quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Redes Sociais: sintoma contemporâneo da recusa da vida real

A recusa do encontro real para restringir a vida ao mundo virtual é um sintoma de nossa contemporaneidade. Estamos cada dia mais virtuais e menos virtuosos. O encontro real com os outros e a convivência com as diferenças dos outros é um desafio cotidiano que exige de nós muita adaptação, paciência e compreensão. Tudo isto é o que nos faz crescer e evoluir, mas é também ao mesmo tempo tudo que o sujeito contemporâneo hipermoderno quer evitar, fugindo para o mundo virtual, onde tudo é lindo, fácil, rápido, na hora que eu quero, e que quando não quero basta eu "deletar", "excluir" ou "bloquear" e escolher logo outro ser humano objeto, da forma como fazemos nas prateleiras de supermercados e lojas. Estamos todos em liquidação e a vida se tornou um grande mercado!
O mundo das redes sociais é um mundo paralelo e totalmente diferente do mundo real. É um mundo fácil, porém esta facilidade cobra um preço, que é a nossa cotidiana incapacidade de lidar com as adversidades e desafios da vida real. Estamos cada dia mais impulsivos, imediatistas e incapazes de elaborar dificuldades, de lidar com perdas e de assimilar as diferenças. Não é por acaso que temos percebido o aumento da intolerância e agressividade, pois se não tenho condições de deletar e bloquear o outro na vida real eu parto para a agressão verbal e física, já que não sei dialogar, conversar e entender que o mundo não vai ser do jeito que acredito virtualmente. Nossos jovens não estão aprendendo a construir o futuro, a planejar para colher resultados, mas sim estão a prendendo a ter satisfações imediatas e rápidas sem precisar persistência e aprendizagem ao longo do caminho. O que isto causa? Ansiedade e comportamentos impulsivos, além de melancolia e isolamento, pois satisfação fácil e rápida não preenche o vazio existencial, apenas ilude, engana e faz crescer o rombo interior no Eu.
Este sintoma contemporâneo de exclusão do contato real tem nos obrigado a reduzir nossa comunicação à escrita de poucas palavras e às imagens, onde a voz, o diálogo coeso e o contato ao vivo ficam em segundo plano. O grande problema é que este contato virtual, mesmo que com diversas pessoas ao mesmo tempo não substitui o real das sensações de um encontro ao vivo. E quanto mais abrimos mão do contato ao vivo, numa fuga do desafio de aceitar o outro bem como evitação dos sentimentos que isto desperta, mais a gente busca satisfações substitutas de formas excessivas e sem controle, como drogas, consumismo, jogos, alimentação e sexualidade. E quanto mais caímos na compulsão excessiva mais fechamo-nos em uma bolha narcísica. Assim, menos estruturados e menos aptos para a VIDA REAL ficamos.
Diante das diferenças no contato com os outros que deparamo-nos com aquilo que, em nós mesmos, precisamos mudar, evoluir e tratar. O fechamento narcísico virtual só nos adoece e mortifica. O contato com os outros é um espelho que me mostra projetivamente aquilo que não suporto em mim mesmo, experiência importante com a qual posso escolher me fazer uma pessoa mais madura e crescer como ser-humano. Mas quem é que quer crescer né? 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Freud, Inteligência Emocional e Comunicação Não-violenta

      Um dos grandes desafios de nossa contemporaneidade é a comunicação não violenta, já que a agressividade tem se mostrado cada dia mais explícita, desmedida e presente em nosso cotidiano.
         O ser humano comporta-se muitas vezes escolhendo o caminho mais fácil e reage a determinada situação com posturas agressivas, violentas e sem limites civilizatórios. Este tipo de reação imediatista faz parte da estrutura humana, e se cada pessoa não se dedicar ao esforço interno, a tendência é ficarmos neste automático da reação violenta, seja em atos, seja em palavras, gestos e comportamentos. Aliás, um grande sintoma do adoecimento social de nossa época é exatamente este automatismo impulsivo que temos adotado ao invés do diálogo, da comunicação e do uso da linguagem. Preferimos funcionar pela via do caminho mais fácil da resposta agressiva automática do que parar, pensar, elaborar, construir e apresentar uma reação diferente, civilizada e, portanto, mais voltada para o bem da sociedade. O caminho mais fácil nem sempre é o melhor. O caminho mais difícil e que exige mais esforço é, nestes casos, um grande investimento com retorno positivo garantido.
Freud, em 1930, no texto “O mal-estar na Civilização” apresenta uma de suas teses quando fala do conflito e sofrimento que surge da incompatibilidade entre os anseios particulares de cada pessoa e o meio social, ou seja, o conflito entre o que quero fazer e o que posso fazer dentro do que é permitido, pois a vida civilizada exige-nos renunciar às nossas pulsões mais íntimas em prol da vida em comunidade. Freud fala que um os grandes sofrimentos do humano é ter que constantemente abrir mão de algumas vontades, como por exemplo, sexuais e agressivas, em prol da convivência pacífica com os outros e com a lei. A inteligência emocional, ou se preferirem em outras palavras, a pessoa com a mente mais organizada e saudável sofre menos diante dos desafios da vida civilizada e diante das renúncias que precisa acatar, pois consegue, mesmo frustrado em alguma medida, que isto não o faça reagir pela via da impulsividade e nem mesmo pela via do ato desmedido, desequilibrado e contra as normas sociais. O inteligente emocionalmente sabe que cada desafio na vida civilizada é uma chance para amadurecer, viver melhor e mais estruturado.
Uma pessoa se mostra psiquicamente bem estruturada, quando recebe e sofre um estímulo de agressão, desrespeito, injúria, mas mesmo assim constrói outras saídas para o problema, que a impedem inclusive de entrar no jogo da comunicação violenta e sofrer junto com o agressor. Quanto mais reagimos no nível da agressão, mais nos prendemos ao ciclo violento e sofremos junto àquele que nos agrediu. Para livrarmo-nos de situações agressivas, a primeira medida é sair do ciclo violento ao qual o agressor lhe convidou a entrar, a permanecer e sofrer com ele. A saída do núcleo estressor não é nem a reação, nem a vingança, mas a construção de outra possibilidade, que pode ser muitas vezes o posicionamento não violento, a comunicação não violenta ou outras maneiras de quebrar o impulso que chegou até você. Quando recebemos um impulso violento devemos quebrar e romper este ciclo adoecedor com uma simples postura de comunicação não violenta. O contrário a isto, ou seja, reagir na mesma linha, deixa sobre nós, consequências negativas e aumento do problema. E quem sofre ainda mais são as pessoas que ficam aí alimentando a cena, que se não for esvaziada, rende mais sofrimento e desprazer.
Fiquem atentos pois, nós seres humanos, adoramos sofrer e estamos sempre por aí convidando uns aos outros para entrarmos numa situação de violência, agressão, desrespeito e assim ficarmos todos abraçados afundando neste mar de masoquismo, ao invés de seguirmos rumo à evolução e ao bem estar.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Trabalho e realização pessoal: dinheiro traz felicidade?

Desde os primórdios da evolução da nossa espécie, o ser-humano por necessidade de sobrevivência, desenvolveu a habilidade de fabricar utensílios, ferramentas, artifícios e moradas que o possibilitasse sobreviver, vencer as dificuldades da natureza e perpetuar a espécie. O trabalho existe no nosso DNA e esteve conosco desde nossa tomada de consciência como Homo Sapiens. O pensar e o agir são características fundamentais da nossa espécie, que então é considerada Homo Sapiens e Homo Faber, respectivamente, Humano que Pensa e Humano que Fabrica. O trabalho representa nossa sobrevivência, representa nossa tomada de consciência e atitude para realizarmos coisas que nos possibilitem continuarmos vivos como espécie. Com o passar da evolução e tecnologia, trabalhos de outros humanos acabaram nos deixando mais confortáveis e menos ambiciosos, já que muito já foi feito, realizado, pensado e construído. Atualmente, o ser humano não se sente somente tão obrigado a trabalhar para perpetuar a espécie e sobreviver, mas muito mais para consumir e ter objetos e bens. A lógica do Homo Faber, na contemporaneidade, não é mais a mesma de antes, pois trabalha-se muito mais para ter dinheiro do que para se sentir realizado em uma função profissional. Estão cada dia mais raros os seres humanos que trabalham com o que gostam, possuem paixão e dom. Por que? Porque nossas crianças crescem aprendendo a lutar somente pelo ter e não pelo ser. O ter não é um problema, mas se torna adoecedor quando não está em conjunto com um propósito pessoal de realização subjetiva. Não é a toa que vemos diversos jovens se formando em profissões por conta do salário e não porque possuem aptidão, gosto e satisfação com aquela tal profissão. E nessas horas as expectativas dos pais e da família podem ser esmagadoras, reprimindo nos filhos anseios pessoais que ficam ofuscados em nome da busca pelo salário. Volto a dizer: ter dinheiro não precisa ser um problema e todos nós temos direito de sermos prósperos financeiramente, mas quando a busca cega pelo dinheiro esmaga a subjetividade e os sonhos pessoais, a chance de você ser uma pessoa com dinheiro mas adoecida emocionalmente se torna bastante alta. E o adoecimento emocional necessariamente adoece o corpo. Logo, se você não respeitar seus desejos particulares e seu propósito de satisfação pessoal no trabalho, a chance de você ser uma pessoa rica, porém sem saúde é quase certa.Sendo assim, é importante que cada um identifique sintomas que podem dar sinais de insatisfação com o trabalho, como irritabilidade, humor rebaixado, rompantes agressivos, pressão alta, ansiedade, pensamento acelerado, alto consumo de álcool, drogas ou abuso de alimentos, principalmente frituras e doces (mecanismo de compensação, que pelo sabor e prazer substituem frustrações de outro setor da vida). Quando estivermos insatisfeitos no trabalho, podemos readequar a rotina, mudar logísticas de funcionamento, ou até mesmo rever se realmente estamos trabalhando com o coração ou só com a mente. Ou seja, você trabalha por realização pessoal ou por realização bancária? Vale lembrar que é possível realizar as duas coisas ao mesmo tempo, isto é, trabalhar com o que gosta e ser próspero financeiramente, já que quando estamos no nosso propósito do coração e realizando aquilo que nos dá emoção, o dinheiro fluirá com naturalidade e estaremos cuidando automaticamente da nossa saúde biopsicossocial. A vida só pode ser plenamente vivida quando o consumo está sob nossa gestão e a nosso favor e não quando somos escravos dele. Ou seja, é o dinheiro quem tem que estar para nós e não nós para ele. O dinheiro precisa ser uma ferramenta em que o humano possa usar e não um senhor do qual o ser humano se torna objeto. Dinheiro sim traz felicidade, mas somente se a pessoa é dona do próprio destino. Dinheiro não traz felicidade quando o dinheiro é o único destino da vida da pessoa. A escolha é de cada um, e as consequências também.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A subjetividade é terreno inviolável: reflexão em tempos de intolerância política

Recentemente fui perguntado sobre o que a Psicanálise teria a dizer quanto a um episódio de repúdio por parte de um adulto frente à posição política momentânea de um adolescente. Posição política esta do adolescente, incompatível com a posição subjetiva deste adulto.
O que a Psicanálise pode dizer e esclarecer é que uma posição política ou uma escolha ideológica é uma das formas de expressão da subjetividade, principalmente de um adolescente, em transição, em plena metamorfose pessoal e em formação de presença singular no mundo. Ou seja, estamos no campo da esfera íntima e particular. Estamos no campo da liberdade de o sujeito decidir ser quem quiser, da forma como quiser e compartilhar dos pensamentos que no momento lhe fizerem ter uma identidade. Se esta postura transcender a ordem pública ou invadir o direito alheio, então temos os aparelhos de poder do Estado para mediarem, conterem e se for o caso, até mesmo punirem.
Interpelar a subjetividade de um ser humano sem o direito formal instituído para tal dever social é invadir um terreno sensível, e no caso de um adolescente em plena formação de personalidade é invadir um terreno frágil. Os efeitos de tal desrespeito podem ser graves, a depender do nível de estruturação ao qual o adolescente já esteja desenvolvido e do nível de suporte familiar que possui.
            Nunca devemos nos esquecer que a adolescência é tempo de turbulência, metamorfoses e mudanças. Uma postura política, ideológica ou pensamento de um adolescente pode logo a frente mudar-se, visto que o sujeito adolescente está em plena experimentação, em plena construção, e qualquer intervenção irresponsável frente a este sujeito pode lhe trazer prejuízos psíquicos importantes.
            Atualmente, temos atravessados tempos difíceis de intolerância e narcisismo, onde as pessoas acreditam serem melhores ou terem posturas mais maduras do que outras e devido a isto se sentem no direito de atacar, julgar e punir. O cenário político brasileiro e mundial têm dado mostras deste narcisismo egoísta que agride tudo e todos que não lhe parecem iguais. A diferença virou motivo de agressão! Cito Caetano Veloso na música ‘Sampa’ “é que narciso acha feio o que não é espelho”.

Cada um precisa cuidar de si, pois o julgamento nada mais é do que a imperfeição própria sendo projetada especularmente no próximo. Quanto mais eu julgo mais eu dou a prova de que eu estou mal resolvido comigo mesmo. A projeção é um mecanismo psíquico em que coloco no outro uma agressividade que eu mesmo tenho contra minha própria pessoa. Porém, os outros não têm nada a ver com isso e não precisam pagar um preço pela minha imaturidade e falta de inteligência emocional. A perfeição não está comigo, nem com você, nem com adulto, nem mesmo com o adolescente. Já diziam as pessoas mais espiritualizadas: A perfeição não é deste mundo!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Inteligência Emocional: estar bem consigo mesmo

Seguem aqui as respostas que produzi frente às perguntas do Sr. Samuel Tadeu, Editor-chefe do Jornal Observador de Pedro Leopoldo-MG, a respeito do tema "Sentir-se bem consigo mesmo", algo que eu mesmo entendi como relacionado ao campo da "Inteligência Emocional".

1- O que significa estar bem consigo mesmo?
Principalmente ter desenvolvido a inteligência emocional suficiente para ser autorresponsável por todo o destino de sua vida e por tudo que lhe ocorre, juntamente com o sentimento de gratidão por tudo que enfrentou, conquistou e desenvolveu, ou seja, grato consigo mesmo pela luta pessoal do cotidiano, pelas conquistas, pelas vitórias, pelas derrotas e erros com os quais pode aprender e evoluir. Além disso, para a pessoa se sentir bem consigo mesma uma das condições primordiais é a de não se sentir vitimada, pois a posição vitimada produz rancor, desgosto e baixa autoestima. O vitimado nunca estará bem consigo mesmo, já que estar numa condição de vítima é dizer para si mesmo e para o mundo que ela não é boa o suficiente e não merece se sentir capaz. A vítima é a personificação da derrota; e se a pessoa se sente derrotada como poderá ficar bem? Impossível.

2- O que leva a pessoa a não estar bem com ela mesma?
Sensação de não merecimento, culpa, ingratidão e baixa autoestima. Tudo isto somado à posição vitimada é o que leva uma pessoa a fechar as portas da possibilidade de se sentir bem consigo mesma. A pessoa que não se respeita, não se trata bem, não se perdoa, não se ama, e sente que não merece viver bem, automaticamente sem pensar e sem ter consciência disso irá tomar decisões e atitudes que o levarão ao pior. Portanto, inconscientemente a pessoa que não se sente bem consigo mesma busca se punir, se adoecer e se fazer mal, numa espécie de masoquismo velado e bem disfarçado em uma posição de vítima dos outros e do mundo.

(Perguntas 3, 4 e 5 juntas em uma só resposta)
3- Qual a importância de ter ao nosso lado a presença de outras pessoas? 4- Por que a presença do outro às vezes nos incomoda tanto? 5- Seria este o motivo relacionado ao isolamento de muitas pessoas?
O ser-humano é ao mesmo tempo um ser social e avesso ao seu semelhante. Carregamos internamente esta divisão e conflito de ao mesmo tempo que queremos contato, nós temos uma aversão ao que os outros causam e despertam. A presença do outro em nossas vidas é a fonte de onde mais recebemos feedback e retorno de como somos, como estamos e o que sentimos. Somente no convívio com o outro que eu me torno um sujeito melhor comigo mesmo e evoluo. Porém é importante ressaltar que não são os outros que me dizem quem sou, mas é pelo convívio com o outros que eu mesmo me descubro quem eu sou. Sozinho isso seria impossível, pois ninguém acessa a si mesmo se não for pelas experiências que colhe fora.
A presença do outro às vezes incomoda somente quando eu encontro no outro algum traço de minha personalidade, característica ou jeito que eu mesmo possuo e não suporto ou não gosto. Nosso aparelho psíquico funciona muito pela via do mecanismo da Projeção Inconsciente, e quando eu encontro no outro a semelhança de algo em mim que não gosto ou que eu não mais gostaria de ter, eu projeto inconscientemente minha raiva, frustração e revolta. O ser humano não gosta no outro exatamente aquilo que internamente em si próprio não está dando conta. Para que os outros passem a te incomodar menos olhe para si mesmo e descubra o que esta relação específica está despertando em si mesmo. Ao se tratar e ao se livrar de suas neuroses e traços de personalidades disfuncionais, você automaticamente passará a não se incomodar tanto com alguns outros à sua volta. A coisa é inconsciente e é séria! A pessoa que se isola não está afim de se encarar, não consegue pagar o preço da evolução pessoal e não dá conta de lidar com as próprias questões, porque o contato com os outros é o que nos faz termos contato direto com o nosso âmago mais profundo. Não por acaso que o casamento e os relacionamentos sinceros nos exigem amadurecimento, pois o contato intenso com o outro potencializa o meu contato comigo mesmo e com meu mundo interno.

6- Para um bom relacionamento quer seja com amigos ou parceiro é fundamental estarmos bem com o que somos e fazemos?
Se eu não estou bem comigo mesmo e não trato minhas neuroses, por uma questão lógica, eu vou projetar isto nos outros à minha volta; e esta é a causa de tantos relacionamentos ruins e disfuncionais.

7- Muitas vezes as pessoas se envolvem em situações conflituosas e só deparam com esta situação depois que o leite está derramado. Como explicar isto?
A impulsividade é uma marca negativa de nossa contemporaneidade. Cada dia mais estamos produzindo crianças impulsivas, adolescentes ansiosos e adultos inconsequentes. Na palestra que fiz para o Rotary, sobre o tema "Ética na Contemporaneidade" pude abordar os três tempos lógicos que a Psicanálise formula sobre o funcionamento psíquico e que explicam o porquê de estarmos tão impulsivos e ansiosos. São eles: Instante de Ver, Tempo de Compreender e Momento de Concluir. A impulsividade típica das relações atuais não passam de uma consequência do esmagamento e diminuição do "Tempo de Compreender". Para a Psicanálise, todo pensamento, experiência, vivência, ação e comportamento passam por estes três tempos lógicos citados acima. Tudo que fazemos depende do nosso Instante de Ver e Experimentar uma determinada situação, para depois passarmos ao Tempo de Compreender esta determinada situação e elaborar o que experimentamos, para depois irmos ao Momento de Concluir, que é a decisão, reação e reposta frente ao que vi e elaborei. O grande problema é que na contemporaneidade nós passamos a eliminar o tempo de compreender e estamos curto-circuitando nosso aparelho Psíquico direto do Instante de Ver para o Momento de Concluir. Estamos cada dia mais eliminando o tempo de elaboração das coisas, o tempo de calcular as consequências, o tempo de pensar os efeitos, e passamos direto para a Conclusão! Não é à toa que estamos produzindo tantas agressões, tantos adoecimentos emocionais no corpo e tantas crianças com hiperatividade, ou seja, doenças e sintomas de uma sociedade que não mais possui o Tempo de Compreender tão necessário inclusive para sermos pessoas éticas e respeitosas com as leis e normas, cruciais para uma vida digna e saudável em sociedade.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Gratidão

Gratidão pode ser um estado de espírito ou até mesmo um sentimento.
A pessoa que sente gratidão ou se coloca aberta ao sentimento de gratidão, tem grandes chances de viver com mais paz consigo mesma e com os outros. Quanto mais gratos nos sentimos menos cobramos do outro e de nós mesmos. Este ponto aqui é o maior causador de conflitos interpessoais, ou seja, a cobrança além do que a pessoa pode dar. Idealizamos demais o outro à nossa volta, mas somos todos humanos e estamos todos no mesmo barco da evolução. Quanto mais grato eu estiver e idealizar menos quem convive comigo, menos frustrado permaneço.
A consequência mais positiva para quem consegue acessar o estado de gratidão é o viver de forma menos ansiosa, reduzindo também consideravelmente a possiblidade de desenvolver uma depressão, simplesmente porque a pessoa que está se sentindo grata considera que não há ninguém em dívida afetiva com ela, não cobra das pessoas nada além do que as pessoas conseguem dar. Sentir-se grato pelo que tem, pelo que já conquistou, pelas condições de vida na qual se encontra, gera uma liberdade da pressão de se sentir culpado e devedor consigo mesmo, logo terá mais energia para poder evoluir e conquistar; e menos tempo perderá projetando esta culpa e dívida nos outros. Com isso deixamos de achar que os culpados são os pais, o parceiro afetivo, o amigo, a professora, o chefe ou qualquer outro, e assumimos as rédeas do próprio destino.
Ter gratidão é assumir que o estado atual de sua vida e do seu entorno está exatamente do jeito que você construiu, buscou e plantou, e ninguém tem culpa disso.
Mesmo que alguém tenha lhe feito algum mal, o que você vai fazer com isso é responsabilidade sua, e a gratidão consigo mesmo por conseguir fazer algo positivo diante de uma experiência negativa é o que pode lhe dar uma vida mais digna, calma e sem as diversas neuroses doentias do cotidiano humano.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sexo / Sexualidade / Sexuação. O que está em jogo na nossa época hipermoderna?

A sexualidade é sempre traumática!
Para o ser humano, se posicionar frente ao mal estar sexual é um desafio desde a infância. Sofremos de falta de um instinto animal que dite as regras da nossa direção sexual. Para o humano, em sua constituição, não há necessariamente uma equivalência direta entre o sexo e a sexuação subjetiva de cada pessoa. Não há correspondência direta e exclusiva entre gênero biológico e a posição sexuada do humano, este animal civilizado e falante. A escolha sexual não é determinada exclusivamente pelo gene, mas muito pelas identificações inconscientes e pelas influências da hereditariedade (estilos, traços, modos de criação transmitidos pelas gerações nos chamados “complexos familiares”). Se antes, em outros tempos, a sexuação ou posição sexuada era abafada e restrita à dicotomia entre dois gêneros, hoje, na nossa hipermodernidade líquida, tudo é mais fluido e sem padrões estanques, ainda mais na esfera sexual.. A mudança de sexo, atualmente, está mais acessível àquela pessoa para quem a natureza de seu organismo não é compatível com sua verdade subjetiva. Para além da liberdade sexual, o que fica em jogo é o sujeito que, sem saber ao certo sua posição sexuada, fica à deriva, objetalizado no fluxo de uma lógica dita “moderna”, porém muitas vezes sem bordas e sem limites.
         Fomentados por um discurso científico de que tudo é possível, os seres contemporâneos se lançam cada dia mais nos procedimentos de readequação sexual, os chamados “Processos Transexualizadores”, que compreendem desde tratamentos hormonais às intervenções cirúrgicas. Sendo assim, a mudança de sexo, atualmente, está mais acessível àquela pessoa para quem a natureza de seu organismo não é compatível com sua verdade subjetiva (sua sexuação ou sua posição sexuada).
Vivemos uma era onde há uma fluidez generalizada, causando mudanças em vários setores da vida, e aqui podemos colocar de forma especial o campo da sexualidade, engendrando assim novas identidades, novas identificações e consequentemente novos modos de relacionamento.

A heterossexualidade, ou seja, a lógica da relação heterossexual encontra-se para muitos seres contemporâneos como algo ultrapassado e arcaico, chegando a existir certos movimentos de liberação sexual para além dos padrões estabelecidos pela moral social. Porém, para além da liberdade sexual o que está em jogo é o sujeito que, sem saber ao certo sua posição sexuada, permanece à deriva, objetalizado no fluxo de uma lógica dita “moderna”, porém muitas vezes sem bordas e sem limites.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Crise e desastre: interface entre o social e o subjetivo

Trago aqui um resumo de minha palestra, realizada na quarta-feira dia 02/12/15, em mais um evento no Hotel Tupyguá. Ocasião organizada por Maria Florêncio, que sabiamente trouxe convidados especiais implicados em pensar a condição humana e dispostos a uma reflexão crítica a respeito da tão falada “crise”, seja ela a crise social, seja ela a crise pessoal que cada um enfrenta em sua particularidade. Pude contar com uma participação ativa dos convidados em perguntas e pontuações perspicazes, dignas de pessoas atentas ao real. Segue abaixo o tema trabalhado no evento. Vou me restringir a escrever brevemente o que levantei como provocação a partir da Psicanálise.
            Qual é o estatuto das crises? A rigor, para a Psicanálise, toda crise é econômica! Seja ela do Estado ou de um indivíduo, o que coloca uma existência em crise é um problema econômico. E aqui não digo que economia, para a Psicanálise, se restrinja ao dinheiro, ao lado financeiro da coisa. O termo ‘econômico’ nos remete ao fator quantitativo e o quanto uma pessoa investe seu afeto, sua energia, sua pulsão de vida nas coisas que realmente vão lhe render frutos. E o quanto investir errado um afeto deixa um indivíduo em crise. No Estado, nos Governos, nas políticas ou na vida particular, o que traz uma crise é um desuso da matemática, é um descaso com o fator econômico, ou seja, é a negligência e boicote ao investir afeto, energia e pulsão onde você já sabia que não ia dar certo. Mas como saber que ali eu não terei um retorno interessante e irei me arruinar? Como evitar o problema econômico que me leva à crise? Pois bem, o que nos aponta uma crise e o que nos tira dela é o real! Basta ler o real! Assimilar o que real nos apresenta, pois as crises são sempre anunciadas. E quem nos anuncia é o real. Como dizia o psicanalista francês Jacques Lacan: “existe saber no real”. Há saber no real, e somente aqueles que conseguem ler este saber no real é que se posicionam de maneira interessante frente uma possível crise.
Um Estado ou uma pessoa só entra em crise, quando nega o saber no real. O real não falha, os fatos, os dados, os números, mostram, os resultados nos dizem algo, porém nós ignoramos, passamos adiante sem nada querer deste saber, e é exatamente assim que topamos com uma crise. Por rejeitarmos tanto o real, acabamos tendo que lidar com rompimentos de barragens, com o retorno daquilo que evitamos tratar e que apenas fomos guardando em um espaço onde não cabia mais tanto rejeito. O desastre da barragem na cidade de Mariana é uma metáfora do nosso funcionamento psíquico. O que aconteceu lá é similar ao que acontece dentro do psiquismo de cada pessoa. Rejeitamos aquilo que não queremos saber, evitamos ter que lidar com aquilo que o real nos mostra, e assim, nossas barragens vão se rompendo ao longo da vida. As dores crônicas, as enxaquecas, os cânceres, as gastrites, as somatizações diversas, não passam de sintomas sinais de que sua barragem está a ponto de estourar.
Freud nos afirmou certa vez que: “sofremos de reminiscências”. Ou seja, sofremos de lembranças. A memória nos faz sofrer. Do conteúdo memorizado, deste material guardado, o que não for tratado, retornará de forma avassaladora. O que você rejeita em si mesmo retorna por outras vias. Não que devamos querer saber de todo o lixo que rejeitamos; não que o ser-humano tenha que suportar todas as suas lembranças e resgatar da barragem o material tóxico intratável e assim suportá-lo a qualquer custo. Mas rejeitar tudo, sem um mínimo de esforço de tratamento é o que pode sobrecarregar a barragem e colocar o aparelho psíquico em colapso.
Em cada indivíduo, a barragem pessoal dá sinais de que algo não vai bem, pois o saber no real aponta e mostra. Insistir na negação desse saber no real é favorecer o desastre. É se colocar em risco.
Colar no real, saber ler o saber no real, fazer um bom uso da matemática na sua pulsão, não abusar das contas de seu afeto, não investir mal sua energia, aí sim podemos nos prevenir e sair de uma crise, na esfera particular ou na esfera pública.
A questão é prevenir-se de si mesmo, pois há um masoquismo estrutural que insiste em nos levar para a crise. O Ser humano precisa, no real, defender-se de sua própria pulsão de morte. E isso não tem como negar... Ou melhor, até tem, pois muitos vivem negando o real e pagam um alto preço por isso. Façamos as contas e decidamos em que estamos dispostos a pagar. Você é o parâmetro de si mesmo, portanto, sua própria solução. Basta ler o saber que existe no seu real.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Somos alegres ou felizes?

Recentemente, atendendo ao convite carinhoso para fazer uma pequena palestra no auditório do novo Hotel Tupyguá em Pedro Leopoldo-MG, em comemoração ao Dia da Secretária, pude trabalhar diversos temas da nossa era contemporânea. Resolvi publicar aqui um pouco da breve reflexão que pude levantar junto ao publico do tal evento.
Pois bem, vivemos em uma era na qual alguns estudiosos denominam de “hipermoderna”. E o que tais estudiosos, dentre eles, sociólogos, filósofos e psicanalistas, querem nos alertar é que estamos vivendo num estilo de vida onde tudo é “hiper”. Vivemos em uma hipermodernidade onde não existem mais o pequeno espaço particular, onde as coisas singelas estão perdendo sentido, onde as relações estão misturadas e sem sentido; onde também as imagens valem mais que as palavras, onde tudo é grandioso, imenso, rápido, acelerado, potente e cheio de informações. Ou seja, onde tudo é hiper! Porém quanto mais hiper nós somos, menos estruturados ficamos. O hiper te leva sempre ao olhar para fora, para o outro, e nunca para si mesmo. Ficamos mais alienados, mais objetalizados e mais desacreditados de nós mesmos. Tudo se resume ao quanto de “hiper” você consegue ter ou através de quantos “hiper” você pode ser medido e avaliado.
Além de hipermodernos, nós também nos tornamos seres líquidos. Não no sentido do líquido como a água, mas no sentido da liquidez e do tanto que estamos a cada dia liquidando tudo e a todos, e do quanto estamos nos liquidando como produtos e assim sendo liquidados. As relações se tornaram líquidas, efêmeras, dispensáveis, e nós seres humanos, estamos em liquidação!
Em meio a tanta hipermodernidade e a tanta liquidez, somos felizes?
Felicidade é um estado duradouro e constante, onde alguém sente-se bem mesmo com os problemas que possui. Felicidade não é euforia e está mais próximo de um sentimento estável e firme. Alegria é a euforia, a explosão, uma intensidade especial, porém fugaz, evanescente e que possui um pequeno tempo de existência. Teremos vários momentos de alegria, mas eles nunca durarão o bastante. Felicidade já é algo raro, pois é um estado a ser conquistado com muito amadurecimento. Alegria é momento, felicidade é um jeito de ser e de estar no mundo.
E então? Você é feliz? Ou você vive somente de alegrias?
E pensando aqui para além da vida particular, ampliando a provocação para nosso atual cenário no Brasil, será que somos um povo feliz? Muitos dizem que sim, inclusive os estrangeiros. Porém, em se tratando de Brasil, discordo plenamente e afirmo que somos um povo alegre, não feliz. Vivemos de pequenas alegrias, entra ano e sai ano, entra um político ou outro. Como nação, a meu ver, não experimentamos ainda a felicidade. Não temos isso estruturado, maduro e de forma contínua. Temos períodos de alegria, que logo acabam e assim voltamos a ser brasileiros. Voltamos a nossa crise cotidiana de país eternamente em desenvolvimento, não desenvolvido, não amadurecido.

A crise sempre esteve aqui, e a alegria também, pois caminham muito bem juntas. Felicidade é para poucos! A saída é cada um buscar a sua felicidade, e não viver somente de alegrias. Mesmo em um país que insiste em nos liquidar com pequenos momentos de alegrias, cada um precisa buscar sua estrutura firme, estável e cotidiana, apesar da crise. Amadurecer com e apesar dos problemas. Viver apesar das crises é ser maduro, e o amadurecimento é um caminho para a felicidade!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um problema típico dos casais... do ser-humano

Recentemente, em uma conversa com um casal amigo, surgiu a questão do porquê dos casais terem seu jeito particular de ser, de relacionar, tanto no modo como cada casal busca prazer como pelo modo como são marcados pelo desprazer, brigas e atribulações. Estas últimas, situações que aos olhos dos outros deveriam ser motivos de rompimento, término ou mudança. O que vemos na prática é que isso muitas vezes não muda, não causa um término e que o próprio casal se comporta de modo que o conflito se mantenha, mesmo sem terem consciência disso.
Como pode alguém querer viver assim dessa maneira?
A história de vida de cada um é permeada por vivências, ensinamentos, problemas e traumas que antes mesmo de nascermos estão prontos a serem passados de nossos ancestrais para nós. Nossos familiares nos transmitem uma soma de experiências, e essas se juntam àquelas situações que nós mesmos vamos presenciando desde a infância. Assim, formamos nossa personalidade e iniciamos certos padrões de comportamentos, repetições e imaginações que nem sempre nos trazem prazer.

Os casais se formam exatamente a partir das fantasias e marcas inconscientes que cada um possui e que em alguma medida se mostram favorecidas e instigadas pela fantasia do outro. Aqui cabem as expressões populares “um gambá cheira o outro” e “cada pé com seu chinelo”. Em um casal, os parceiros são os sintomas um do outro, são a dor e o prazer um do outro. Cada relacionamento satisfaz pontos particulares inconscientes de cada um, sejam pontos de sofrimento ou de prazer. Existem motivos fortes e nem sempre tão claros para isso... e nem sempre tão fáceis de serem abandonados.
Em relação às situações de sofrimento, somente quando um dos dois do casal decide não mais ficar tão entregue a esta carga inconsciente de comportamentos e de mal estar, que uma mudança pode ocorrer. Ou o(a) parceiro(a) revê também a sua postura, se retifica e se implica numa mudança ou o término provavelmente estará próximo.
Somos sim fruto de um meio, de uma criação, de cargas de nossas gerações passadas, mas diante disso temos nossas escolhas e decisões sobre o que queremos mudar. Antes mesmo de nascermos uma história já vinha sendo escrita e o que faremos com isso que nos foi dado é de responsabilidade de cada um. Cada um decide o que quer manter e repetir em um relacionamento. Ninguém é vítima de uma situação que se repete em sua própria vida e que conta com sua própria participação, por mais que muitos insistam em ocupar esse lugar de vítima.

Todo ser humano traz em si um traço masoquista e extrai prazer do sofrimento. Faça sua a responsabilidade por isso que em você se repete.

terça-feira, 11 de março de 2014

Sobre cada mulher

Em todo dia 8 de março é comemorado o dia internacional da mulher. Uma data para lembrar e marcar as lutas pelos direitos e melhores qualidades de vida das mulheres. Porém esta data traz um paradoxo, pois ao mesmo tempo em que comemora e enfatiza o valor das mulheres, contribui para aumentar a discriminação e preconceito, assim como nas entrelinhas das comemorações em torno do dia dos negros, do índio, da árvore, das crianças. Todos estes são os mais vitimados, desrespeitados, subjugados e descartados da sociedade. Há por trás desses dias comemorativos um reforço da ideia de que são seres inferiores e que precisam de uma data para amenizar os desrespeitos e agressões que a sociedade lhes impõe a cada dia. A árvore, o índio, a criança, as mulheres, os negros são realmente tratados como iguais pelos nobres homens de nossa sociedade? Ao instituirmos e legitimarmos um dia para lembrarmos das mulheres e de suas lutas ao longo da história, automaticamente reafirmamos a discriminação sobre elas e a tornarmos ainda mais objetalizadas.

As mulheres lutam a toda hora. As mulheres conquistam seu espaço a todo momento. Cada mulher busca vencer os diversos obstáculos todo dia... e o maior deles é o tornar-se mulher. Portanto, o dia internacional da mulher deveria ser todo dia. E por ser todo dia o dia das mulheres, deveríamos acabar com essa história de data determinada, pois uma mulher não pode ser marcada e reservada a comemorar sua luta somente no dia 8 de março.
A mulher não é um ser que possa ser generalizado e nem mesmo tratado de forma grupal, como por exemplo: ‘as mulheres’, ou ‘todas as mulheres’. Mas sim devemos tomar a mulher como única e uma a uma. O psicanalista francês Jacques Lacan em um de seus seminários chegou a afirmar que “A Mulher não existe”, ou seja, a mulher com “M” maiúsculo não existe, pois não há algo que unifique as mulheres em torno de um só significado ou sentido universal.
Freud, ao escrever sobre o enigma da feminilidade, lançou a pergunta: “O que quer uma mulher?” É possível fazer a pergunta: o que quer uma mulher? E não pergunta: o que querem as mulheres? Como se fosse possível tratar a todas como iguais. A resposta à pergunta, o que quer uma mulher, pode ser respondida somente se cada mulher for tomada uma a uma em sua particularidade e singularidade, pois cada uma tem seu jeito de ser mulher, o seu desejo e o seu querer.
Mulher não cabe em nenhuma palavra, não se encaixa em nenhum significado, uma mulher torna-se a cada dia de forma singular e não se restringe a uma data no ano.
Para finalizar, trago aqui a afirmação de uma mulher mineira em sua poesia:

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou
.” Adélia Prado.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ser professor(a): missão impossível



Em homenagem aos professores, reedito aqui o artigo que publiquei em 2011. Trata-se de uma reflexão sobre a árdua tarefa de ser um(a) professor(a).
Freud disse por duas vezes ao longo de sua obra que uma das profissões impossíveis existentes seria a do educador. Junto desta profissão, outras duas impossíveis seriam a do psicanalista e a do governante. O que há em comum em tais profissões que as fazem serem consideradas impossíveis? Ser professor(a), uma tarefa impossível, visto a impossibilidade de conseguir fazer alguém entender algo por completo. Ser psicanalista, um trabalho impossível frente à impossibilidade de fazer alguém se livrar de sua neurose por completo. Ser governante, uma profissão impossível diante da difícil tarefa de atender todos os anseios e diferentes desejos da população.
As escolas e o papel do educador foram ao longo dos tempos perdendo sua função exclusivamente científica, ou talvez nunca a exercessem de verdade, porque as famílias aprenderam a deixar nas mãos dos professores funções muitas vezes não exercidas em casa, ou seja, as de pai e mãe.

A modernização e a globalização do mundo fizeram os pais e mães correrem para o trabalho e negligenciarem em grande parte a condução dos filhos, seja nos estudos, seja nos modos de comportamento, seja no jeito de respeitar a vida em comunidade e os outros. O que fazer se o trabalho cada dia mais afasta os pais dos filhos? Muitos dirão: Mande-os para a escola! Quanto mais tempo por lá ficarem, melhor será. Portanto, para quem fica toda a carga de responsabilidade? Professor herói! Professora santa!
Mas os(as) professores(as) são tão fortes assim? Não há dúvidas de que nossos educadores estão sofrendo e adoecendo. Afinal de contas, pai e mãe muitos já são em casa e ainda têm que ser no local de trabalho. Os que não são pais e mães na vida real, não possuem obrigação nenhuma de passarem a ser.
Mas o problema também nasce de outro ponto. O professor é gente. Sofre, adoece, sente medo, possui fraquezas e sonhos. Porém, fomos acostumados a enxergar no educador uma figura forte e inabalável. Quando pequenos, admirávamos sua posição de sabedoria e conhecimento. Quando éramos adolescentes, desconfiávamos desta autoridade toda e exigíamos que nos dessem mais responsabilidade e liberdade. Porém quando adultos então “responsáveis” e “livres”, entregamos novamente a eles as nossas responsabilidades como pais, e voltamos a depender deles. No entanto não os admiramos mais, e sim os cobramos, exigimos e reclamamos como se fossem obrigados a cuidar de nossos filhos e de nós mesmos indiretamente.
O que percebo nessas mães reclamonas e nesses pais brigões de porta de escola é um pedido de ajuda. Uma forma indireta de dizer que as coisas não andam nada bem em casa. A culpa diante do problema do filho é esvaziada ao colocar o problema como consequência da incapacidade do professor que não foi bom o bastante. Coitado(a) dos(as) professores(as), viraram psicanalistas também. Só faltam serem governantes. Isso é um trabalho para a Santa Professorinha ou para o Super-Professor-herói!

domingo, 13 de outubro de 2013

Um ato produz mais efeito do que muitas palavras

"Quando verão que o que prefiro é um discurso sem palavras?"
Jacques Lacan - 1968
Conclusão de 'Alocução sobre as psicoses da criança'. In "Outros Escritos"

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entrevista ao Jornal Observador para o Dia dos Pais

Pais protetores
Nenhum pai deseja perigo para seus filhos. Porém o risco de proteger excessivamente pode se transformar numa dificuldade para ambos os lados, ocasionando falta de compreensão e atrapalhando o desenvolvimento das crianças. O OBSERVADOR conversou com o psicanalista Thales Siqueira de Carvalho

A criança, junto com seu pai, coberta de roupas da cabeça aos pés, vai fazer uma pequena visita a seus avós. Durante o percurso, a viagem é paralisada de quinze em quinze minutos, para que o pai verifique se seu garotinho está limpo, como faz sempre. Chegando à casa dos avós, não permite que a criança engatinhe no chão. Brincar somente no tapete, também não.
Satisfeito, o pai acha que, cuidando desta maneira, está fazendo com que seu pimpolho fique longe de todas as ameaças. A verdade é que, quanto mais zelo tem, mais receio de que o perigo possa acontecer. Dessa forma, pai e filho vão se acostumando e, sem notar, os responsáveis passam a proteger demais seus filhos deixando-os isolados. E se seguirem com isso, futuramente, o seu filho terá de conviver com crianças, mas sem nenhuma preparação para encarar o mundo.
Entre obrigação natural de dar proteção às crianças e os exageros da proteção, vários pais têm dificuldades em colocar seus próprios limites. Aos poucos, o que era comum, como não deixar que a criança fique brincando na areia do parque onde muitos gatos e cachorros passam, se torna uma ação radical de nem levar o filho ao chão.
Assim, até chegar à adolescência e mesmo quando adulto, os pais colocam uma difícil relação com seus filhos, que ocasiona incompreensão dos dois lados e atrapalha a autoconfiança dos pequenos. “Meus pais sempre retiraram as dificuldades que poderiam surgir para mim e me facilitavam as coisas. O interessante é que faziam isto para fazer cobrança depois. Eu compreendo a intenção deles, que é boa, mas isso atualmente me traz sequelas horrorosas. Não consigo lutar sozinho pelas coisas e correr atrás das minhas metas. Fui muito mimado”. Relata um jovem profissional liberal.
Este é um comportamento dos pais que dão muita proteção aos filhos. O objetivo, como disse o jovem, é ajudar só que, terminam criando uma relação de dependência e dificuldade para se desenvolver. O psicanalista Thales Siqueira de Carvalho, é Especialista em Teoria Psicanalítica e Mestre em Investigações Clínicas Psicanalíticas. Há 8 anos atende em seu consultório em Pedro Leopoldo-MG e Belo Horizonte-MG. Ele comenta a realidade de superproteção que se referiu o jovem:  “Na verdade, a superproteção de um pai ou de uma mãe revela a insegurança dos pais e não do filho. Quando um comportamento ou estilo de vida é perpetuado pelas gerações, os filhos tendem a repetir os pais no futuro. No caso, provavelmente, esse jeito do pai para com o filho têm suas raízes na maneira como este pai foi criado em sua infância. Não é por acaso que se comporta assim com o filho e os motivos disso podem ser tratados em análise, para que um destino menos angustiante seja dado a esse conflito”.
Muitos pais abdicam totalmente da proteção. Esta seria uma boa conduta para deixar que a criança caminhe com suas próprias pernas?  Thales responde: “proteção demais ou a ausência total dela dá na mesma, ou seja, em ambas as situações o filho crescerá de forma insegura e sem conseguir lidar sozinho com os desafios da vida. É fundamental que o filho sinta que pode contar com os pais, mas um poder contar quando precisar e não o tempo todo e de forma esmagadora. Exercer a função paterna é muitas vezes fazer uma presença pontual e não sufocante. É preciso saber que há um tempo para o filho deixar aberturas para que os pais entrem, pois também vai querer se virar sozinho em determinados momentos”.
O que se observa é que em diversos momentos, é mais fácil interferir para solucionar um problema do que deixar que o filho o avalie e mostre suas condições de resolvê-lo. Como esta atitude pode interferir na formação da personalidade da criança? “a personalidade se forma ao longo dos primeiros anos de vida, e uma criança crescer em um meio em que os pais resolvam tudo por ela acaba gerando um funcionamento psíquico de dependência extrema, de modo que a criança, no futuro vá repetir ocasiões em que isso novamente venha à tona, ou seja, provavelmente vai buscar se colocar em situações em que precise sempre de alguém para resolver as coisas por ela, seja no trabalho, escola e relacionamentos amorosos. Nós passamos a vida repetindo inconscientemente uma tentativa de revivermos aquelas relações afetivas infantis para com os pais, mesmo que desprazerosas e causadoras de angústia”.
É fundamental para os pais descobrir que a forma de levar a vida é baseada no equilíbrio entre colocar as mãos e regressar, para deixar que as crianças conduzam realmente as suas vidas. Sem isto, não terá valor a importância de decidir, de reconhecer suas possibilidades e também seus limites. Ajudar os filhos a crescer: esta é uma prova de amor realmente. Thales ainda complementa: “É preciso alguém para realizar a função paterna, não o tempo todo, mas de forma consistente no tempo que for preciso. Ser pai e mãe é inclusive saber se fazer faltar para o filho. Pois é a partir da falta que um filho se movimenta e cresce, mas isso não pode ser uma falta completa, pois aí teríamos a devastação”.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

A tal “alma gêmea” existe?

De onde vem essa expressão?
   Vem da mitologia grega tentando explicar o porquê de sermos seres entregues à paixão. E especificamente na obra “O Banquete” de Platão, encontramos um discurso sobre o nascimento da ideia de alma gêmea. Trata-se de um castigo dos Deuses que ao perceberem os humanos completos em si mesmos, autossuficientes afetivamente por serem andrógenos (homem e mulher no mesmo corpo), promoveram uma cisão/separação ao meio, condenando a raça humana a procurar eternamente essa outra metade separada.
         Carregamos esse ímpeto de busca pela alma gêmea, pela cara-metade perdida, e que acreditamos nos completar.
        Só vivemos dignamente quando temos paixão, desejo e graça com a vida. É fundamental amar para que possamos suportar as árduas situações que a vida nos impõe no cotidiano. Porém, em um relacionamento, quando depositamos ali toda a felicidade de forma idealizada, de certa forma, depositamos o destino de nosso futuro nas mãos de um Outro, que por ser também um imperfeito humano, está passível de fracasso e desacerto. Isto é, nosso tão sonhado futuro ideal nunca será alcançado.
Relacionar e viver a dois deve ser algo que preserve espaço para a falta e para a renovação, caso contrário a decepção pode ser esmagadora e paralisante. Para haver desejo é preciso haver falta. O próprio nome já diz: “viver a dois” e não “viver a um”, em função de um, já que um afeto quando é unilateral só provoca alienação. Amar é trocar sentimentos, pois, mesmo que sejam desproporcionais e desiguais é possível haver afinidades. É na diferença que um casal se mantém, afinal de contas, amar alguém e ser amado por este alguém é sempre um encontro desencontrado ou desencontro encontrado.

A “alma gêmea”, de gêmea ela não tem quase nada, mas o pouco que tem já basta para iniciar um laço... e não um nó.

"Amar é dar o que não se tem" Jacques Lacan

Aproveitando a proximidade com o Dia dos Namorados, comemorado pelos brasileiros no dia 12 de junho, o ParPerfeito(www.parperfeito.com.br), maior site de relacionamento do Brasil, realizou uma pesquisa com 2.500 usuários para descobrir quais atitudes podem determinar o fim de um relacionamento. E, por incrível que pareça, a falta de romantismo foi determinante para que 40% dos homens entrevistados colocassem um ponto final em alguma relação que já tiveram. Parece que eles estão mais românticos do que imaginávamos. No ranking geral, os maus hábitos, como fumar e beber, aparecem em segundo lugar com 23% dos votos. O interesse por outra pessoa vem logo em seguida, com 19% das escolhas.
Ao questionar as mulheres sobre o mesmo assunto, a pesquisa do ParPerfeito mostrou que elas têm a mesma opinião que o público masculino. Para a mulherada a falta de romantismo também vem em primeiro lugar, com 50% dos votos, maus hábitos em segundo, com 31% das escolhas, e interesse em outra pessoa em terceiro, com 13% das respostas. Confira abaixo o resultado completo da pesquisa.


HOMENS
O que já te fez terminar um relacionamento sério?
Falta de romantismo 40%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 23%
Interesse por outra pessoa 19%
Não se dar bem com a família do parceiro 17%
Ganhar um presente ruim 1%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013

MULHERES
O que já te fez terminar um relacionamento?
Falta de romantismo 50%
Maus hábitos (beber, fumar, entre outros) 31%
Interesse por outra pessoa 13%
Não se dar bem com a família do parceiro 6%
Fonte: ParPerfeito - Maio/2013

Li a pesquisa e pude concluir que trata-se de uma queixa corriqueira da vida cotidiana. Ou seja, estamos diante da insatisfação que o ser humano tem com qualquer um que seja o seu parceiro amoroso.
Idealizamos demais o outro e queremos que ele nos supra de todas as formas. Essa é uma tentativa frustrada, pois ao depositarmos a ilusão de completude no outro estamos fadado ao desapontamento.
Quando gostamos de alguém depositamos todo nosso narcisismo insatisfeito nessa pessoa, e demandamos que essa pessoa preencha nossos furos e faltas.
Amar não é viver completo, mas saber viver com a falta, já que ninguém irá nos tirar desse desamparo estrutural que temos e que nunca curaremos. Podemos sim aprender a viver com esse desamparo eterno, sem que isso seja um problema, mas tornando-se uma causa de vida e de amor. Porém, um amor que respeite as diferenças e desacertos, já que conforme Jacques Lacan "amar é dar o que não se tem".