junto ao publico do tal evento.
Pois bem, vivemos em uma era na qual alguns estudiosos denominam de “hipermoderna”. E o que tais
estudiosos, dentre eles, sociólogos, filósofos e psicanalistas, querem nos
alertar é que estamos vivendo num estilo de vida onde tudo é “hiper”. Vivemos
em uma hipermodernidade onde não existem mais o pequeno espaço particular, onde
as coisas singelas estão perdendo sentido, onde as relações estão misturadas e sem
sentido; onde também as imagens valem mais que as palavras, onde tudo é
grandioso, imenso, rápido, acelerado, potente e cheio de informações. Ou seja,
onde tudo é hiper! Porém quanto mais hiper nós somos, menos estruturados
ficamos. O hiper te leva sempre ao olhar para fora, para o outro, e nunca para
si mesmo. Ficamos mais alienados, mais objetalizados e mais desacreditados de
nós mesmos. Tudo se resume ao quanto de “hiper” você consegue ter ou através de
quantos “hiper” você pode ser medido e avaliado.
Além de hipermodernos,
nós também nos tornamos seres líquidos. Não no sentido do líquido como a água,
mas no sentido da liquidez e do tanto que estamos a cada dia liquidando tudo e
a todos, e do quanto estamos nos liquidando como produtos e assim sendo liquidados.
As relações se tornaram líquidas, efêmeras, dispensáveis, e nós seres humanos,
estamos em liquidação!
Em meio a tanta
hipermodernidade e a tanta liquidez, somos felizes?
Felicidade é um estado
duradouro e constante, onde alguém sente-se bem mesmo com os problemas que
possui. Felicidade não é euforia e está mais próximo de um sentimento estável e
firme. Alegria é a euforia, a explosão, uma intensidade especial, porém fugaz,
evanescente e que possui um pequeno tempo de existência. Teremos vários momentos
de alegria, mas eles nunca durarão o bastante. Felicidade já é algo raro, pois
é um estado a ser conquistado com muito amadurecimento. Alegria é momento,
felicidade é um jeito de ser e de estar no mundo.
E então? Você é feliz?
Ou você vive somente de alegrias?
E pensando aqui para
além da vida particular, ampliando a provocação para nosso atual cenário no
Brasil, será que somos um povo feliz? Muitos dizem que sim, inclusive os
estrangeiros. Porém, em se tratando de Brasil, discordo plenamente e afirmo que
somos um povo alegre, não feliz. Vivemos de pequenas alegrias, entra ano e sai
ano, entra um político ou outro. Como nação, a meu ver, não experimentamos ainda
a felicidade. Não temos isso estruturado, maduro e de forma contínua. Temos
períodos de alegria, que logo acabam e assim voltamos a ser brasileiros. Voltamos
a nossa crise cotidiana de país eternamente em desenvolvimento, não
desenvolvido, não amadurecido.
A crise sempre esteve
aqui, e a alegria também, pois caminham muito bem juntas. Felicidade é para
poucos! A saída é cada um buscar a sua felicidade, e não viver somente de
alegrias. Mesmo em um país que insiste em nos liquidar com pequenos momentos de
alegrias, cada um precisa buscar sua estrutura firme, estável e cotidiana,
apesar da crise. Amadurecer com e apesar dos problemas. Viver apesar das crises
é ser maduro, e o amadurecimento é um caminho para a felicidade!
terça-feira, 11 de agosto de 2015
quarta-feira, 22 de julho de 2015
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Um problema típico dos casais... do ser-humano
Recentemente,
em uma conversa com um casal amigo, surgiu a questão do porquê dos casais terem
seu jeito particular de ser, de relacionar, tanto no modo como cada casal busca
prazer como pelo modo como são marcados pelo desprazer, brigas e atribulações.
Estas últimas, situações que aos olhos dos outros deveriam ser motivos de
rompimento, término ou mudança. O que vemos na prática é que isso muitas vezes
não muda, não causa um término e que o próprio casal se comporta de modo que o
conflito se mantenha, mesmo sem terem consciência disso.
Como
pode alguém querer viver assim dessa maneira?
A história de
vida de cada um é permeada por vivências, ensinamentos, problemas e traumas que
antes mesmo de nascermos estão prontos a serem passados de nossos ancestrais
para nós. Nossos familiares nos transmitem uma soma de experiências, e essas se
juntam àquelas situações que nós mesmos vamos presenciando desde a infância.
Assim, formamos nossa personalidade e iniciamos certos padrões de
comportamentos, repetições e imaginações que nem sempre nos trazem prazer.
Os
casais se formam exatamente a partir das fantasias e marcas inconscientes que
cada um possui e que em alguma medida se mostram favorecidas e instigadas pela
fantasia do outro. Aqui cabem as expressões populares “um gambá cheira o outro”
e “cada pé com seu chinelo”. Em um casal, os parceiros são os sintomas um do
outro, são a dor e o prazer um do outro. Cada relacionamento satisfaz pontos
particulares inconscientes de cada um, sejam pontos de sofrimento ou de prazer.
Existem motivos fortes e nem sempre tão claros para isso... e nem sempre tão
fáceis de serem abandonados.
Em
relação às situações de sofrimento, somente quando um dos dois do casal decide
não mais ficar tão entregue a esta carga inconsciente de comportamentos e de
mal estar, que uma mudança pode ocorrer. Ou o(a) parceiro(a) revê também a sua
postura, se retifica e se implica numa mudança ou o término provavelmente estará
próximo.
Somos
sim fruto de um meio, de uma criação, de cargas de nossas gerações passadas,
mas diante disso temos nossas escolhas e decisões sobre o que queremos mudar.
Antes mesmo de nascermos uma história já vinha sendo escrita e o que faremos
com isso que nos foi dado é de responsabilidade de cada um. Cada um decide o
que quer manter e repetir em um relacionamento. Ninguém é vítima de uma
situação que se repete em sua própria vida e que conta com sua própria
participação, por mais que muitos insistam em ocupar esse lugar de vítima.
Todo
ser humano traz em si um traço masoquista e extrai prazer do sofrimento. Faça
sua a responsabilidade por isso que em você se repete.
terça-feira, 11 de março de 2014
Sobre cada mulher
Em todo
dia 8 de março é comemorado o dia internacional da mulher. Uma data para
lembrar e marcar as lutas pelos direitos e melhores qualidades de vida das
mulheres. Porém esta data traz um paradoxo, pois ao mesmo tempo em que comemora
e enfatiza o valor das mulheres, contribui para aumentar a discriminação e
preconceito, assim como nas entrelinhas das comemorações em torno do dia dos
negros, do índio, da árvore, das crianças. Todos estes são os mais vitimados,
desrespeitados, subjugados e descartados da sociedade. Há por trás desses dias
comemorativos um reforço da ideia de que são seres inferiores e que precisam de
uma data para amenizar os desrespeitos e agressões que a sociedade lhes impõe a
cada dia. A árvore, o índio, a criança, as mulheres, os negros são realmente
tratados como iguais pelos nobres homens de nossa sociedade? Ao instituirmos e
legitimarmos um dia para lembrarmos das mulheres e de suas lutas ao longo da
história, automaticamente reafirmamos a discriminação sobre elas e a tornarmos
ainda mais objetalizadas.
As mulheres lutam a toda hora. As mulheres
conquistam seu espaço a todo momento. Cada mulher busca vencer os diversos
obstáculos todo dia... e o maior deles é o tornar-se mulher. Portanto, o dia
internacional da mulher deveria ser todo dia. E por ser todo dia o dia das
mulheres, deveríamos acabar com essa história de data determinada, pois uma
mulher não pode ser marcada e reservada a comemorar sua luta somente no dia 8
de março.
A mulher não é um ser que possa ser generalizado e
nem mesmo tratado de forma grupal, como por exemplo: ‘as mulheres’, ou ‘todas
as mulheres’. Mas sim devemos tomar a mulher como única e uma a uma. O psicanalista
francês Jacques Lacan em um de seus seminários chegou a afirmar que “A Mulher
não existe”, ou seja, a mulher com “M” maiúsculo não existe, pois não há algo
que unifique as mulheres em torno de um só significado ou sentido universal.
Freud, ao escrever sobre o enigma da feminilidade, lançou
a pergunta: “O que quer uma mulher?” É possível fazer a pergunta: o que quer
uma mulher? E não pergunta: o que querem as mulheres? Como se fosse possível
tratar a todas como iguais. A resposta à pergunta, o que quer uma mulher, pode
ser respondida somente se cada mulher for tomada uma a uma em sua
particularidade e singularidade, pois cada uma tem seu jeito de ser mulher, o
seu desejo e o seu querer.
Mulher não cabe em nenhuma palavra, não se encaixa
em nenhum significado, uma mulher torna-se a cada dia de forma singular e não se
restringe a uma data no ano.
Para finalizar, trago aqui a afirmação de uma
mulher mineira em sua poesia:
“Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.” Adélia Prado.
Mulher é desdobrável. Eu sou.” Adélia Prado.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Ser professor(a): missão impossível
Em homenagem aos professores, reedito aqui o
artigo que publiquei em 2011. Trata-se de uma reflexão sobre a árdua tarefa de
ser um(a) professor(a).
Freud disse por duas vezes ao longo de sua obra que
uma das profissões impossíveis existentes seria a do educador. Junto desta
profissão, outras duas impossíveis seriam a do psicanalista e a do governante.
O que há em comum em tais profissões que as fazem serem consideradas
impossíveis? Ser professor(a), uma tarefa impossível, visto a
impossibilidade de conseguir fazer alguém entender algo por completo. Ser
psicanalista, um trabalho impossível frente à impossibilidade de fazer alguém
se livrar de sua neurose por completo. Ser governante, uma profissão impossível
diante da difícil tarefa de atender todos os anseios e diferentes desejos da
população.
As escolas e o papel do educador foram ao longo dos
tempos perdendo sua função exclusivamente científica, ou talvez nunca a
exercessem de verdade, porque as famílias aprenderam a deixar nas mãos dos
professores funções muitas vezes não exercidas em casa, ou seja, as de pai e
mãe.
A modernização e a globalização do mundo fizeram os
pais e mães correrem para o trabalho e negligenciarem em grande parte a
condução dos filhos, seja nos estudos, seja nos modos de comportamento, seja no
jeito de respeitar a vida em comunidade e os outros. O que fazer se o trabalho
cada dia mais afasta os pais dos filhos? Muitos dirão: Mande-os para a escola!
Quanto mais tempo por lá ficarem, melhor será. Portanto, para quem fica toda a
carga de responsabilidade? Professor herói! Professora santa!
Mas os(as) professores(as) são tão fortes assim? Não
há dúvidas de que nossos educadores estão sofrendo e adoecendo. Afinal de
contas, pai e mãe muitos já são em casa e ainda têm que ser no local de
trabalho. Os que não são pais e mães na vida real, não possuem obrigação
nenhuma de passarem a ser.
Mas o problema também nasce de outro ponto. O
professor é gente. Sofre, adoece, sente medo, possui fraquezas e sonhos. Porém,
fomos acostumados a enxergar no educador uma figura forte e inabalável. Quando
pequenos, admirávamos sua posição de sabedoria e conhecimento. Quando éramos
adolescentes, desconfiávamos desta autoridade toda e exigíamos que nos dessem
mais responsabilidade e liberdade. Porém quando adultos então “responsáveis” e
“livres”, entregamos novamente a eles as nossas responsabilidades como pais, e
voltamos a depender deles. No entanto não os admiramos mais, e sim os cobramos,
exigimos e reclamamos como se fossem obrigados a cuidar de nossos filhos e de
nós mesmos indiretamente.
O que percebo nessas mães reclamonas e nesses pais
brigões de porta de escola é um pedido de ajuda. Uma forma indireta de dizer
que as coisas não andam nada bem em casa. A culpa diante do problema do filho é
esvaziada ao colocar o problema como consequência da incapacidade do professor
que não foi bom o bastante. Coitado(a) dos(as) professores(as), viraram
psicanalistas também. Só faltam serem governantes. Isso é um trabalho para a
Santa Professorinha ou para o Super-Professor-herói!
domingo, 13 de outubro de 2013
Um ato produz mais efeito do que muitas palavras
"Quando verão que o que prefiro é um discurso sem palavras?"
Jacques Lacan - 1968
Conclusão de 'Alocução sobre as psicoses da criança'. In "Outros Escritos"
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Entrevista ao Jornal Observador para o Dia dos Pais
Pais
protetores
Nenhum
pai deseja perigo para seus filhos. Porém o risco de proteger excessivamente
pode se transformar numa dificuldade para ambos os lados, ocasionando falta de
compreensão e atrapalhando o desenvolvimento das crianças. O OBSERVADOR conversou
com o psicanalista Thales Siqueira de Carvalho
A criança, junto com seu pai, coberta de roupas da
cabeça aos pés, vai fazer uma pequena visita a seus avós. Durante o percurso, a
viagem é paralisada de quinze em quinze minutos, para que o pai verifique se
seu garotinho está limpo, como faz sempre. Chegando à casa dos avós, não
permite que a criança engatinhe no chão. Brincar somente no tapete, também não.
Satisfeito, o pai acha que, cuidando desta maneira,
está fazendo com que seu pimpolho fique longe de todas as ameaças. A verdade é
que, quanto mais zelo tem, mais receio de que o perigo possa acontecer. Dessa
forma, pai e filho vão se acostumando e, sem notar, os responsáveis passam a
proteger demais seus filhos deixando-os isolados. E se seguirem com isso, futuramente,
o seu filho terá de conviver com crianças, mas sem nenhuma preparação para
encarar o mundo.
Entre obrigação natural de dar proteção às crianças
e os exageros da proteção, vários pais têm dificuldades em colocar seus
próprios limites. Aos poucos, o que era comum, como não deixar que a criança
fique brincando na areia do parque onde muitos gatos e cachorros passam, se
torna uma ação radical de nem levar o filho ao chão.
Assim, até chegar à adolescência e mesmo quando
adulto, os pais colocam uma difícil relação com seus filhos, que ocasiona
incompreensão dos dois lados e atrapalha a autoconfiança dos pequenos. “Meus
pais sempre retiraram as dificuldades que poderiam surgir para mim e me
facilitavam as coisas. O interessante é que faziam isto para fazer cobrança
depois. Eu compreendo a intenção deles, que é boa, mas isso atualmente me traz
sequelas horrorosas. Não consigo lutar sozinho pelas coisas e correr atrás das
minhas metas. Fui muito mimado”. Relata um jovem profissional liberal.
Este é um comportamento dos pais que dão muita
proteção aos filhos. O objetivo, como disse o jovem, é ajudar só que, terminam
criando uma relação de dependência e dificuldade para se desenvolver. O
psicanalista Thales Siqueira de Carvalho, é Especialista em Teoria Psicanalítica
e Mestre em Investigações Clínicas Psicanalíticas. Há 8 anos atende em seu
consultório em Pedro Leopoldo-MG e Belo Horizonte-MG. Ele comenta a realidade
de superproteção que se referiu o jovem: “Na verdade, a superproteção de um pai ou de
uma mãe revela a insegurança dos pais e não do filho. Quando um comportamento
ou estilo de vida é perpetuado pelas gerações, os filhos tendem a repetir os
pais no futuro. No caso, provavelmente, esse jeito do pai para com o filho têm
suas raízes na maneira como este pai foi criado em sua infância. Não é por
acaso que se comporta assim com o filho e os motivos disso podem ser tratados
em análise, para que um destino menos angustiante seja dado a esse conflito”.
Muitos pais abdicam totalmente da proteção. Esta
seria uma boa conduta para deixar que a criança caminhe com suas próprias
pernas? Thales responde: “proteção demais ou a ausência total dela dá na mesma, ou
seja, em ambas as situações o filho crescerá de forma insegura e sem conseguir
lidar sozinho com os desafios da vida. É fundamental que o filho sinta que pode
contar com os pais, mas um poder contar quando precisar e não o tempo todo e de
forma esmagadora. Exercer a função paterna é muitas vezes fazer uma presença
pontual e não sufocante. É preciso saber que há um tempo para o filho deixar
aberturas para que os pais entrem, pois também vai querer se virar sozinho em
determinados momentos”.
O que se observa é que
em diversos momentos, é mais fácil interferir para solucionar um problema do
que deixar que o filho o avalie e mostre suas condições de resolvê-lo. Como
esta atitude pode interferir na formação da personalidade da criança? “a personalidade se forma ao longo dos
primeiros anos de vida, e uma criança crescer em um meio em que os pais resolvam
tudo por ela acaba gerando um funcionamento psíquico de dependência extrema, de
modo que a criança, no futuro vá repetir ocasiões em que isso novamente venha à
tona, ou seja, provavelmente vai buscar se colocar em situações em que precise
sempre de alguém para resolver as coisas por ela, seja no trabalho, escola e
relacionamentos amorosos. Nós passamos a vida repetindo inconscientemente uma
tentativa de revivermos aquelas relações afetivas infantis para com os pais,
mesmo que desprazerosas e causadoras de angústia”.
É fundamental para os pais descobrir que a forma de
levar a vida é baseada no equilíbrio entre colocar as mãos e regressar, para
deixar que as crianças conduzam realmente as suas vidas. Sem isto, não terá
valor a importância de decidir, de reconhecer suas possibilidades e também seus
limites. Ajudar os filhos a crescer: esta é uma prova de amor realmente. Thales
ainda complementa: “É preciso alguém para realizar a função
paterna, não o tempo todo, mas de forma consistente no tempo que for preciso. Ser
pai e mãe é inclusive saber se fazer faltar para o filho. Pois é a partir da
falta que um filho se movimenta e cresce, mas isso não pode ser uma falta
completa, pois aí teríamos a devastação”.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
A tal “alma gêmea” existe?
De onde
vem essa expressão?
Vem da mitologia grega tentando
explicar o porquê de sermos seres entregues à paixão. E especificamente na obra
“O Banquete” de Platão, encontramos um discurso sobre o nascimento da ideia de
alma gêmea. Trata-se de um castigo dos Deuses que ao perceberem os humanos
completos em si mesmos, autossuficientes afetivamente por serem andrógenos
(homem e mulher no mesmo corpo), promoveram uma cisão/separação ao meio,
condenando a raça humana a procurar eternamente essa outra metade separada.
Carregamos esse ímpeto de busca pela
alma gêmea, pela cara-metade perdida, e que acreditamos nos completar.
Só vivemos dignamente quando temos paixão, desejo e
graça com a vida. É fundamental amar para que possamos suportar as árduas
situações que a vida nos impõe no cotidiano. Porém, em um relacionamento,
quando depositamos ali toda a felicidade de forma idealizada, de certa forma,
depositamos o destino de nosso futuro nas mãos de um Outro, que por ser também um
imperfeito humano, está passível de fracasso e desacerto. Isto é, nosso tão
sonhado futuro ideal nunca será alcançado.
Relacionar e viver a dois deve ser algo que
preserve espaço para a falta e para a renovação, caso contrário a decepção pode
ser esmagadora e paralisante. Para haver desejo é preciso haver falta. O
próprio nome já diz: “viver a dois” e não “viver a um”, em função de um, já que
um afeto quando é unilateral só provoca alienação. Amar é trocar sentimentos,
pois, mesmo que sejam desproporcionais e desiguais é possível haver afinidades.
É na diferença que um casal se mantém, afinal de contas, amar alguém e ser
amado por este alguém é sempre um encontro desencontrado ou desencontro
encontrado.
A “alma gêmea”, de gêmea ela não tem quase nada,
mas o pouco que tem já basta para iniciar um laço... e não um nó.
"Amar é dar o que não se tem" Jacques Lacan
Aproveitando a proximidade com o Dia dos Namorados, comemorado pelos brasileiros no dia 12 de junho, o ParPerfeito(www.parperfeito.com.br), maior site de relacionamento do Brasil, realizou uma pesquisa com 2.500 usuários para descobrir quais atitudes podem determinar o fim de um relacionamento. E, por incrível que pareça, a falta de romantismo foi determinante para que 40% dos homens entrevistados colocassem um ponto final em alguma relação que já tiveram. Parece que eles estão mais românticos do que imaginávamos. No ranking geral, os maus hábitos, como fumar e beber, aparecem em segundo lugar com 23% dos votos. O interesse por outra pessoa vem logo em seguida, com 19% das escolhas.
Ao questionar as mulheres sobre o mesmo assunto, a pesquisa do ParPerfeito mostrou que elas têm a mesma opinião que o público masculino. Para a mulherada a falta de romantismo também vem em primeiro lugar, com 50% dos votos, maus hábitos em segundo, com 31% das escolhas, e interesse em outra pessoa em terceiro, com 13% das respostas. Confira abaixo o resultado completo da pesquisa.
HOMENS
O que já te fez terminar um relacionamento sério?
Falta de romantismo 40%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 23%
Interesse por outra pessoa 19%
Não se dar bem com a família do parceiro 17%
Ganhar um presente ruim 1%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013
MULHERES
O que já te fez terminar um relacionamento?
Falta de romantismo 50%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 31%
Interesse por outra pessoa 13%
Não se dar bem com a família do parceiro 6%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013
Ao questionar as mulheres sobre o mesmo assunto, a pesquisa do ParPerfeito mostrou que elas têm a mesma opinião que o público masculino. Para a mulherada a falta de romantismo também vem em primeiro lugar, com 50% dos votos, maus hábitos em segundo, com 31% das escolhas, e interesse em outra pessoa em terceiro, com 13% das respostas. Confira abaixo o resultado completo da pesquisa.
HOMENS
O que já te fez terminar um relacionamento sério?
Falta de romantismo 40%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 23%
Interesse por outra pessoa 19%
Não se dar bem com a família do parceiro 17%
Ganhar um presente ruim 1%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013
MULHERES
O que já te fez terminar um relacionamento?
Falta de romantismo 50%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 31%
Interesse por outra pessoa 13%
Não se dar bem com a família do parceiro 6%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013
Li a pesquisa e pude concluir que trata-se de uma queixa corriqueira da vida cotidiana. Ou seja, estamos diante da insatisfação que o ser humano tem com qualquer um que seja o seu parceiro amoroso.
Idealizamos demais o outro e queremos que ele nos supra de todas as formas. Essa é uma tentativa frustrada, pois ao depositarmos a ilusão de completude no outro estamos fadado ao desapontamento.
Quando gostamos de alguém depositamos todo nosso narcisismo insatisfeito nessa pessoa, e demandamos que essa pessoa preencha nossos furos e faltas.
Amar não é viver completo, mas saber viver com a falta, já que ninguém irá nos tirar desse desamparo estrutural que temos e que nunca curaremos. Podemos sim aprender a viver com esse desamparo eterno, sem que isso seja um problema, mas tornando-se uma causa de vida e de amor. Porém, um amor que respeite as diferenças e desacertos, já que conforme Jacques Lacan "amar é dar o que não se tem".
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Uma conclusão sobre a causa do terrorismo
O terrorismo vem se mostrando cada dia
mais presente em nossa sociedade. Em diversos graus e de diversas formas,
atentados consumados e ameaças violentas estão cada vez mais banalizadas em nosso
cotidiano. Recentemente fomos surpreendidos com mais um ato terrorista nos EUA,
especificamente na maratona de Boston. Os responsabilizados pelo ato são dois
irmãos de 19 e 26 anos, religiosos islâmicos radicais que defendiam a luta pela
independência da Chechênia, república que hoje faz parte da Federação Russa.
Não somente neste caso específico, mas
em qualquer ato que esteja motivado por religião, causa política ou étnica, tem
como pano de fundo um narcisismo doentio, que fazem os indivíduos terroristas considerarem
qualquer diferença ou alteridade como algo insuportável e digno de ser
eliminado. A causa do terrorismo é um narcisismo desmedido e sem limite!
Provavelmente os irmãos chechenos
estariam em uma identificação narcísica sob um ideal acreditado como inabalável
e acima de qualquer impedimento. Fato que pode os ter feito tomar a atitude
radical do atentado, em nome de um objetivo idealizado, inquestionável e
supremo.
Os seres humanos, quando identificados
com um objetivo comum, são capazes de realizar atos extremos em nome de uma
identidade grupal, ideal político ou por conta de uma alienação à figura de um
líder. Toda manifestação agressiva contra algum grupo, população ou pessoa
específica, passa por uma causa imaginária em torno de alguma idealização
narcísica, que, por algum motivo, ficou abalada ou ameaçada. A violência é uma
reação defensiva para que o buraco no narcisismo daquele que se sentiu ferido seja
remediado. Um exemplo clássico e trágico disso foi o nazismo, que, a propósito, tem homofonia com a palavra narcisismo.
Temos um imenso desafio atualmente: pedem-nos
paz e respeito ao próximo, mas estamos cada vez mais narcísicos e menos tolerantes com a diferença. Todos
nós, de alguma forma, violentamos o outro que é diferente de nós, sejam com
palavras ou atos. Quem nunca se sentiu incomodado diante daquele que lhe é diferente
e assim reagiu com algum comentário ou um mínimo pensamento discriminador? O
problema é que a intolerância de muitos acaba gerando reações extremas e
doentias, que saem do nível do pensamento e chegam ao nível do ato. Portanto, qual
será o nosso destino? Seremos um bando de narcísicos terroristas, cada um na
sua bolha, destruindo uns aos outros em nome daquele ideal que acreditamos ser
melhor que o do vizinho?
Há uma grande diferença entre um
comentário e uma reação violenta, assim como há diferença entre sentir repulsa
e passar ao ato. Porém todos nós somos narcísicos, cada um na sua medida, e não
suportamos aquele que não nos é semelhante. Já dizia Caetano Veloso na música 'Sampa': “quando eu te encontrei frente a
frente não vi o meu rosto. Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau
gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho”.
Fobia
Um dos grandes sintomas psíquicos que
encontramos nos seres humanos é a tão famosa “fobia”, seja ela de qual objeto
ou coisa for. Os fóbicos sofrem muito com isso, e sem mesmo terem consciência
do porquê de tal comportamento, sentem a pressão e o peso da fobia como algo
devastador. Não se trata de um medo simples, mas algo intenso e sem controle.
Diferentemente do medo simples (que é vital e funcional para nossa vida, fazendo
protegermo-nos e evitarmos problemas), a fobia traz muitas limitações e danos
sociais para aquele que a sente.
Mas o que é uma fobia? Por que alguém
chega a se comportar assim? De onde vem esse horror intenso diante de alguma
coisa, a princípio tão simples? Impossível conversarmos sobre isso em apenas um
artigo, mas podemos fazer aqui uma reflexão importante.
Não há como
falarmos da fobia se não colocarmos em pauta a questão do inconsciente e da
presença de um sistema inconsciente funcionando em nós, alheio à nossa vontade
consciente. Um inconsciente que dita a nossa forma de comportamento no mundo,
independente da nossa parte racional.
A fobia, seja ela um medo intenso de
algum animal, fato, situação ou até mesmo a fobia social, têm suas raízes em
questões inconscientes mal elaboradas e que solicitam expressão e descarga
pulsional, mesmo que por vias tortas e drásticas como nessas manifestações de
medo intenso e horror.
O medo extremo, o horror incontrolável
diante de alguma coisa pode ser a descarga indireta de um conflito inconsciente
que provavelmente venha de uma experiência que gerou grande carga psíquica.
Temos nossas defesas, nossas saídas,
nossas válvulas de escape... Enfim, nossos sintomas pelos quais a pulsão
encontra formas de descarga. Sintomas forjados inconscientemente, e que exigem
de nós, muita energia e desgaste para serem contornados, assim como no momento
de tratá-los. Ou seja, esvaziar uma fobia, exige empenho e paciência, pois não
se vai à raiz inconsciente de um problema de maneira rápida e nem mesmo em um
clique, da forma como estamos acostumados a fazer com tudo nessa vida
hipermoderna que levamos.
Quando se trata de um ser humano, o
tempo é outro!
Quando se trata de inconsciente, a
lógica é outra!
quarta-feira, 27 de março de 2013
Desejo decidido
Há uma grande diferença entre desejar e
ter um desejo decidido. Podemos passar uma vida inteira sonhando com as coisas
que gostaríamos de realizar e assim vivermos na via do desejo insatisfeito ou
impossível de concretizar. Isso é o pior!
O ser humano
comete um grande erro ao manter o seu desejo como algo distante e inatingível,
muito em função da ocupação com a realização do desejo dos outros. Há certa
satisfação na dor da não conquista, do insucesso, e assim, muitos ficam parados
nesse “eu desejo” e não se movimentam no “eu realizo”. Tem sempre algum ponto
condensado ou alguma coisa pela qual nós nos deixamos ficar apenas no estado do
“desejar”. É como se a cada corrida ficássemos na linha de largada imaginando o
quanto seria bom o percurso até a linha de chegada. Chegar é preciso, e a graça
da vida não está somente na chegada, mas no percurso que traçamos até lá. João Guimarães
Rosa em “Grande Sertão: Veredas” já nos alertou: “O real não está na saída nem
na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
O desejo decidido é aquele que
realizamos sem medo e sem necessidade de garantias e certezas. Realizamos
porque queremos. É o que nos tira da inércia da insatisfação e nos coloca a dar
um passo a mais na vida... fazer girar o moinho que vivia estagnado na ideia de
quem sabe um dia algo fosse fazê-lo girar.
Desejar é fundamental para seguirmos com
a vida adiante, mas ficar no desejo em estado imaginário, sem concluí-lo, é um
engano. Cada um tem seu tempo e seu modo de lidar com o desejo, um tempo
particular pelo qual não podemos nos deixar levar sem uma responsabilização,
afinal de contas, este tempo da decisão é cada um quem o faz, produzindo o
efeito de solavanco que nos tira da angústia da estagnação. É o solavanco que
somente cada um pode operar em sua vida, de modo que a decisão de hoje promova
aberturas para novas decisões futuras.
Se há algo que o desejo nos ensina é que
por ele não se pode passar sem a coragem de realizá-lo. É preciso rigor para
fazer, do desejo, algo decidido. Um rigor de conclusão, ou então ficamos na
imaginação estéril e paralisante. Aqui mora a diferença radical entre o desejar
infinito e o desejo concluído.
No próximo artigo falarei sobre “fobia”.
Até lá!
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